Paulo Gala
Coluna
Paulo Gala

Paulo Gala, professor da FGV/SP

Controlar gastos públicos pode evitar uma Taxa Selic mais elevada

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A última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua) do IBGE mostrou uma taxa de desemprego de 6,2% na mínima histórica, novamente surpreendendo as expectativas dos analistas. A economia segue muito aquecida, com o mercado de trabalho apertado.

Uma ótima notícia para os trabalhadores mas algo que preocupa em termos de pressão inflacionária. Além da inflação de serviços e de alimentos o BC enfrenta agora o desafio dos efeitos em preços domésticos de um real muito desvalorizado. O dólar atingiu a marca histórica de R$ 6,10, em um movimento de pânico no mercado, acompanhado por queda acentuada em preços das ações e altas exageradas na curva de juros. As preocupações com a dinâmica fiscal e aceleração da inflação atingiram níveis alarmantes.

O atraso no anúncio das medidas de ajuste fiscal agravaram o cenário. O movimento esperado não era sobre cortar despesas bruscamente, mas apenas desacelerar o crescimento das despesas públicas, possibilitando um controle mais eficiente da economia com orçamento alinhado ao arcabouço fiscal. Mas além do esperado ajuste surgiu também a proposta de isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais. Essa medida, que de fato foi prometida na campanha, estava fora do debate econômico no momento e gerou enorme incerteza no mercado.

A percepção gerada é de que o governo não está priorizando o controle de gastos e não está tão preocupado assim com as consequências inflacionárias do impulso fiscal. A medida de isenção de IR para quem ganha até R$5mil pode gerar um impacto de aproximadamente R$ 50 bilhões nos cofres públicos se não acompanhada de aumento de outros tributos. Foi uma surpresa e trouxe o temor de que, mesmo que haja cortes de gastos, estes podem ser neutralizados por novas isenções tributárias.

O que seria um ajuste gradual da taxa Selic indo até 12% pode agora virar um choque de juros com possível subida da taxa até 14%. O dólar acima de R$ 6,00 já causa um impacto inflacionário significativo, com o IPCA deste ano podendo chegar a 5% e já comprometendo também a meta do próximo ano.

Nessa trajetória, podemos esperar um real mais desvalorizado, mais inflação e novas elevações na Selic. A taxa de juros mais alta terá um impacto negativo sobre a atividade econômica, reduzindo o crescimento do PIB de uma expectativa de mais de 2% no ano que vem para, possivelmente, algo mais próximo de 1%.

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