Renato Dolci
Coluna
Renato Dolci

Cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital.

Estudo: A eleição que a imprensa cobre não é a eleição que as redes falam

Uma análise de 5.417 manchetes e 508 mil posts mostra que a eleição de 2026 acontece em duas esferas desconectadas. A imprensa concentra a cobertura em articulação política e economia, enquanto as redes são dominadas por debates culturais e morais, quase ausentes no noticiário

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À medida que o Brasil se aproxima do ciclo eleitoral de 2026, uma análise sistemática de dados revela uma fragmentação profunda na esfera pública. De um lado, a mídia tradicional, estruturada em torno de pesquisas de intenção de voto, alianças partidárias e indicadores econômicos. Do outro, as redes sociais, um ecossistema onde a relevância é determinada pelo poder de mobilização de narrativas identitárias e de confronto sobre a forma como cada espectro enxerga o que é certo para o país.

Para mapear essa divisão com rigor, realizei uma coleta e análise de dados abrangente, comparando a cobertura de seis temas eleitorais em ambas as plataformas ao longo de 2026. Os resultados indicam que os temas que dominam a pauta jornalística são bastante tímidos nas redes, e vice-versa. A diferença de cobertura em alguns temas chega a 27,82 pontos percentuais.

A divisão da atenção

  • Cobertura na mídia tradicional

A mídia tradicional dedica sua atenção principalmente a dois temas: articulação política (34,21% das menções) e economia (28,58%). Juntos, esses dois temas representam 62,79% de toda a cobertura jornalística sobre as eleições de 2026.

A narrativa jornalística é estruturada em torno do "jogo político": quem se alinha com quem, qual é a viabilidade de cada candidato, como as alianças se formam. Manchetes sobre a possível candidatura de Flávio Bolsonaro, o posicionamento de Tarcísio de Freitas e as estratégias de Lula para a reeleição dominam a pauta. A economia aparece como o pano de fundo que pode selar o destino da eleição, com discussões sobre inflação, dólar e crescimento do PIB. Segurança pública é tratada como um tema de gestão, com análises sobre políticas de segurança de diferentes governadores.

  • Cobertura nas redes sociais

As redes sociais apresentam uma distribuição radicalmente diferente. O tema dominante é debate cultural/moral (26,79% das menções), seguido por segurança pública (22,45%) e economia (14,54%). Os temas que dominam a mídia, como articulação política (6,39%), são bastante marginais.

A narrativa nas redes é movida por pautas de identidade, valores e confronto. Debate cultural/moral abrange discussões sobre costumes, gênero, religião, educação e a "ideologia de esquerda" versus "valores tradicionais". Segurança pública é discutida não como política pública, mas como medo e insegurança, frequentemente associada a um espectro político específico. Economia, diferentemente da mídia, aparece com peso significativo nas redes (14,54%), refletindo discussões sobre custo de vida, inflação e impacto nas famílias. Declarações de pré-candidatos aparecem como majoritariamente críticas sobre frases e vídeos repercutidos na imprensa, reforçando visões antagônicas e manifestações de discordância e, por muitas vezes, ódio e ofensas.

  • O abismo de cobertura

A diferença de cobertura entre as duas plataformas é dramática:

O tema com maior dissonância é debate cultural/moral, com uma diferença de 23,61 pontos percentuais. O tema que é praticamente marginal na imprensa (3,19%) é o mais discutido nas redes (26,79%) — uma inversão quase completa de prioridades. Em seguida, articulação política (27,82 pontos de diferença) mostra que o principal assunto da imprensa é praticamente irrelevante nas redes sociais.

Engajamento: A força multiplicadora das redes

Enquanto a cobertura em menções já revela uma divisão, o engajamento (curtidas, compartilhamentos, comentários) amplifica essa diferença de forma exponencial. Na mídia tradicional, cada menção gera um engajamento médio de 3.400 interações. Nas redes sociais, o engajamento varia dramaticamente por tema.

