A Copa que mostrou como a tecnologia pode matar o futebol e muito mais

Seguindo uma tradição iniciada nos idos de junho de 1970, e desde então repetida religiosamente em cada uma das edições subsequentes, eu passei os últimos trinta e poucos dias assistindo praticamente todos os jogos da Copa do Mundo de Futebol que se encerra hoje, com a final entre Espanha entre Argentina.
Do começo ao fim, das partidas mais esperadas, aos jogos mais improváveis, como aquele envolvendo a República Democrática do Congo versus Uzbequistão - um verdadeiro derby, quem puder assista o VT – eu apreciei cada gol, cada final dramático e cada decepção com a mesma paixão que me acompanha, por estádios em todo o mundo, desde os gols inesquecíveis da era de ouro do futebol brasileiro que eu testemunhei quase que integralmente.
Embora, como resultado desta verdadeira epopeia futebolística, eu pudesse escrever várias colunas descrevendo as minhas impressões de como o futebol mudou dramaticamente nestes 56 anos, especialmente sob um viés específico da minha especialidade cientifica, eu decidi focar esta coluna no aspecto que frequentemente me saltou aos olhos, de forma chocante eu devo ressaltar, nestes 103 jogos – falta a final - e um mês e pouco de bola rolando na América do Norte.
A razão daquilo que eu só posso definir como uma verdadeira estupefação poderia ser resumida no seguinte enunciado:
Como o uso indevido da tecnologia, nas mãos de instituições e pessoas que não tem nenhum comprometimento com a transparência, nenhum grau de bom senso, e certamente nenhum treinamento técnico básico com os instrumentos em uso, tem tudo para acabar com tudo aquilo que fez do futebol o esporte mais amado em todo o mundo.
Em suma, o que verdadeiramente me estarreceu nesta edição da Copa do Mundo, quase tanto quanto a patética apresentação da seleção brasileira, foi constatar como a crença naquilo que Lewis Mumford, um dos mais celebrados estudiosos da história da tecnologia e seu impacto na vida humana, batizou do “Culto à Máquina”, penetrou de tal maneira na mente coletiva da humanidade, a Brainet global, como eu gosto de chamá-la em meus livros. Eu digo isso porque, a crença cega na eficiência, lisura e infalibilidade das tecnologias aplicadas no processo de decisão de lances duvidosos das partidas desta Copa – notadamente a análise pelo VAR de imagens de vídeo, sensores os mais diversos, inclusive um posicionado dentro da bola, bem como um novo sistema “semiautomático” para determinação computadorizada de impedimentos e subsequente apresentação gráfica dos resultados – pareceu atingir níveis de credibilidade e aceitação passiva e sem qualquer tipo de questionamento somente conferidos, cerca de dois e meio milênios atrás, ao Oráculo grego do templo de Apollo em Delfos.
Para quem como eu lidou pelos últimos 45 anos com todo tipo de geringonças eletrônicas, sensores, computadores e seu derivados, foi muito surpreendente perceber que um enorme número de pessoas que assistiram aos jogos optou por:
- Simplesmente ignorar as evidências que todos podiam ver com seus próprios olhos nas imagens de vídeo de um lance, ou
- Completamente descartar considerações básicas sobre os limites operacionais que cada uma destas tecnologias possui, ou ainda
- Deixar de considerar a possibilidade de que os operadores destes sistemas aparentemente não tinham exercitado qualquer tipo de bom senso, em boa parte porque, provavelmente, porque não tinham sido adequadamente treinados para o uso destes sistemas “semiautomáticos”.
Num contexto mais geral, o que eu observei foi que no momento em que o parecer dado por uma das maquinetas usadas pelo VAR era apresentado, seja no formato de um gráfico obscuro e ininterpretável, descrevendo um suposto pulso produzido pelo sensor colocado dentro da bola, seja numa animação gráfica, usada para indicar o impedimento produzido por uma unha encravada ou um joanete de algum atacante, a maioria das pessoas aceitava sem nenhuma objeção o resultado deste Oráculo da modernidade. Tudo sem qualquer tipo de questionamento ou análise critica do que estava sendo apresentado como um diagnóstico preciso e definitivo, mesmo com a ausência clara de mínimos pré-requisitos necessários para que se pudesse verificar, de forma independentemente, a acurácia e lisura da decisão tomada.
O número de eventos desta sorte foi enorme e muitos deles decidiram o destino de jogos da fase eliminatória da competição, determinando a classificação ou eliminação de seleções em lances extremamente polêmicos. Dada a minha óbvia limitação de espaço, eu vou mencionar apenas um dos exemplos mais gritantes de como uma decisão oficial, obtida por uma nova tecnologia introduzida nesta Copa pela FIFA, foi imediatamente aceita, por narradores, comentaristas, analistas de arbitragem, torcedores – menos pela seleção prejudicada e seus seguidores- , como se ela fosse um novo mandamento divino, trazido pelas mãos do próprio Moises, nesta sua nova encarnação tecnodigital. Nas palavras de um comentarista que resume todo este Gestalt coletivo que eu estou tentando descrever:
“Se a tecnologia decidiu, não tem como se discutir!”
