Maurício Pestana
Coluna
Maurício Pestana

Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações

É possível comparar racismo à misoginia?

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Historicamente, sempre contestei a comparação do racismo com outros tipos de preconceito, pois isso, para mim, sempre foi uma tentativa de relativizar e minimizar a gravidade do racismo, sistema este que nos oprime. É preciso entender que o racismo foi sistematizado há séculos com um único objetivo: explorar e privilegiar um determinado grupo racial em detrimento de outro, perpetuando esse modus operandi por séculos. Não é possível comparar o racismo, por exemplo, com o preconceito contra pessoas obesas, pois os obesos não foram escravizados e aprisionados, nem tiveram sua história e cultura apagadas em detrimento dos magros.

No entanto, a lei aprovada esta semana, que equipara a misoginia ao racismo, é uma exceção. Os princípios desses crimes são os mesmos: a opressão e a discriminação de um grupo baseado em características físicas e de gênero.

Vivemos em uma sociedade que, apesar dos avanços, ainda é marcada pela opressão e violência contra as mulheres. Essa violência, em muitos casos, se assemelha ao período mais nefasto da Inquisição, onde muitas morriam e seus agressores jamais foram punidos, se igualando aos dias de hoje, onde muitas vezes agressores são acobertados pelos seus pares, e onde uma frase continua muito comum nas rodas populares: “em briga de marido e mulher ninguém deve meter a colher”.

A aprovação do projeto de lei é um reconhecimento tardio de uma dor antiga e cotidiana que milhões de mulheres carregam. Ser mulher no Brasil é um exercício constante de luta e resistência, onde o embate começa na educação e na cultura, pois medir palavras, roupas, horários e comportamentos é a regra que vem de séculos atrás da colonização. A misoginia é um conceito abstrato, uma violência simbólica que remonta aos tempos dramáticos que as mulheres vêm vivenciando ao longo da história da humanidade, violências comparadas apenas ao racismo sofrido por pessoas negras.

A fala de um parlamentar no Congresso esta semana, classificando a nova lei como uma “aberração”, é um exemplo de como as mulheres ainda são desrespeitadas nos dias de hoje, inclusive por quem teria a obrigação de defendê-las no parlamento. É um lembrete de que a luta pela igualdade, embora estejamos em pleno século XXI, está longe de acabar. A misoginia é um crime tão abominável quanto o racismo.

A lei não vai resolver, da noite para o dia, séculos de opressão enraizados na cultura, mas é um passo importante para frear a normatização deste tipo de violência. Ela marca uma posição, diz que não é mais aceitável fingir que não vemos essa brutalidade contra as mulheres. É um reconhecimento de que a dor das mulheres é real e o agressor deve ser punido.

A luta pela igualdade e contra todo tipo de violência é contínua, e é preciso que nos unamos para exigir mudanças educacionais, culturais e por leis mais firmes que realmente punam os agressores. A misoginia é um crime, e é hora de reconhecê-la como tal. É hora de dizer às mulheres: a sua dor é real e, agora, ela também é reconhecida.