A camada racial e religiosa do conflito entre Estados Unidos e Irã

A guerra entre Estados Unidos e Irã não começou com mísseis. Começou com narrativas. Do lado ocidental, décadas de noticiário reduziram 1,9 bilhão de muçulmanos a estereótipos: turbante, bomba e opressão. A Revolução Islâmica de 1979 virou marco fundador do “inimigo iraniano” no imaginário americano, e desde então a cultura persa, xiita e milenar é traduzida em manchete como “regime teocrático” termo técnico, mas usado como sentença moral. O resultado é um racismo cultural que não fala de cor, mas de barba, véu e sotaque, e que autoriza bombardeio antes da diplomacia.
Do outro lado, a República Islâmica dos Aiatolás não economiza no discurso. “Morte à América” e “Morte a Israel” são palavras de ordem entoadas desde 1979, inscritas em mísseis expostos em desfiles e replicadas por milícias aliadas no Líbano, Iêmen e Iraque. É política externa em forma de teologia: os EUA são “Grande Satã”, Israel é “entidade sionista”, e o martírio vira capital simbólico. Tecnicamente, o Irã enriquece urânio a 60%, próximo dos 90% necessários para arma nuclear, segundo a AIEA; politicamente, usa o programa como moeda de barganha e escudo de dissuasão. Culturalmente, exporta a narrativa de resistência dos oprimidos contra o imperialismo narrativo que encontra eco no Sul Global.
Quando os EUA respondem, a religião volta ao palco, mas com outro figurino. Nas últimas crises, o presidente e seu vice atacaram publicamente o papa após declarações do Vaticano pedindo cessar-fogo e negociação. A Casa Branca acusou o pontífice de “ingenuidade moral” e de “equivalência falsa” entre democracias e teocracias. É a instrumentalização da fé às avessas: se Teerã usa o xiismo para legitimar mísseis, Washington usa o cristianismo evangélico para legitimar porta-aviões. O sagrado vira pano de fundo para justificar o profano geopolítico, e o papa — chefe de Estado e líder de 1,3 bilhão de católicos — vira alvo porque pregou paz em vez de alinhamento.
A camada racial desse conflito é menos visível, mas opera em silêncio. O iraniano médio é lido no Ocidente como “marrom”, “do Oriente Médio”, categoria que nos EUA pós-11 de Setembro virou perfil de risco em aeroporto e justificativa para vigilância. Nos telejornais, generais americanos são brancos de terno; aiatolás são homens barbudos de túnica preta. A estética define quem é “racional” e quem é “fanático” antes da primeira palavra. Já no Irã, a branquitude ocidental é apresentada como “cruzada moderna”, herdeira das invasões coloniais. Assim, a guerra ganha contorno racializado: não é só EUA versus Irã, é “Ocidente branco” versus “Oriente não-branco”, mesmo que ambos os lados tenham elites multicores e interesses materiais idênticos: petróleo, rotas e poder regional.
Tecnicamente, os EUA têm superioridade militar esmagadora: orçamento de defesa de US$ 886 bilhões em 2024 contra US$ 10,3 bilhões do Irã, 11 porta-aviões contra zero, e ogivas nucleares operacionais. O Irã responde com guerra assimétrica: drones baratos, mísseis balísticos, proxies regionais e a ameaça de fechar o Estreito de Ormuz, por onde passam 20% do petróleo mundial. É Davi xiita com funda de urânio contra Golias nuclear. E quando Golias sangra na economia — inflação, gasolina cara — o eleitor americano cobra “resposta dura”. Quando Davi é sancionado, o cidadão iraniano enfrenta fila de remédio. A guerra é travada por elites, paga por civis.
Culturalmente, ambos os países vivem teocracias não declaradas. O Irã tem o Conselho dos Guardiões vetando leis “anti-islâmicas”; os EUA têm bancadas evangélicas vetando orçamento se não incluir Israel. Teerã prende mulheres sem véu; Washington tenta legislar útero em nome de Deus. A diferença está no grau, não no gênero. Por isso, reduzir o conflito a “democracia versus teocracia” é propaganda. É disputa de dois projetos messiânicos: um xiita, que vê no mártir Hussein a licença para resistir ao império; outro cristão-sionista, que vê em Israel o relógio do Apocalipse e nos EUA o xerife do bem.
Sair desse ciclo exige recusar as caricaturas que nos trouxeram até aqui. O Irã não é só aiatolá gritando em praça: é também a juventude que morreu em 2022 pedindo “Mulher, Vida, Liberdade”. Os EUA não são só Pentágono: são os mesmos cidadãos que foram às ruas contra a guerra do Iraque. Enquanto a análise ocidental tratar islamismo como patologia e o regime iraniano tratar Ocidente como demônio, míssil continuará sendo argumento. E enquanto religião for usada como palanque — seja em Qom, seja na Casa Branca, seja contra o papa — a paz seguirá sendo heresia. O primeiro cessar-fogo necessário é o das narrativas.
