Contrapontos de um estado tido como racista e conservador

O Rio Grande do Sul aos olhos de muitos é considerado um estado conservador, de minoria negra, extremamente machista, onde o racismo impera seja na truculência do aparato policial estatal ou mesmo nas forças de segurança privadas, como as que ceifaram a vida de um cidadão nas dependências de um supermercado poucos anos atrás. Todavia, por trás desse histórico, que a grosso modo pode parecer um lugar inóspito para qualquer avanço no campo progressista ou de direitos humanos, onde até mesmo a inclusão racial tem grandes deficiências, o estado, do ponto de vista político institucional, tem mostrado nas últimas três décadas experimentos que em outras partes do país são tidos como avançados não acontece.
É só lembrar que nesses poucos mais de trinta anos de vida democrática no país, o estado conseguiu eleger o primeiro e dos raros governadores negros que surgiram no Brasil no pós-ditadura militar. A chegada de Alceu Colares (PDT) mais de três décadas atrás trazia ventos novos para a política nacional. Também foi naquele estado que se deu a eleição de Paulo Paim (PT), primeiro senador negro eleito no Brasil, depois da ditadura, e reeleito sucessivamente, e que ainda ocupa uma cadeira no Senado como um dos raros senadores pretos num país de maioria negra.
Também foram os gaúchos que elegeram o primeiro governador assumidamente gay da história do país, Eduardo Leite (PSDB). Ele não recuou ao ser questionado sobre sua identidade de gênero – ao se afirmar como gay e encarar uma campanha política e difamatória na época – e respondeu prontamente: o que a sua sexualidade iria interferir em sua administração do estado?
Esta semana, os gaúchos deram mais uma prova das contradições daqueles que apontam o estado como conservador e berço do bolsonarismo mais retrógrado do país depois dos vizinhos, Santa Catarina e Paraná. Em um momento em que a pauta do racismo no futebol tem ultrapassado fronteiras mundo afora, o estado foi o primeiro no Brasil a sancionar a Lei Vini Jr, que estabelece protocolos para a interrupção de partidas esportivas no território gaúcho em caso de racismo ou homofobia. O projeto sancionado por Eduardo Leite tem a autoria de uma parlamentar adversária política do governador, a deputada Luciana Genro (PSOL), que aprovou a lei na assembleia gaúcha com ampla maioria de 44 votos em junho deste ano.
Enfim um exemplo de que a luta contra o racismo pode unir pessoas brancas, no caso gaúcho, dois políticos de posições antagônicas e brancos em um estado tido como racista e conservador. O que chama atenção novamente olhando para a recente história democrática do país são esses exemplos gaúchos em quesitos relacionados à diversidade e inclusão no campo político institucional bastante avançados se comparados com outros estados tidos como progressistas da nação.
