Maurício Pestana
Coluna
Maurício Pestana

Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações

Gil Andar com a Fé eu vou na era do Tempo Rei

Compartilhar matéria

Contar a história das mudanças ocorridas no Brasil e no mundo nos últimos 60 anos, e seus impactos nas artes, na música e na cultura que modelou nosso jeito de viver e de ver este planeta, tudo isso em pouco mais de duas horas, é o que conseguimos sentir no musical Gil, Andar com Fé eu Vou. O Tempo Rei, esse orixá que conduz a viagem, não nos deixa assistir passivos. Ele nos obriga a repensar. Num mesmo compasso ele mistura essência e política, vida íntima e vida social, porque Gil, o multiartista criador, nunca teve o privilégio da neutralidade. Em todos os momentos da vida teve que encarar e optar por escolhas que para nós, pretos, nunca foram fáceis e ainda continuam difíceis. E Gil nunca se esquivou.

Da infância na Bahia, filho de pai médico num período em que homem negro em sua quase totalidade mal sabia escrever o próprio nome, Gil já era uma fratura na estatística. Há mais de 50 anos, quando diversidade e inclusão não entravam nem nos planos dos sonhos ou nos pesadelos de algumas empresas de hoje, ele já ingressa como executivo de multinacional em São Paulo, na Gessy Lever. O Brasil não esperava um Gil de terno, com diploma e crachá. E, no entanto, ele fez a opção mais radical: a genialidade fora do corporativo. Trocou a segurança do sistema pela insegurança da canção para virar um dos maiores símbolos pop do planeta. Essa é a primeira lição contundente que o musical nos esfrega na cara: a coragem de dizer não ao caminho que nos foi permitido.

Os mais de 50 corpos negros, brancos, trans, periféricos, que formam o musical dão uma aula de diversidade, inclusão e pluralidade sem cartilha. Eles descrevem a essência do país sem maquiar as mazelas e as limitações políticas e ideológicas que compõem as contradições deste mesmo Brasil. É bonito e é doloroso, porque o espetáculo não higieniza. Ele lembra que racismo, colorismo, violência, diferenças de classe e regionais determinam o tempo todo o percurso e o futuro das pessoas. Gil atravessou tudo isso e cantou tudo isso. E ver esses corpos em cena hoje é ver o Brasil que Gil ajudou a sonhar, mas que ainda insiste em nos negar.

O musical não deixa nada de fora. Não foge do agudo. Vai da ditadura militar, do exílio, da censura, da prisão, até os conflitos mais sensíveis do homem Gil. E é ali que a poesia corta mais fundo. Ponto alto, impossível não desabar: quando Gil encontra Preta Gil no palco da memória e encerra o encontro com a musica "Se Eu Quiser Falar com Deus". Ou quando ecoa "Drão", feita no período da separação do primeiro casamento. Tudo está lá. O homem e os conflitos que ainda moldam nossa história contemporânea. O pai que perde dois filhos adultos e precisa continuar cantando. O homem público que nunca deixou de ser íntimo.

Não tem como não se emocionar, porque não estamos falando só de Gil. Estamos falando de nós. Gil é a linha do tempo viva que prova que um corpo negro pode sair de Ituaçu, atravessar Tropicália, exílio em Londres, ministério em Brasília, Grammy, curadoria de afeto e ainda assim continuar com fé. Ele nos mostra que o Brasil mudou porque gente como ele se recusou a ficar no lugar que o país reservou para pessoas pretas. Mas mostra também que a mudança é incompleta, pendular, ferida.

Se quer compreender esse mundo complexo dos dias de hoje e como isso tudo foi moldado, uma boa é ver Gil, Andar com Fé eu Vou. Saia do teatro e você vai entender por que ainda andamos com fé. Não por ingenuidade ou doutrina religiosa. Mas porque, na essencia, andar com fé é um ato político, poético e de sobrevivência.