Miguel Nicolelis
Coluna
Miguel Nicolelis

Miguel Nicolelis é médico, neurocientista e pesquisador. Formado em Medicina e doutor em Ciências pela USP

O homem cujo pé era uma bola

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Ainda inconformado com a acachapante e inédita derrota de goleada da seleção brasileira profissional – será? – de futebol para a “La Scaloneta” Argentina, alguns dias atrás eu me dei conta que aquilo que eu presenciei, todos os finais de semana da minha infância, vivida em parte nos campinhos de futebol improvisados nas ruas, terrenos baldios e espaços abandonados do bairro de Moema, hoje preenchidos por grandes rios de asfalto e arranha-céus colados uns aos outros, e em outros momentos nos estádios de futebol da cidade de São Paulo, talvez nunca mais possa ser testemunhado por gerações atuais e futuras. Para ilustrar o que eu quero dizer, eu recuperei e adaptei um texto meu, escrito há mais de uma década, que ilustra um pouco de como a paixão pelo futebol arte, um dia praticado cotidianamente no Planalto de Piratininga, no período do auge e apogeu do futebol brasileiro, impactou a minha infância e mesmo a minha carreira científica. O que segue é este lamento, ou melhor, a erupção de uma saudade de momentos inesquecíveis que, como dizia Casimiro de Abreu, os anos não trazem mais.

A estória começa assim:

A partir do final dos anos sessenta, seguindo os conselhos do mais fanático palmeirense que eu já conheci, o inesquecível Tio Dema, o futebol passou a ocupar uma parte essencial da minha vida cotidiana. Ao longo dessas quase seis décadas dedicadas a profissão de torcedor fissurado, muitos momentos inesquecíveis, passados nas arquibancadas de estádios pelo mundo afora ou à frente de uma televisão (ou computador nos últimos anos), marcaram não só a minha vida pessoal, mas também a minha carreira de cientista. Por exemplo, quando no ano de 2000 o editor da prestigiosa revista científica Nature pediu que eu iniciasse um artigo com alguma descrição que instigasse a imaginação dos leitores para com as maravilhas que o cérebro humano é capaz de realizar, eu não hesitei por um milissegundo. No primeiro paragrafo, daquele que se tornou um dos meus artigos mais citados na literatura neurocientífica, eu narrei, em grandes detalhes, a jogada magistral – ou a formação de uma Brainet em tempo real - que originou o primeiro gol da seleção brasileira contra a Itália, na final da Copa do Mundo de 1970, disputada no Estádio Asteca, no México.

Numa outra ocasião, durante a abertura de uma palestra no Instituto Max Planck, na cidade alemã de Tubingen, 3 dias depois da vitória da seleção canarinho na Copa do Mundo de 2002, eu simplesmente não pude me conter mais uma vez. Contrariando os apelos desesperados do meu filho mais velho, presente na plateia, eu não tive dúvida em abrir a minha aula, num auditório lotado de neurocientistas alemães sisudos, com uma imagem mostrando o esforço em vão do goleiro alemão Oliver Kahn, tentando se esticar todo para impedir mais um gol do fulminante ataque brasileiro. O título do slide era: “I Kahn’t get it!” Ainda assim, para minha total surpresa, assim que a imagem foi projeta toda audiência germânica veio abaixo –no bom sentido – e muitos desses colegas, 23 anos depois, ainda se lembram daquela provocação com grande bom humor. Não é para menos, afinal agora tem um 7X1 para chamar de seu e me lembrar que a vingança veio a cavalo 12 anos depois!

Dentre todas essas histórias, causos, e emoções desfrutadas nessa minha carreira paralela de torcedor profissional, poucas se comparam ao privilégio de poder testemunhar, sempre ao lado do querido Tio Dema, em tardes memoráveis de domingo, passadas nas arquibancadas do antigo Parque Antártica ou no charmoso Estádio Municipal do Pacaembu – ao lado do qual eu escrevo esta coluna hoje - , os embates épicos entre as várias Academias palmeirenses e o Santos de Pelé, o Rei do Futebol e, indubitavelmente, o segundo melhor jogador de futebol de todos os tempos,  somente superado pelo incomparável Ademir da Guia, que nesta semana passada completou 83 divinas primaveras. Embora todos os clássicos do então glamoroso Campeonato Paulista fossem eventos esperados com grande antecipação, nada se comparava, pelo menos para mim, com a expectativa de estar presente num jogo em que o Rei do Futebol desfilaria pelo gramado, perseguido por todos os cantos pelo infatigável Dudu, tentando, a cada momento, superar em elegância e eficiência o bailarino da bola conhecido apenas como “O Divino”.

Apesar de ser palmeirense até a última célula do corpo, e torcer em cada jogo desesperadoramente pela vitória do esquadrão alviverde, havia algo muito especial em visualizar aquela libertação de ferocidade e destreza motora que o furacão cinemático chamado Pelé realizava ao longo de um prélio. Enquanto antes da partida ele até parecia uma pessoa comum, dando entrevistas no gramado, bastava que o apito inicial soasse para que todos os presentes no estádio entendessem instantaneamente porque aquele homem fora apelidado com o nome de um vulcão do Caribe. Anos depois, provavelmente devido a incomparável popularidade adquirida pelo número 10 santista em todo sistema solar, o mesmo nome, Pelé, seria dado ao acidente geográfico mais exuberante e explosivo de uma das luas de Júpiter, aquela chamada de Io. Nos campos de Io, Pelé até hoje pode ser claramente identificado como uma erupção vulcânica continua, de alta velocidade, que espalha suas lava e  fumaça, sem cessar, por mais de 300 km ao seu redor, definindo o ponto mais atraente daquele satélite mais do que temperamental. Sem tirar nem por, esse era precisamente o efeito do Pelé terrestre que eu vi jogar, totalmente estupefato, várias vezes contra o meu time do coração. Uma erupção continua de movimentos, de dribles, de arrancadas de gingas e, principalmente, de chutes mortais, com cada uma ou ambas as pernas; no chão ou no ar, de pé, ou de cabeça para baixo, bem no meio de uma de suas bicicletas sem par – Rony que me perdoe - que desafiavam a gravidade e vaziam todo um estádio ficar sem ar.