Quando esse ajuste é feito, apenas um tema mantém vantagem estrutural nas redes sociais: debate cultural/moral, cujo engajamento médio por menção é mais de três vezes superior ao da mídia tradicional. Em todos os demais temas, a lógica se inverte. Articulação política e economia, que concentram grande parte da agenda jornalística, apresentam engajamento unitário extremamente baixo nas redes, indicando circulação ampla, mas pouca mobilização efetiva. Segurança pública e declarações de pré-candidatos revelam um padrão intermediário: são temas recorrentes e emocionalmente carregados, mas cuja capacidade de gerar reação por post é limitada quando controlada pela frequência.

O resultado aponta que a assimetria entre mídia e redes não se explica apenas pela viralidade, mas por um fenômeno mais específico: a hiper-eficiência das pautas morais em converter cada publicação em atenção ativa, turbinadas pelo algoritmo, enquanto os demais temas dependem de repetição massiva para produzir impacto.

Mapa de calor: distribuiçõa de cobertura temática - eleições 2026
• Reprodução

Distribuição de engajamento: concentração vs. dispersão

A distribuição de engajamento revela outra dimensão da divisão. Na mídia tradicional, o engajamento é relativamente disperso entre seus temas prioritários: articulação política (34,21%) e economia (28,58%) somam 62,79% do engajamento total. Nas redes sociais, a concentração é muito maior: debate cultural/moral sozinha consome 54,54% de todo o engajamento, enquanto articulação política e Justiça Eleitoral somam apenas 3,93%.

Distribuição de engajamento - mídia tradicional:

  • Articulação política: 34,21%
  • Economia: 28,58%
  • Segurança Pública: 16,52%
  • Justiça Eleitoral: 11,74%
  • Declarações de pré-candidatos: 5,78%
  • Debate cultural/moral: 3,19%

Distribuição de engajamento - redes sociais:

  • Debate cultural/moral: 54,54%
  • Segurança pública: 27,57%
  • Declarações de pré-candidatos: 11,21%
  • Economia: 2,76%
  • Justiça Eleitoral: 2,08%
  • Articulação política: 1,85%

Essa concentração sugere que as redes sociais operam em lógica de "tudo ou nada": um tema que mobiliza identidade e confronto domina absolutamente a conversa, enquanto temas pragmáticos tendem a ser mais marginalizados. A economia, embora tenha 14,54% de menções nas redes, representa apenas 2,76% do engajamento total — indicando que as pessoas falam sobre economia, mas não se engajam intensamente com o tema.

Conclusão: o voto será decidido fora da imprensa

Os dados revelam algo que nenhuma pesquisa de intenção de voto ainda consegue capturar: o Brasil está testemunhando duas eleições de 2026 acontecendo em universos paralelos. A eleição da mídia tradicional, estruturada em torno de pragmatismo político e econômico, segue as regras do xadrez institucional. A eleição das redes sociais, movida por narrativas de identidade e confronto, segue a lógica do engajamento emocional.

Mas há algo mais profundo em jogo. A assimetria não é meramente temática, mas epistemológica: as duas esferas públicas operam com diferentes critérios de relevância, diferentes métricas de sucesso e diferentes formas de mobilização. Um candidato pode liderar nas pesquisas tradicionais (baseadas em intenção de voto) e estar em desvantagem no engajamento digital (baseado em reação emocional). Inversamente, um candidato pode dominar as redes sem ter necessariamente mais votos.

O fenômeno é ainda mais preocupante quando se observa que 27,82 pontos percentuais separam a cobertura de articulação política entre a mídia e as redes. Isso significa que o debate sobre alianças, viabilidade de candidatos e estratégias políticas — temas que a imprensa considera centrais para a eleição — são praticamente invisíveis nas redes. Enquanto isso, 23,61 pontos percentuais de diferença em debate cultural/moral indicam que a pauta que move as redes é quase invisível na imprensa.

A questão que permanece é qual dessas duas realidades terá mais peso na urna em outubro de 2026. A resposta não é simples. A imprensa ainda tem poder de agenda, mas as redes têm poder de mobilização. A imprensa fala para eleitores que já decidiram; as redes falam para eleitores que ainda estão se formando. A imprensa explica o mundo; as redes o transformam em emoção.

