Copa do mundo x trumpismo

O esporte moderno nasceu como antídoto contra a barbárie. Quando Pierre de Coubertin fundou os Jogos Olímpicos em 1896, a proposta era simples: substituir campos de batalha por arenas de disputa civilizada. O futebol herdou essa lógica e a ampliou. De 1930 para cá, a Copa do Mundo virou a mais pura manifestação de união, diversidade e inclusão do planeta.
Em 1958, um Brasil negro e mestiço, liderado por Pelé e Garrincha, enterrou o complexo de vira-lata no esporte. Em 1995, Nelson Mandela vestiu a camisa do rugby sul-africano para unir um país rachado pelo apartheid. Em 2018, a França campeã tinha 15 dos 23 jogadores com raízes africanas. O futebol, mais que qualquer política, prova todo dia que não existe pureza racial, só talento e coletivo.
Mas o século XXI insiste em não aprender com o XX. Fanatismo, discriminação e políticas expansionistas mataram milhões de pessoas entre 1939 e 1945. Hoje, o ódio muda de terno, mas não de endereço. Atletas negros são alvos de gritos de "macaco” em estádios europeus. Vini Jr. já virou caso de Estado na Espanha. Na Ásia, jogadores sul-coreanos enfrentam xenofobia em campos do Oriente Médio.
A Copa do Mundo que tem início hoje passará pelo seu teste mais duro. Será disputada num país onde o “trumpismo” virou política de Estado: muros em vez de pontes, deportações em massa, nacionalismo tóxico e intolerância racial que bate recordes. Os dados são insustentáveis. Só em 2024, crimes de ódio por raça e origem nacional subiram em todas as cidades-sede em território norte-americano, segundo relatórios de direitos humanos.
O torneio que sempre foi espaço de encontro entre povos corre o risco de virar vitrine de exclusão. A FIFA fala em “football unites the world”, mas como unir quando o anfitrião normaliza o discurso de que imigrante é invasor e que algumas bandeiras valem menos?
A história já nos deu o roteiro. Berlim, 1936. Hitler queria usar os Jogos Olímpicos para provar a supremacia ariana. Jesse Owens, negro, neto de escravos, ganhou quatro ouros e destruiu a tese no campo de atletismo. O esporte não discursou: respondeu. Resta saber se, em 2026, teremos um novo Owens. Talvez seja uma seleção africana calando xenófobos, um jogador latino driblando a placa “you don’t belong here”, ou uma torcida multicolorida ocupando ruas blindadas ao diferente. A bola não pede passaporte nem certidão de pureza étnica. Ela só exige que o jogo seja jogado.
O futebol não vai salvar o mundo sozinho. Mas ele escancara a contradição do nosso tempo: enquanto líderes pregam segregação, 22 camisas diferentes dividem o mesmo gramado e milhões, de todas as cores, gritam o mesmo gol. Se a Copa for sequestrada pelo “Trumpismo”, não será apenas uma derrota do esporte. Será a prova de que repetimos 1939 por vontade própria. E aí não haverá VAR que corrija o placar da história