O desejo de marcar gols e mais gols era tão obsessivo e compulsivo nesse vulcão brasileiro que tudo que as leis da física permitem realizar  - e algo mais - Pelé realizou para chegar ao objetivo final; até tabelar com as pernas dos adversários ele tabelou! Num jogo inesquecível no Estádio da Luz em Lisboa, contra o temido Benfica de Eusébio, na final de um Campeonato Mundial, aquele mesmo que o Palmeiras havia ganho em 1951, em pleno Maracanã, se tornando o “Primeiro Clube de futebol Campeão do Mundo” – meu amigo Juca Kfouri e todos os outros “antis” podem se contorcer à vontade - , e o primeiro esquadrão brasileiro campeão mundial, vingando a derrota para o Uruguai na final da Copa do Mundo, um ano antes, exatos 7 anos antes do Brasil – e a dupla de outra galáxia formada por Pelé e Garrincha – ganhar sua primeira Taça Jules Rimet (aquela mesma que foi depois roubada e derretida em solo varonil).

Revendo alguns filmes daqueles tempos é quase assombroso confirmar as inúmeras vezes em que Pelé, não tendo outra alternativa, ao invés de desistir ou passar a bola para trás, simplesmente achava uma forma de recrutar seus marcadores para que esses, involuntariamente, ajudassem-no a abrir um inusitado caminho rumo ao gol. Não é exagero, portanto, especular que se houvesse um prêmio de melhor jogador do mundo naquela época, Pelé o teria ganho, ininterruptamente, de 1958-1973.  E não me venham com Messi, Cristiano Ronaldo, ou Maradona. Depois do Divino, como Pelé não houve, não há e jamais existirá.

Quem viveu e viu, sabe. Ponto final.

De todos os malabarismos e desafios a lógica que eu presenciei Pelé fazer em campo, a característica que mais me marcou foi verificar, jogo após jogo, como a bola parecia, sem hesitação, grudar em seus pés e, dali para frente, se recusar a se separar daquele que a tratava como ninguém mais era capaz. Curiosamente, anos depois, um dia eu me deparei com uma gravação realizada pela radio inglesa BBC durante um amistoso Brasil vs Inglaterra, disputado no Maracanã, no dia 30 de Maio de 1964. Durante aquele verdadeiro massacre futebolístico (5x1) imposto pelos então bicampeões mundiais (Brasil) aos futuros campeões do mundo, o lance do primeiro gol brasileiro desnorteou John Motson,  o locutor mais emblemático de toda a longa história da rádio inglesa BBC, a ponto de levá-lo a dizer que Pelé realmente não deveria ser desse universo. Nesse lance, depois de driblar vários ingleses, Pelé tenta o chute ao gol. Caprichosamente a bola bate num defensor e retorna, para onde? Ora, para o mesmo pé de Pelé que imediatamente, para desespero do locutor britânico, coloca Rinaldo (então ponta esquerda do Palmeiras) na cara do gol. Mais tarde, Pelé daria outro passe de gênio para que o ícone alviverde, Julinho Botelho, marcasse mais um gol para o Brasil. Segundo o locutor da BBC – muito inferior ao nosso Osmar Santos e seu dileto irmão, Oscar Ulisses - todas essas jogadas fenomenais refletiam o fato inegável que “...a bola não larga do pé de Pelé simplesmente porque ela faz parte dele!”.

Mais de sessenta anos depois daquele jogo histórico, em todas as minhas palestras pelo mundo afora, é esse o exemplo que eu uso para descrever como o nosso cérebro de primata assimila todas as ferramentas e tecnologias que cada um de nós usa no seu cotidiano – nossos carros, nossos telefones, nossas roupas, raquetes, bolas, etc – como uma verdadeira extensão do nosso corpo biológico. Levado ao limite da sua capacidade de assimilação, o nosso cérebro permite que alguns de nós atinjamos graus impressionantes de proficiência no manuseio de ferramentas artificiais e objetos inanimados. Muito provavelmente é dessa voracidade cerebral em assimilar tudo ao seu redor que emergem os exímios violinistas, pianistas e também os craques de futebol, esses heróis populares que nos permitem manter por toda uma vida, ainda que tenuamente, laços quase imemoriais com a nossa infância e juventude.

É por isso que, ao terminar minhas palestras, eu sempre gosto de frisar que se um dia alguém tivesse tido o privilégio de mapear o cérebro desse vulcão de duas pernas chamado Pelé, esse alguém encontraria na região do lobo parietal onde o cérebro exibe um mapa do corpo de cada um de nós, não apenas a representação de um pé,  mas sim a imagem de uma verdadeira fusão desse com aquela que foi a sua mais fiel e amada companheira: a bola!

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