Licancabur, ALMA e um verdadeiro grande dia

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Para alguém, que como eu, nasceu no começo da década de 1960, a quinzena que se encerrou no dia 12 de setembro último foi realmente histórica e inesquecível. Como muitos membros da minha geração, eu passei a me interessar por ciência por volta de 1967, seguindo, passo a passo, a corrida espacial entre americanos e soviéticos, que culminou com o pouso do módulo lunar da Apollo 11 na Lua, no dia 20 de julho de 1969, aniversário de nascimento do nosso querido Alberto Santo Dumont.
Como não havia internet – sim, houve um tempo em que sobrevivíamos, e muito bem, sem ela – minha avó Lygia e eu coletávamos toda e qualquer notícia que aparecia nos jornais e revistas brasileiras sobre as missões que finalmente atingiram o seu ápice com Neil Armstrong caminhando em plena planície do Mar da tranquilidade, logo depois de proferir o seu "um pequeno passo para um homem, um salto gigantesco para a humanidade".
Desde aquela noite, onde minha bisavó perguntava incessantemente quando os americanos iriam "entrar dentro da Lua", a exploração espacial e os achados exuberantes dos astrônomos sempre me fascinaram, ocupando um lugar muito especial na minha vida de cientista profissional. Não é à toa, portanto, que nos idos de 1986, depois ler um livro de astronomia ("The Big Bang", escrito por Joseph Silk) que detalhava como uma matriz de radiotelescópios em Cambridge, na Inglaterra, podia ser usada para mapear a localização de uma série de galáxias num setor do espaço, de acordo com a magnitude e dispersão espacial das ondas de rádio emitidas por elas, eu tive a epifania de usar uma abordagem semelhante – sem radiotelescópios, mas ao invés, usando matrizes formadas por dezenas de microelétrodos metálicos, cada um com o diâmetro de um fio de cabelo – para mapear, pela primeira vez na história da neurociência, os impulsos elétricos produzidos por grandes populações de neurônios, distribuídos em múltiplas regiões do cérebro de animais de experimentação, que totalmente despertos, passavam a se engajar em toda sorte de tarefas motoras ou táteis habituais.
Foram precisos 7 anos desde a concepção inicial da ideia, até a publicação do meu primeiro trabalho científico, na revista Nature, para que o comportamento dinâmico destas verdadeiras galáxias neuronais, que até então nunca haviam sido mapeadas, pudesse ser documentado na sua plenitude. A partir de então, o resto entrou para história.
Nas décadas seguintes, a minha secreta paixão pelo Universo me levou a conhecer grandes centros de pesquisa astronômica, como o Centro de Voos Espaciais Goddard da NASA, onde eu tive o prazer de palestrar sobre meus achados neurofisiológicos para uma plateia repleta de astrônomos e engenheiros da NASA, e depois visitar a enorme sala limpa onde o Telescópio James Webb estava sendo finalizado para ser lançado ao espaço.
Da mesma forma, depois de 30 anos de espera, pude finalmente visitar o Centro Espacial de Houston, e passear pela sala de controle de voo das missões Apollo, que eu conhecia em detalhe pelas inúmeras vezes em que acompanhei ela em pleno funcionamento por uma TV branco e preto nos anos 1960. O grande observatório de Arecibo, em Porto Rico, fez parte deste tour astronômico também, bem como o Museu do Espaço, em Moscou, na Rússia. Mas até a semana passada, eu nunca tinha tido a oportunidade de conhecer as instalações de um rádiotelescópio de grande porte que, afinal de contas, serviu de inspiração para os 40 anos subsequentes da minha carreira de neurofisiologista.
Esta espera chegou ao fim na primeira semana de setembro, quando eu tive o privilégio de visitar, em pleno deserto do Atacama, no norte do Chile, nas proximidades do grande vulcão Licancabur, o maior array de radiotelescópios do planeta.
Oficialmente batizado com o nome de "Atacama Large Millimeter/submillimeter Array", ou "ALMA", ele é também conhecido na gíria dos astrônomos como "Os Olhos da Terra", por ser o radiotelescópio terrestre mais poderoso jamais construído.
Formado por uma matriz de 66 radio-antenas, dispersas no platô de Chajnantor, com um diâmetro de 16 quilômetros, localizado a mais de 5000 metros de altitude nos Andes chilenos, o ALMA é financiado e operado por um consórcio internacional, que constitui uma das maiores colaborações científicas internacionais sem fins lucrativos, além de ser uma das mais ambiciosas empreitadas da mente humana coletiva em busca de desvendar os mistérios mais profundos do Universo que nos cerca.
