Paulo Gala
Coluna
Paulo Gala

Paulo Gala, professor da FGV/SP

Inflação surpreende para baixo no Brasil e nos EUA

Compartilhar matéria

O último dado divulgado pelo IBGE do IPCA de maio registrou alta de 0,26%, abaixo dos 0,43% observados em abril e no piso das estimativas do mercado. O dado sinaliza uma moderação relevante da inflação, com a difusão recuando de 67% para 60%, outro indicativo positivo. Entre os principais vetores, os preços de alimentos para consumo no domicílio seguem arrefecendo, enquanto os serviços mostram leve desaceleração: a variação mensal foi de 0,18%, ante 0,20% em abril, e o acumulado em 12 meses caiu para abaixo de 6%. Ainda há pressões localizadas, como em café e outros itens alimentícios, mas o quadro geral aponta para acomodação nos preços.

A recente valorização do real, com o câmbio se aproximando de R$ 5,60, tem contribuído para aliviar os preços de bens transacionáveis. Se o câmbio continuar se fortalecendo — na direção de R$ 5,50 ou abaixo — o impacto desinflacionário poderá ser ainda maior. Também foi divulgada a primeira prévia do IGP-M de junho, que apontou deflação de 0,74%, após uma alta de 0,18% em maio. O IPA caiu 1,19% e o IPC-M desacelerou para 0,13%, ante 0,42% no mês anterior. A única alta significativa veio do INCC, com avanço de 0,92%, refletindo reajustes no setor da construção civil. De modo geral, os dados indicam uma tendência benigna para os preços ao consumidor. Com esse cenário, aumentam as chances de o IPCA de 2024 fechar abaixo de 5,5%, com algumas instituições projetando 5,3% ou até 5%. O câmbio desvalorizado no início do ano (chegando a R$ 6,30) pressionou os preços, mas o quadro atual é bem mais favorável. A Selic elevada tem contribuído para segurar o câmbio via diferencial de juros, reforçando o processo de desinflação.

No exterior, os dados de inflação também surpreenderam positivamente. O CPI de maio nos EUA subiu apenas 0,1%, abaixo da projeção de 0,2%, e o núcleo da inflação (core CPI) também veio em 0,1%, frente à expectativa de 0,3%. Em 12 meses, o CPI acumula alta de 2,4%, e o núcleo, 2,8% — ambos levemente abaixo do esperado. Apesar do início da vigência de novas tarifas comerciais impostas por EUA e China, não houve impacto visível nos preços até o momento. Isso se deve tanto à defasagem no repasse pelos produtores quanto à desaceleração da atividade econômica americana, que ajuda a conter pressões inflacionárias.

Diante desses dados, a expectativa de cortes nos juros dos EUA se fortaleceu. O mercado agora projeta dois cortes de 0,25 p.p. até o fim de 2024, levando a taxa para 4% ao ano. Isso favorece países emergentes como o Brasil, ao ampliar o diferencial de juros, pressionar o dólar e permitir valorização do real. Os juros futuros no Brasil recuam em resposta, refletindo otimismo nos mercados. No radar global, o cenário inflacionário também melhorou. A China registrou deflação no consumo e atacado, e a inflação ao consumidor na Europa ficou abaixo de 2%, permitindo o corte de juros pelo BCE. A queda das commodities — com o petróleo em torno de US$ 60 e o minério de ferro abaixo de US$ 100 — reforça esse ambiente benigno.

Acompanhe Economia nas Redes Sociais