Maurício Pestana
Coluna
Maurício Pestana

Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações

Ações afirmativas ontem, hoje e amanhã

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Um ano se passou desde que a Suprema Corte americana tomou uma decisão que reverberou não apenas em solo estadunidense, mas também nas esferas de discussão sobre justiça racial e inclusão em outros países, como o Brasil. A proibição do uso de cotas raciais nas universidades resultou em uma queda de 80% no número de alunos negros em algumas instituições de ensino daquele país.

Essa realidade nos faz refletir sobre as consequências de tais decisões e como elas podem influenciar políticas inclusivas em contextos diversos, inclusive no Brasil, o maior país negro fora da África.

O Fórum Brasil Diverso, que há uma década reúne lideranças empresariais com o intuito de aumentar a diversidade nas empresas e as práticas afirmativas, torna-se um espaço crucial para debater o passado, o presente e o futuro dessas iniciativas no Brasil em um mundo tão polarizado cujo tema foi motivo de debates nas eleições francesas, onde o protecionismo e a xenofobia tiveram espaços consideráveis e, não obstante, também tem sido tema da disputa eleitoral nos Estados Unidos.

O que nos faz pensar: será que estamos retrocedendo? Ou, ao contrário, podemos encontrar caminhos de avanço? E o quanto essas questões estão interligadas às políticas americanas? A realidade é que as ações afirmativas, que surgiram como uma resposta a séculos de desigualdade e exclusão, enfrentam desafios constantes e estão no centro das discussões entre conservadores e progressistas.

No Brasil, as cotas raciais e outras iniciativas voltadas para a inclusão têm sido fundamentais para garantir o acesso de negros e pardos a espaços antes dominados por brancos. Contudo, o cenário atual nos leva a crer que, com a crescente pressão para reduzir ou eliminar tais programas, corremos o risco de ver um retrocesso significativo, em que os primeiros a pular fora do barco são aqueles que nunca se dispuseram a tratar o assunto com a seriedade que o problema exige.

A influência da decisão da Suprema Corte americana é inegável. O debate sobre a eficácia das cotas e sua conexão com o conceito de meritocracia não se restringe aos Estados Unidos; ele se espalha mundo afora, alimentando narrativas que muitas vezes ignoram a complexidade histórica e social de cada país. Em nosso país, onde as desigualdades raciais são profundas e enraizadas, a discussão sobre a manutenção ou o aperto das ações afirmativas se torna ainda mais pertinente.

Por conta das nossas características históricas, aqui programas já estão sendo abandonados, e velhas discussões que pareciam coisas de um passado remoto ganharam força, inclusive nessas eleições municipais, quando surgiram candidatos com discurso abertamente anticotas. A luta por igualdade racial no Brasil é uma batalha contínua, e as lições aprendidas com as experiências de outros países nos servem como um alerta sobre o que pode estar por vir. O Fórum Brasil Diverso se apresenta, portanto, como espaço essencial para discussão dos impactos dessas medidas no passado, presente e futuro.

Não podemos permitir que o retrocesso se torne norma. Ao contrário, precisamos buscar formas de fortalecer as ações afirmativas, garantindo que a diversidade e a inclusão sejam não apenas ideais, mas realidades vividas nas universidades e nas empresas brasileiras. Em um momento em que a política americana parece influenciar diretamente as discussões sobre inclusão no Brasil, é fundamental que olhemos para nossas próprias realidades e lutemos por um futuro onde todos, independentemente da cor da pele, tenham as mesmas oportunidades.