A publicação que se confunde com Brasil negro dos últimos 30 anos

Quando a RAÇA chegou às bancas, em setembro de 1996, encontrar uma pessoa negra na capa de uma grande revista brasileira ainda era uma exceção. Pelé e alguns poucos artistas e esportistas conseguiam romper essa barreira. No mercado editorial e publicitário, repetia-se uma frase como se fosse verdade absoluta: negro na capa não vendia.
A RAÇA nasceu para desafiar essa lógica. E a resposta veio imediatamente: a primeira edição vendeu cerca de 270 mil exemplares. Mais do que um número extraordinário para uma estreia, aquilo era um recado. O Brasil negro queria se ver. Queria encontrar sua beleza valorizada, seus profissionais reconhecidos e suas histórias contadas a partir de outra perspectiva.
Minha história se cruzou com a da RAÇA porque, como jornalista e cartunista, já denunciava o racismo antes mesmo de a Raça surgir. Encontrei na revista uma causa que reconhecia profundamente. Ao longo da minha trajetória, vi muitas vezes o talento negro ser ignorado, suas conquistas receberem menos atenção e sua imagem aparecer cercada de estereótipos. Por isso, trabalhar para que outras histórias ocupem essas páginas tem, para mim, um sentido pessoal.
Sempre digo que a RAÇA nunca foi apenas uma revista. Ela se tornou um espelho para milhões de pessoas que, durante muito tempo, foram ensinadas a não reconhecer a própria imagem como sinônimo de beleza, sucesso e poder. Imagino o que significou para uma criança encontrar alguém parecido com ela na capa de uma revista, em destaque na banca, sendo celebrado por quem era. Há coisas que não cabem nos números de circulação, mas ajudam a explicar por que seguimos aqui.
Nessas três décadas, muita coisa mudou. Vimos crescer a presença negra na televisão, no cinema, no teatro, na publicidade, na moda, nas universidades e, ainda que lentamente, nos espaços de decisão das grandes empresas. Gosto de acreditar que a RAÇA ajudou a provocar parte dessas transformações. Sua trajetória tornou-se, inclusive, objeto de pesquisas acadêmicas no Brasil e no exterior, pelo impacto que exerceu sobre autoestima, identidade, consumo e representação.
Também atravessamos mudanças profundas no mercado editorial. A revista passou por diferentes editoras, administrações, crises econômicas e pela revolução digital. Muitas publicações desapareceram nesse percurso. Nós permanecemos. Chegar aos 30 anos mantendo uma edição impressa mensal é uma conquista que me emociona, sobretudo porque conheço o trabalho e as pessoas por trás de cada edição.
Há outro significado especial nessa trajetória: hoje, a RAÇA é conduzida por uma empresa familiar negra. Uma revista criada para defender o protagonismo negro chega às três décadas com pessoas negras também no centro das decisões sobre seu presente e seu futuro. Essa é uma conquista que carrego com orgulho e responsabilidade.
Nossa missão, porém, está longe de terminar. A presença negra aumentou, mas o racismo continua produzindo desigualdades. Conquistamos espaços e ainda precisamos perguntar quem ocupa os lugares de poder, quem permanece neles e quem decide quais histórias merecem ser contadas.
Disseram que negro na capa não vendia. Vendemos. Disseram que não havia mercado para uma revista como a nossa. Havia. Disseram que uma publicação voltada para a população negra não teria vida longa. Estamos aqui, 30 anos depois.
A RAÇA ajudou o Brasil negro a se enxergar e fez o país inteiro olhar para nós. Minha história encontrou a dela no desejo de denunciar injustiças e abrir caminhos. Hoje, quando penso em tudo o que construímos, sinto gratidão por quem veio antes, por quem caminha conosco e por quem ainda vai encontrar nessas páginas um motivo para acreditar em si. Seguimos escrevendo essa história.
