Maurício Pestana
Coluna
Maurício Pestana

Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações

Do lixo ao livro sem passar pelo teclado

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Em um tempo em que a sociedade troca o livro pelo celular, o estudo pela resposta pronta da inteligência artificial, e muitas vezes prefere a mentira bem contada à justiça que demora, a história de Walmerinston Corrêa soa como um soco e um abraço.

Aos 64 anos, após 46 anos longe da escola e duas décadas em situação de rua, ele acaba de conquistar uma vaga no curso de Letras da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Onde a pressa joga fora, ele recolheu. Onde o mundo viu lixo, ele encontrou páginas. Onde o destino dizia não, ele soletrou sim, letra por letra, mostrando que a saída pela educação não tem tempo nem idade, raça ou credo religioso.

Durante anos, Walmerinston foi tratado como invisível. “O que tu sabes, se nem estudas?” “Esse aí quer ser o que não é.” As frases doíam mais que a fome. Cansado das humilhações diárias, decidiu que não viveria mais à margem do próprio nome, passou a catar livros descartados nas calçadas e estudou sozinho, com a luz da rua e a coragem como única carteira assinada.

Depois, venceu o medo e a vergonha e entrou na Educação de Jovens e Adultos (EJA). A escola virou o lugar onde seu horizonte voltou a se abrir, mesmo quando o conteúdo parecia um país estrangeiro que o ignorava e a sala estava cheia de jovens nascidos com o mundo na palma da mão.

As dificuldades foram muitas. A vergonha de sentar ao lado de quem cresceu com internet no bolso. O receio de não acompanhar o ritmo. A rotina pesada de quem já carregou o peso do desamparo. “Nem esperava ser aprovado na universidade, pensava em tentar outra vez com mais calma”, ele confessa. Mas Walmerinston nunca pensou em desistir. Cada página salva do lixo era um degrau contra a hipocrisia que diz que pobre, preto e velho não têm lugar na universidade.

Hoje, matriculado na UFPA, onde passou na prova do vestibular, ele sonha em se formar, escrever, ensinar. Sua vitória expõe uma contradição: enquanto parte da sociedade terceiriza o pensamento para algoritmos e prefere telas a bibliotecas, um homem que teve a vida negada reconstruiu o futuro com livros que outros jogaram fora. Ele nos lembra que conhecimento não se baixa em dois cliques. Constrói-se com suor, silêncio e teimosia.

Walmerinston é a prova de que nenhum destino está fechado quando a dignidade decide virar a página. Em uma era que confunde informação com sabedoria e troca justiça por narrativa, ele devolve o valor do esforço, da leitura e da presença. Do lixo ao livro, sua história não pede aplauso. Pede consciência. Porque enquanto houver gente descartando saber, haverá também gente, como ele, mostrando que recomeçar é o ato mais revolucionário que existe e essa revolução está no campo da educação, cujas armas são os livros muitas vezes descartados no lixo.