Mesmo para mim, é muito difícil colocar em palavras a gama de emoções que se sente ao penetrar, pela primeira, nesta verdadeira catedral da ciência humana. Desde a sua entrada, a 3400 metros, que é obsessivamente patrulhada, dia e noite, por Almito, o cachorro de pastoreio que surgiu do nada, ainda bebê, em meio a uma tempestade de areia, 14 anos atrás, e desde então se transformou no mascote – ou Astrodog, como ele é carinhosamente chamado – do projeto, tudo neste enclave científico em pleno deserto do Atacama enche os olhos, a mente e o coração do mais puro sentimento de admiração e orgulho por esta aventura inigualável que é a busca interminável por novos conhecimentos. Uma obsessão que parece ter surgido desde que a primeira centelha de vida penetrou pelas galáxias neuronais, do primeiro ser humano que ousou levantar a cabeça e olhar para os céus de uma noite estrelada, em busca das respostas para todas as suas mais profundas inquietações.
Quis o destino, porém, que apesar de toda esta maravilhosa excursão pelas gigantescas retinas radio-telescópicas da humanidade, uma surpresa ainda maior seria reservada para este neurocientista nascido nos anos 1960. Já pedindo perdão aos deuses do Licancabur pela ousadia, e licença a Almito para mudar radicalmente de prumo, nada nem ninguém poderia ter concebido o roteiro onde, após retornar do seco Atacama para o Brasil, eu chegaria a tempo de escutar, no final da tarde do dia 11 de setembro passado, o veredito final do julgamento que, metaforicamente, todo o Brasil esperou testemunhar por mais de 60 anos.
No meu caso em particular, quis novamente o sorrateiro destino, que este tal julgamento inédito ocorresse apenas 2 semanas depois do anúncio da publicação do meu mais novo livro de ficção; um que foi quase que totalmente escrito em abril de 1977, nas semanas que sucederam a mais um dos microgolpes perpetrados pelos idealizadores do maior de todos: o Golpe de 1964.
À época, apelidado de "Pacote de Abril", ele serviu de motivação para que um adolescente de 16 anos desabafasse todas as suas angústias de viver em meio a uma ditadura militar nas páginas de um livro; uma sátira, onde o regime das 5 Estrelas seria julgado num último tribunal do júri, em pleno feriado do Carnaval, num Fórum localizado embaixo da arquibancada principal do desfile das escolas de samba.
Presidido pelo Meritíssimo Juiz Fato Consumado, filho do eminente jurista e Ministro da Suprema Corte, Fato Inédito, este último tribunal do júri levaria a cabo o julgamento da principal perpetradora do golpe naquele hipotético (sqn) país tropical. Isso mesmo, um tribunal do Júri iria finalmente levar ao banco dos acusados a temida Ré Volução. O manuscrito "Ré Volução no País do Carnaval: o julgamento final de uma nação fantasiada de democracia" foi concluído primeiro em 1997 e depois revisado entre 2005-2007, ou seja, 30 anos depois da sua concepção.

Uma primeira tentativa de publicação em 2011-12 fracassou pelo receio das editoras consultadas em criar "ruído e polêmica". Mas eis que, exatos 48 anos desde que a maioria da sua narrativa foi datilografada numa máquina de escrever analógica – nem apoio digital, nem IA usadas – ele finalmente saiu das minhas gavetas para as páginas impressas.
Quase 50 anos de espera, mas o "timing" não poderia ser mais adequado. Porque longe de ficar apenas nas páginas de ficção de um adolescente, finalmente, o Brasil desfrutou do seu tão aguardado, tão ansiado, tão almejado e mais do que merecido Grande Dia de Redenção Nacional!
Infelizmente, muitos que dariam tudo para presenciar este veredito final não tiveram o privilégio de estar vivos para desfrutá-lo. A todos eles a nossa homenagem e saudade. Mas para todos que aqui estavam, ainda à espera, este será para sempre lembrado como o dia em que os brasileiros, principalmente aqueles que viveram o pesadelo de 21 anos de ditadores e os malfeitos mais recentes dos seus herdeiros, puderam, entre lágrimas de alegria e coração saltando pela boca, finalmente testemunhar o singelo e raro momento em que a Justiça nacional prestou contas ao povo brasileiro e nos fez ter orgulho de ter resistido e esperado tanto tempo por algo que um dia tinha que chegar.
Demorou, demorou demais, mas finalmente o Grande Dia chegou! E toda esta espera por décadas não foi em vão. Pelo contrário. Ela só fez este 11 de setembro de 2025 ainda mais especial, porque daqui para frente, a cada ano e por todo o sempre, todos nós, nossos filhos, e os filhos dos nossos filhos poderão se lembrar que, mesmo no país do Carnaval, a Justiça dos homens tarda, mas um dia ela chega!
