Maurício Pestana
Coluna
Maurício Pestana

Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações

Corinthians e o gringo preto

O Corinthians acaba de fazer a contratação mais ousada dos últimos 30 anos do futebol brasileiro e, talvez por isso, a mais necessária.

Negro, de trança, gringo e holandês. Clarence Seedorf não chega apenas para substituir um Fernando Diniz que naufragou com oito derrotas seguidas e deixou o clube agonizando na 16ª colocação com 32 pontos. Ele chega para tirar o Corinthians de suas piores fases de seus mais de 100 anos de existência

E de quebra, expor a hipocrisia de um futebol que adora importar técnico europeu, desde que ele seja branco.

Sendo bem direto: o Brasil foi buscar Ancelotti para a Seleção, encheu os clubes de portugueses e argentinos brancos e chamou isso de modernidade. Quando o Corinthians anuncia um holandês negro, com currículo de quatro Champions League e tranças no couro cabeludo, a modernidade vira “aposta arriscada”.

O racismo do futebol brasileiro é tão sofisticado que ele aceita o gringo, mas só se ele vier para embranquecer o nosso atraso. Um negro comandando o time do povo, na Neo Química Arena, é realmente uma raridade na história do futebol brasileiro um soco no estômago do racismo que impera na liderança desses clubes.

E não me venham com história de meritocracia seletiva! Se vai dar certo, ninguém sabe. O desafio é gigantesco e a pressão já começou de parte da torcida.

Mas o Corinthians, ao menos, entendeu que diversidade não é lacração de rede social feita na quarta-feira (14) para gerar like de internauta. É estratégia.

Enquanto todos repetem o mesmo modelo de homem branco europeu gritando na beira do campo, o clube tem a coragem de trazer um líder negro global, que já foi maior que muito clube brasileiro dentro de campo, para pensar o jogo de forma diferente.

Isso é quebrar paradigma, não trocar Diniz por outro Diniz de sotaque.

Que Seedorf seja bem-vindo. Não porque ele é negro, mas porque, sendo negro, ele carrega algo que nenhum outro gringo branco que desembarcou aqui carrega: a necessidade de provar duas vezes mais que é capaz.

Se ele afastar essa má fase, será gênio. Se não, dirão que foi invenção. O Corinthians entrou para a história de novo, não pelo título que pode vir, mas por ter tido a ousadia que a CBF nunca teve.

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