Tem sim! E muito!
Basta um mínimo de conhecimento de como qualquer tecnologia funciona e quais são seus limites de mensuração – porque como dizem os galegos “yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay!” – e quais são as formas corretas e incorretas de usá-la, ou mesmo, manipulá-la, caso seja o desejo de quem a controla e opera, para que se possa questionar qualquer decisão tomada por um sistema automatizado. Assim, para se tomar uma decisão definitiva que afeta milhões de pessoas, mesmo que esta seja apenas sobre um impedimento num jogo de Copa do Mundo de Futebol, é preciso se ter bom senso e conhecimento técnico de como uma ferramenta funciona e quais são os seus limites operacionais, bem como como ela deve ser usada no contexto da tomada de decisão.
O meu exemplo de erro egrégio desta Copa se refere à anulação do que seria o segundo gol da Croácia, contra Portugal, no ultimo lance dos acréscimos do segundo tempo da partida eliminatória. Este gol, que determinaria o empate heróico da Croácia, levaria o jogo para prorrogação - 30 minutos de tempo extra onde tudo poderia acontecer. No lance em questão, o famoso meio-campista croata Luka Modric realizou um cruzamento em direção á área dos portugueses na busca desesperada de um atacante. No trajeto, um destes atacantes saltou para tentar cabecear a bola. Nas imagens transmitidas para todo o mundo, nenhum contato concreto deste jogador com a bola pôde ser visto, não importa a variedade de ângulos mostrados no replay, mesmo com zoom das imagens realizadas por retransmissoras do sinal de TV. Como evidência da ausência deste contato, pode se notar, usando-se uma redução da velocidade do vídeo, que a bola nem muda de trajetória, nem mesmo de rotação, durante a passagem nas proximidades da cabeça do atacante croata. Logo a seguir, a bola segue sua trajetória inicial e um defensor português cabeceia a bola para trás. Esta então chega num outro atacante croata, já dentro da área portuguesa, que não estava impedido no momento da origem do cruzamento de Modric. Surpreendido com a bola, este jogador apenas deu um curto passe para que o seu companheiro, Josko Gvardiol, que de frente para a baliza portuguesa, simplesmente teve o trabalho de empurrar a bola para dentro do gol, para desalento do guarda-metas luso.
Enquanto milhões de croatas, bem como secadores de Portugal mundo a fora, celebravam efusivamente o gol de empate, o VAR se incumbiu de revisar o lance, como é rotina de uns anos para cá. Alguns minutos depois, o gol foi anulado. A decisão chocante, nos informou a FIFA, foi baseada num gráfico que, segundo ela, descrevia o registrou de um impacto, detectado por um sensor ultra-sensível, colocado dentro da bola, gerado pela cabeça do primeiro atacante croata, o que configuraria o impedimento daquele segundo jogador que recebeu a bola dentro da área.
Pois bem, neste gráfico era possível se identificar um pequeno pulso, todavia como o gráfico não continha nenhuma escala, nem mesmo números nos seus eixos X (tempo) e Y (parâmetro descrevendo o contato), foi impossível discernir qual era a duração e magnitude do suposto pulso que descrevia o alegado suposto impacto da bola. Talvez ainda mais surpreendente, o contato muito mais evidente da bola com a cabeça do zagueiro português, que ocorreu logo a seguir, não apareceu no mesmo gráfico. Para complicar tudo, nenhuma evidencia permitia decidir se o traçado que registrou o sinal do sensor estava sincronizado como o vídeo do lance em questão. Ou seja, de repente, a norma para se decidir um lance capital de uma partida de futebol na Copa do Mundo acabara de fugir à qualquer possibilidade de escrutínio independente de quem estava acompanhando a partida. Tudo isso, mesmo que não houvesse nenhuma imagem de vídeo capaz de comprovar o contato da bola com a cabeça do atacante croata. Mesmo assim, para justificar a imaginária infalibilidade da tecnologia da FIFA e a decisão tomada pelo VAR, quase imediatamente surgiram interpretações as mais diversas, inclusive uma que postulava que o contato registrado pelo sensor, representado pelo pulso do gráfico, deveria ter sido decorrência do “roçar da bola em alguns fios de cabelo do atacante croata!”
Até o Barbeiro de Sevilla se chocou com o grau de importância crucial que um par de madeixas de repente adquiriu numa Copa do Mundo!
Curiosamente, nas regras da própria FIFA existe uma cláusula que indica que tal contato capilar não pode ser considerado como relevante para determinação de um impedimento, o que apenas aumentou o grau de surrealismo da decisão final do VAR.
