Maurício Pestana
Coluna
Maurício Pestana

Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações

O preço do perdão

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Pedir perdão é um dos atos mais indigestos que um soberbo pode cometer contra si mesmo.

Dói muito para o arrogante admitir a culpa, é uma dor sem anestesia: corta a carne do ego. No divã, a psicanálise chama isso de castração simbólica. Na Igreja Católica, chama-se confissão. Nos dois casos, o indivíduo precisa morrer um pouco para nascer de novo.

E é aí que mora o problema: muita gente prefere viver inteira na mentira a morrer um pedaço na verdade. Conheci pessoas que perderam casamento, filhos, amigos, só porque “desculpa” não cabia na garganta. A soberba é analfabeta funcional da alma. Sabe soletrar orgulho, mas não conjuga humildade.

Quando o perdão sai do indivíduo e entra na instituição, ele deixa de ser gesto e vira fatura.

Estado, empresa, igreja: ao admitir que errou, assina um cheque em branco com a história. Por isso tantos resistem e alguns levam séculos pensando como pedir perdão. Por exemplo, pela escravidão, pois têm consciência que não é publicar nota de rodapé. É reconhecer que existe um débito civilizatório, com juros de 380 anos, correndo na conta de quem foi açoitado.

Instituições e estados começaram a querer se mexer para pagar suas dívidas. Um exemplo é a Holanda, que saiu da retórica, meteu a mão no cofre e começou a indenizar descendentes de africanos escravizados. Doeu um pouco no orçamento, mas infinitamente menos que os açoites nos porões dos navios negreiros que ainda navegam na memória coletiva negra.

Perdão sem reparação é só marketing de culpa. É rezar o “mea culpa” e continuar com a mão no bolso alheio.

Eis que a bola da vez quica no altar mais antigo do Ocidente. O Vaticano, sob o báculo do papa Leão XIV, que foi bem claro tanto quanto o clero: “Perdoai-nos” pela escravidão. Tarde? Bem tarde! Mas ainda assim, um terremoto teológico. Para nós, antes tarde do que nunca e sabe por quê?

A Igreja Católica não é ONG. É império de fé, de imóveis, de ouro e de símbolos. Quando o Vigário de Cristo diz “erramos”, ele não está falando só com Deus, com o cartório, com o banco, com o tribunal da história. O perdão papal, se for honesto, cobra esmola inversa: que os tesouros acumulados em nome da cruz, multiplicados durante os quase 400 anos de escravização sejam divididos com os descendentes daqueles que foram barbaramente batizados à força no Atlântico. Caso contrário, será apenas mais uma encíclica perfumada para abafar o cheiro de cadáver que ainda sai dos porões do passado.

O Brasil assiste a tudo da primeira fila. Maior país negro fora da África, maior rebanho católico do mundo, e campeão de desculpas esfarrapadas. Aqui, o perdão institucional ainda é tratado como fraqueza, não como virtude. Governadores não pedem desculpas por chacinas. Empresas não pedem desculpas por trabalho análogo à escravidão. Bispos não pedem desculpas por acobertar abuso. Enquanto isso, o povo negro continua pagando a conta de 1888 com juros de bala perdida, desemprego e ausência de estado.

Se o papa Leão ajoelhou, Brasília também pode dobrar o joelho. Se a Holanda abriu o caixa, a FIESP e a CNBB, entre outros, também podem. Porque perdão, no fim, é isso: reconhecer que o erro tem CNPJ, tem endereço e tem herdeiro. E que a única absolvição real é aquela que vem com recibo.