Maurício Pestana
Coluna
Maurício Pestana

Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações

COP da participação ou das boas intenções?

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Participar da COP30 como palestrante me fez ter a certeza de que o principal problema que ronda os processos democráticos em todas as estâncias é o desafio de contemplar as anciedades dos excluídos desses processos de poder.

Todos tem o direito e querem voz, e os desejos são imediatos, muitas vezes pessoais, locais, nacionais e, por último, coletivos e a devolutiva quase sempre resulta apenas em boas intenções.

Já no embarque para Belém, tive a honra e a grata surpresa de voar na poltrona ao lado do Secretário Geral das Nações Unidas, Antonio Gutierres, demonstrando que poder, simplicidade e carisma também viajam em voos comerciais. Porém, ao pisar em Belém, após fortes protestos de indígenas que não se viram representados em estâncias de decisão, um forte aparato de segurança dividia e demarcava muito bem o espaço de quem decide com o espaço de quem reivindica.

A divisão entre a zona Blue e a zona Green são exemplos claros da separação de quem decide e de quem faz barulho. O azul do céu é onde ficava a cúpula dos governos, das grandes organizações e corporações, e dos negócios que podem gerar bilhões de dólares em crédito de carbono entre outros negócios. Já na zona Green, abaixo do céu, organizações da sociedade civil e empresas ambientalmente corretas se aglomeravam e se misturavam com indígenas e outros movimentos para tentar marcar posição.

A COP30, ou a COP da floresta, por mais que a organização brasileira tenha se esforçado em ser mais representativa, caiu naquela máxima popular de “quando quer agradar muitos, desagrada muito mais”.

Ao participar de um painel como palestrante sobre a pesquisa do Data/RAÇA e do Instituto Akatu sobre o consumidor negro, pude ouvir de lideranças locais do Pará a invisibilidade e a quase nula participação da população local num evento mundial que estava ocorrendo em sua cidade.

Isso nos leva a perguntar: estamos vivendo uma crise de representatividade? De democracia? Ou existencial? A falta de representatividade e a segregação são sintomas de uma doença mais profunda que afeta a nossa sociedade. É hora de repensar nossos modelos de governança e de participação cidadã.

A próxima COP, que vai acontecer na Etiópia, berço das civilizações mais antigas deste planeta, poderá responder a essas perguntas. Porque aqui, o povo da floresta teve que brigar muito e pouco foi ouvido. É hora de mudar essa realidade.

A COP30 foi um exemplo de como as boas intenções não são suficientes para resolver os problemas do mundo. É necessário ação, compromisso e, acima de tudo, representatividade. O povo da floresta, os indígenas, os negros, os pobres, os marginalizados... todos têm direito a ser ouvidos e a participar das decisões que afetam seu futuro. É hora de mudar o jogo e criar um mundo mais justo e igualitário para todos.