Pode parecer fora de propósito, mas na realidade este mero exemplo futebolístico, sem grandes implicações para a história da humanidade – menos para a história da Croácia, que fique claro – ilustra um fenômeno já muito conhecido do comportamento humano quando confrontado com sistemas tecnológicos de grande complexidade, cujo funcionamento é totalmente ignorado pelos seus oepradores. No seu livro “Close World”, o historiador americano Paul Edwards relata alguns exemplos assustadores de como, durante a Guerra Fria, praticamente todos os grandes sistemas computadorizados de defesa, criados pelo governo americano para detectar um potencial iminente ataque nuclear da Uniao Soviética, falharam em inúmeras ocasiões. Como resultado, eles frequentemente geraram falsos alarmes que poderiam ter culminado numa guerra nuclear global. Isso porque, além de identificarem um ataque soviético, estes sistemas haviam sido programados para desencadear uma imediata retaliação americana, no menor tempo possível, o que limitava a intervenção humana no processo de decisão a alguns poucos minutos. Segundo documentos estudados por Edwards, numa destas ocasiões, em 1979, por meros 4 minutos, os Estados Unidos não incitaram uma retaliação nuclear em resposta a um alarme que erroneamente indicava o lançamento de misseis nucelares balísticos por submarinos soviéticos. A proverbial salvação da lavoura se deu apenas porque um técnico de computação descobriu a causa do erro do computador central do sistema a tempo de desativar o lançamento do contra-ataque americano.
A partir do final dos anos 1950, influenciados pela euforia do desenvolvimento dos primeiros computadores eletrônicos digitais e da teoria da cibernética, a percussora da dita Inteligência Artificial, sistemas de defesa militar nos EUA foram construídos sob a premissa que a tecnologia empregada, que se baseava quer remoção quase completa da supervisão humana ou a sua integração com os sistemas digitais de controle, era infalível e, portanto, totalmente confiável em decidir basicamente o destino do planeta. Ao longo das próximas sete décadas inúmeros exemplos de falhas cruciais destes sistemas foram documentados. Apesar disso, ainda existem hoje em dia proponentes nos EUA da doutrina que sistemas de defesa computadorizados e totalmente automatizados possam ser usados como uma espécie de VAR geopolítico, capaz de decidir sem qualquer intervenção humana quando um ataque militar deve ser realizado.
Como na Copa do Mundo, o risco de um erro catastrófico destes sistemas nunca foi e nunca será solucionado.
Evidentemente, existem ordens de grandeza de relevância entre o uso inapropriado do VAR num jogo de futebol, e o processo de tomada de decisão de um sistema militar automático capaz de destruir todo o planeta. Todavia, o fenômeno cultural pelo qual a maioria de nós hoje em dia aceita, de imediato e sem qualquer contestação, que qualquer tecnologia usada na automação de um processo, outrora realizado por um ser humano, necessariamente promove uma melhora na qualidade e precisão das decisões tomadas, se manifesta cotidianamente em quase todas as atividades da sociedade moderna. Atualmente, por exemplo, acrescentar a palavra “inteligente” a qualquer outra atividade ou instituição humana parece conferir de imediato uma aura de infalibilidade inquestionável. Assim, surgem hoje os arautos de “hospitais inteligentes”, embora a definição precisa do que esta suposta “inteligência” represente, além daquela real, proveniente das mentes dos seres humanos que lá trabalham, nunca seja explicitada a contento. Na sua totalidade, esta dita “inteligência” se resume a automação de rotinas básicas destes hospitais; uma das únicas funções reais da dita inteligência artificial.
Outros ainda prometem que a solução da violência urbana será realizada pelo uso disseminado da mesma IA nas nossas grandes cidades, confirmando a suspeita original que a IA se adequa perfeitamente às fantasias de vigilância, controle e dominação social, como relatado brilhantemente pela socióloga americana, Shoshana Zuboff, no seu livro “Capitalismo de Vigilância”. Seria de muito bom grado que políticos brasileiros se familiarizassem com este e outros estudos sobre o tema antes de propor miragens tecno-mirabolantes que não vão nos levar a lugar algum, muito menos à solução de problemas tão graves como a segurança publica. Na realidade, como o prefeito de Londres descobriu recentemente ao cancelar um acordo com a empresa de vigilância americana Palantir, tais propostas servem apenas para enriquecer alguma startup, ou uma grande corporação do ramo da vigilância em massa. Além, evidentemente, de expor a privacidade de todos os cidadãos, não só dos criminosos, a toda sorte de invasão e exploração.
Mas afinal de contas, depois deste percurso tortuoso, porque eu alego que esta Copa demonstrou como a tecnologia pode vir a matar o futebol? Basicamente porque, como um outro juíz, o Meretíssimo Angelo Brasil Nicolelis, certamente determinaria em sua sentença, escrita a mão com caneta tinteiro, sobre o caso em questão: reza o bom-senso que um mero sensor, de reputação desconhecida e competência mais que questionável, jamais poderia ter o poder de decidir, por si só, que um alegado, mas nunca provado para além de qualquer dúvida, leve roçar de uma bola em dois fios de cabelo possa anular um gol épico de Copa do Mundo que levou milhões de apaixonados pelo futebol ao êxtase!
Ao negar o prazer inusitado que só um evento tão imponderável como um gol no ultimo segundo de um jogo de Copa do Mundo é capaz de gerar, os ímpios fariseus que sequestraram o futebol irão matar a própria razão de existir do seu valioso refém!
Dito isso: Arriba España!



