Maurício Pestana
Coluna
Maurício Pestana

Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações

Vassouras: "Quando penso no futuro não esqueço do passado"

O que está acontecendo hoje em Vassouras é um exemplo de como é possível reescrever a história, respeitando a contribuição cultural de um povo quase sempre esquecido

A região de Vassouras, no Sul do Rio de Janeiro, é um lugar onde a história do Brasil se entrelaça com a presença negra de forma paradoxal. No século 19, a região produzia mais da metade do café consumido no mundo, e o trabalho dos escravizados foi fundamental para essa produção e para a geração de riquezas. Mas, além do progresso, os negros deixaram um legado cultural rico e diverso, que pode ser visto na música, na dança e em outras expressões culturais.

O jongo, o reisado e outras expressões artísticas são exemplos da resistência e da criatividade dos que vieram da África para o Brasil. E é nessa região, mais precisamente em Valença, que nasceu Clementina de Jesus, uma das maiores vozes da música popular brasileira. A força dessa presença cultural é palpável e pode ser sentida na exposição “Chegança”, do recém-inaugurado Museu de Vassouras, um monumento arquitetônico da pujante cidade que, após muitos anos e milhões de reais em investimentos, foi entregue à comunidade, enaltecendo e resgatando a história da região.

Mas Vassouras não é apenas um lugar de memória; é também um lugar de inovação e desenvolvimento. É sede da Fundação Severino Sombra, mantenedora de uma das mais respeitadas universidades particulares do país, a Universidade de Vassouras, que tem se destacado em cursos de ponta, como os de medicina. Impulsiona iniciativas empresariais voltadas para o turismo como o Visitor and Convention Bureau do Vale do Café e conta com o investimento de muitos que amam a cidade, como Ronaldo Cezar Coelho, na realização do Museu de Vassouras; Nestor Rocha, do Museu do Café; Luiz Boa Sorte, do Instituto Preservale, entre outros, que estão fazendo a diferença na região, gerando emprego e desenvolvimento muito além das fronteiras da cidade.

Na última semana, visitei o Museu do Café e a Fazenda São Luiz da Boa Sorte, onde pude conhecer um projeto ambicioso de reflorestamento e plantio de café. Pude perceber que iniciativas como as que estão sendo construídas em Vassouras são importantes, pois mostram que é possível criar uma nova história para a região, que valorize a cultura sem deixar de fora a rica contribuição negra para o Brasil.

Em um país onde as fortes desigualdades econômicas, sociais e raciais persistem e são heranças de uma abolição sem nenhuma reparação ou projeto econômico que incluísse os ex-escravizados no projeto econômico e social construído ao longo do século 20, o que está acontecendo hoje em Vassouras é um exemplo de como é possível reescrever a história, respeitando a contribuição cultural de um povo quase sempre esquecido no País. Ou, como diz o verso de Paulinho da Viola na música Dança da Solidão, quando penso no futuro, não esqueço do passado.