José Marcio de Camargo
Coluna
José Marcio de Camargo

PhD em Economia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e economista chefe da Genial Investimentos

Esquece Jackson Hole

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Os ataques do presidente Donald Trump ao presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, se agravaram com a decisão do presidente Trump de demitir a diretora do Fed, Lisa Cook, na semana passada. Segundo o presidente Trump, a diretora supostamente cometeu fraude na compra de duas residências declaradas como primeira moradia, em cidades diferentes, com o objetivo de aproveitar hipotecas com taxas de juros menores, o que seria ilegal.

Lisa Cook declarou que não fez nenhuma ilegalidade, que não irá pedir demissão, que o presidente não pode legalmente demiti-la e que vai recorrer à Justiça para se defender no cargo, o que será um processo prolongado.

Diante dos ataques e da demissão de Cook, a ex-vice presidente do Fed, Lael Brainard, sugeriu em entrevista à Bloomberg que há um risco real de vários presidentes de distritais do Fed serem destituídos do cargo no próximo ano como resultado de manobras políticas do presidente Trump. Segundo ela, o Conselho do Fed deve votar em fevereiro de 2026 sobre a renovação dos mandatos dos 12 chefes de distritais, cinco dos quais votam anualmente sobre as taxas de juros.

Neste contexto, analistas e investidores começam a se preocupar com a independência e autonomia da autoridade monetária, e como os ataques do presidente Trump vão afetar o comportamento dos próprios diretores da instituição e se irão resistir à pressão por uma política monetária mais expansionista, como deseja o presidente Trump.

A próxima reunião do Fomc em setembro, poderá ser um ponto de inflexão das decisões de política monetária e pode ser considerado pelos investidores como um sinal quanto à independência do Federal Reserve. Caso os dados de emprego e inflação que serão divulgados até a reunião de setembro não validarem a expectativa do presidente do Fed em seu discurso em Jackson Hole e, ainda assim, o Fomc decidir reduzir a taxa básica de juros, o que poderia sugerir submissão à pressão do presidente Trump, a reação dos investidores poderá ser particularmente negativa, o que deverá gerar desancoragem das expectativas inflacionárias, inclinação da curva de juros e intensificar a desvalorização do Dólar no mercado financeiro internacional.

O Fed se encontra hoje em situação similar à vivida pelo Banco Central do Brasil (BCB), entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025. Neste período o presidente Lula da Silva fez vários ataques à diretoria do BCB, principalmente ao seu presidente Roberto Campos Neto, acusando-o de estar tomando decisões políticas para prejudicar a economia ao manter a taxa de juros mais elevadas que a necessária para levar a inflação para a meta e, ao mesmo tempo em que tentava convencer outros membros do Conselho Monetário Nacional a aumentar a meta de inflação.

Diante do risco de que os membros do Copom cedessem às pressões do presidente da República, as expectativas para a inflação mostraram forte desancoragem, forçando o Banco Central a adotar uma política monetária ainda mais contracionista para levar a inflação para a meta. Diante da resistência do presidente e da diretoria do BCB, a independência e autonomia do Banco Central do Brasil foi mantida e reforçada pela atitude de resistência dos diretores.

Devemos esperar uma atitude similar da parte do Federal Reserve, o que significa uma política monetária mais contracionista do que a esperada até a semana passada. Esquece o que Powell falou em Jackson Hole.