Maurício Pestana
Coluna
Maurício Pestana

Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações

Quanto custa para obter uma cadeira no Congresso mais branco em décadas

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Nas últimas eleições, em 2022, o Brasil elegeu 513 deputados federais. A média de gastos de quem venceu foi de R$ 1,77 milhão por campanha. Já a média de todos os 10,1 mil candidatos, eleitos ou não, ficou em apenas R$ 280 mil. Ou seja, para chegar à Câmara, um candidato precisou de 6 vezes mais dinheiro que a média geral.

E, no topo, os 20 candidatos ao parlamento que mais gastaram desembolsaram em média R$ 3,2 milhões cada. Se levarmos em consideração a inflação com base no IPCA de 4,62% em 2023, 4,83% em 2024 e 4,26% em 2025, esses candidatos mais afortunados terão que gastar 14,3% a mais no pleito deste ano. Projetando: o eleito médio vai precisar de R$ 2,02 milhões em 2026. E se tiver que concorrer com os 20 mais afortunados que vão gastar nessa eleição, o gasto vai para R$ 3,66 milhões.

O dinheiro, porém, não chega igual para todo mundo. Em 2022, grupos menos representados na política, como mulheres e negros, receberam financiamento abaixo da média (mesmo com uma lei criada para reduzir essa desigualdade). O motivo está na lógica dos partidos: “Normalmente, os partidos apostam em quem acreditam ter mais chances de se eleger. Em termos de gênero e raça, isso pode ser um problema, porque candidaturas de mulheres e negros podem ser consideradas menos competitivas”, então pra que investir em quem já sai desacreditado na largada?

Essa lógica só acentua a desigualdade e o resultado é um Congresso que reproduz quem já tinha capital econômico, político, nome e acesso ao Fundo Eleitoral. De quase R$ 1 bilhão recebido pelos 513 eleitos, em que 89% provém dos recursos públicos repassados pelos partidos.

O que esperar do pleito de 2026? Mesmo com democratização da internet e redes sociais, a conta não ficará muito diferente. As redes podem baratear o acesso via post, mas não a eleição. Para deputado federal a disputa é nacional, exige estrutura de partido, cabo eleitoral, material e inserções. O algoritmo dá alcance, mas não paga a logística de um estado inteiro. Por isso a barreira financeira continua eliminando quem começa com R$ 280 mil (média das mais de 10 mil candidaturas Brasil afora) contra adversários com R$ 1,77 milhão. É largar 80 metros atrás numa corrida de 100.

Em 2026, a cadeira ficou mais cara e continua com o mesmo filtro. Como nada deve mudar na distribuição do Fundo, vamos ver de novo campanhas de R$ 2 milhões na média e de R$ 3,6 milhões no topo, enquanto mulheres e negros disputam com no máximo 10% disso.

É a democracia sendo medida não em quem tem a melhor proposta e sim em quem consegue pagar mais para ser ouvido. Enquanto o dinheiro público for distribuído por “competitividade”, o Congresso vai continuar espalhando mais o caixa dos partidos do que a cara do Brasil.