José Marcio de Camargo
Coluna
José Marcio de Camargo

PhD em Economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e economista chefe da Genial Investimentos

Correndo atrás do prejuízo

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A decisão do presidente Trump de taxar a economia brasileira com uma tarifa de 50%, a mais elevada entre todos os países até o momento, gerou forte reação no governo brasileiro. Ao contrário das cartas enviadas pelo presidente Trump a outros países, nas quais coloca o desequilíbrio comercial entre os dois países como o principal motivo, no caso do Brasil, além do motivo econômico, aponta motivos eminentemente políticos para justificar uma tarifa tão maior que a de outros países.

Questões políticas parecem ter pesado na decisão do presidente Trump. Primeiro, a movimentação dos países dos BRICS, enfatizada pelo Presidente Lula na cúpula do grupo no Rio de Janeiro, de criar uma moeda comum para substituir o Dólar como moeda de comércio entre os países do BRICS. Segundo o presidente Trump, caso o grupo tente caminhar nesta direção, receberiam tarifação adicional de 10% sobre todas as exportações para os Estados Unidos.

O segundo ponto é também político, além de econômico: a decisão do Supremo Tribunal Federal de restringir liberdade de expressão através das big techs, grandes empresas de mídia social americanas instaladas no Brasil. Além de restringir a liberdade de expressão, o Brasil é o segundo mercado mais importante destas empresas, e a decisão do STF pode afetar de forma significativa seus lucros. O ministro Alexandre de Moraes já foi indiciado por três vezes pela Justiça da Flórida para responder à acusação de censurar empresas (e cidadãos) americanas de mídia social.

Uma razão puramente política, explicitamente citada na carta para justificar as tarifas, é a avaliação do presidente Trump de que, apesar do ex-Presidente Jair Bolsonaro ser inocente da acusação de tentativa de golpe de Estado, está sendo perseguido pela Justiça brasileira, uma “caça às bruxas”.

Além das razões apontadas acima, uma questão que parece estar incomodando bastante o presidente Trump é a política externa do governo brasileiro: apoio a governos não democráticos, a grupos terroristas como o Hamas, Hezbollah e Houthis, a forte rejeição à reação de Israel ao atentado terrorista do Hamas, chamando a reação israelense de um genocídio, similar ao Holocausto, a reação negativa aos bombardeios americanos às instalações nucleares iranianas, entre outros fatores.

Somente com base nas questões econômicas, a decisão é claramente excessiva e não justificada. A utilização de questões não econômicas somente tem se justificado historicamente diante de situações limites, como o embargo comercial da Venezuela, Cuba e Irã, por exemplo. A decisão de penalizar fortemente o Brasil pode ser um sinal de que o presidente Trump considera que o Brasil caminha para um cenário próximo ao destes países.

Deste ponto de vista, a tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos deve ser considerada uma penalização à política externa do governo brasileiro e pode ter consequências mais graves que puramente econômicas, caso o governo brasileiro adote como resposta a retaliação.

Caso a reação do governo brasileiro for de negociar, como o Brasil tem uma economia muito fechada, o efeito diretamente de uma tarifa de 50% deve ser relativamente pequeno. As exportações brasileiras para os Estados Unidos atingem 12% do total das exportações do país e 2% do PIB do Brasil. Nossa projeção é que uma tarifa de 50% deverá reduzir o crescimento do PIB em 12 meses entre -0,3% e -0,6% ao ano.

O efeito negativo mais importante deve se dar sobre os investimentos estrangeiros diretos e de portfólio. Quanto mais o governo brasileiro decidir adotar uma estratégia de retaliação, mais provável que o Presidente Trump dobre a aposta criando uma escalada que pode resvalar para sansões até mesmo não econômicas.

Neste cenário, podemos ter forte aumento da incerteza, do prêmio de risco, fuga de capitais do país, investimentos de portfólio e, principalmente, investimentos diretos no país, em especial, de empresas americanas, desvalorização do Real e pressão inflacionária.

Ao contrário das declarações de outros países que têm adotado uma atitude de negociação, a reação inicial do governo brasileiro não foi promissora, com declarações sugerindo uma atitude de enfrentamento e retaliação e declarações antiamericanas da parte do governo brasileiro. Diante desta reação inicial, os preços dos ativos brasileiros entraram em queda, com queda dos preços das ações, desvalorização do Real frente ao Dólar e taxas de juros elevadas durante mais tempo do que o esperado neste momento.

Entretanto, após as reações iniciais, fontes próximas ao governo começam a indicar uma atitude mais pragmática e menos agressiva. O problema é que, após as reações iniciais do governo brasileiro, a reação do presidente Trump foi simplesmente abandonar a negociação, deixando o interlocutor brasileiro, o vice-presidente da República sem resposta.

Os Estados Unidos conseguiram acordos relativamente positivos com praticamente todos os países importantes. O resultado foi o isolamento do Brasil, o que pode ter um custo elevado para a economia brasileira.

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