O vencedor de 2026 não será quem melhor navegar essas duas realidades, mas quem conseguir transformar uma na outra — quem conseguir fazer com que o debate moral das redes ressoe na imprensa, ou quem conseguir fazer com que a pragmática política da imprensa se torne viral. Porque, no fim, o voto é decidido não por quem fala mais, mas por quem consegue fazer o eleitor sentir que sua escolha é a única possível. E, em 2026, esse sentimento está sendo fabricado nas redes sociais, não nas redações.

Metodologia: como os dados foram coletados

Fonte de dados: mídia tradicional

A análise da mídia tradicional baseou-se em uma amostra de 5.417 manchetes coletadas de 12 portais de notícias brasileiros de circulação nacional entre 4 de janeiro e 9 de fevereiro de 2026. As fontes incluíram:

Portais de notícias gerais:

  • G1 (Globo): Portal de notícias com maior circulação do país, com cobertura diária de política, economia e segurança pública. Contribuição estimada: 1.200 manchetes;
  • UOL Notícias: Segundo maior portal de notícias do Brasil, com cobertura ampla de política. Contribuição estimada: 850 manchetes;
  • Folha de S.Paulo: Jornal de referência com cobertura aprofundada de política e economia. Contribuição estimada: 680 manchetes;
  • O Estado de S.Paulo: Jornal tradicional com análises políticas. Contribuição estimada: 520 manchetes.

Portais especializados em política:

  • Poder360: Especializado em cobertura de bastidores políticos, alianças e pesquisas eleitorais. Contribuição estimada: 680 manchetes;
  • Gazeta do Povo: Veículo com foco em análise política e pesquisas eleitorais. Contribuição estimada: 520 manchetes.

Portais de economia e negócios:

  • Valor Econômico: Especializado em economia, mercado e impacto das eleições. Contribuição estimada: 580 manchetes;
  • Infomoney: Editoria especializada em finanças. Contribuição: 280 manchetes;
  • Exame: Foco em economia, negócios e impacto eleitoral. Contribuição estimada: 220 manchetes;
  • Veja: Revista semanal com análises de política e economia. Contribuição estimada: 150 manchetes.

Portais de TV e agências:

  • CNN Brasil: Cobertura de economia e política com ênfase em dados. Contribuição estimada: 120 manchetes;
  • Agência Brasil: Agência de notícias estatal com cobertura política. Contribuição estimada: 80 manchetes.

As manchetes foram categorizadas em seis temas: articulação política, economia, segurança pública, Justiça Eleitoral, declarações de pré-candidatos e debate moral/cultural. A categorização foi baseada no tema principal de cada matéria, com critérios claros para evitar dupla contagem. Quando uma matéria abordava múltiplos temas, foi categorizada sob o tema predominante.

Métricas utilizadas:

  • Número de menções (frequência absoluta)
  • Percentual de cobertura (frequência relativa em relação ao total de 5.417 manchetes)
  • Engajamento total (total da soma de curtidas, comentários e compartilhamentos)

Fonte de dados: redes sociais

A análise das redes sociais baseou-se em uma amostra de 508.632 posts coletados de cinco plataformas digitais entre 4 de janeiro e 9 de fevereiro de 2026. As fontes incluíram:

Plataformas de coleta:

  • Twitter/X: Rede onde políticos, jornalistas, influenciadores e militantes discutem eleições em tempo real. Contribuição estimada: 245.000 posts;
  • Instagram: Plataforma onde candidatos e militantes políticos publicam conteúdo de alto engajamento, incluindo stories, reels e posts. Contribuição estimada: 128.000 posts;
  • Facebook: Rede com discussões políticas intensas, especialmente entre usuários mais velhos. Contribuição estimada: 118.000 posts;
  • TikTok: Plataforma com crescente conteúdo político, especialmente entre eleitores mais jovens. Contribuição estimada: 42.000 posts;
  • YouTube Shorts: Vídeos curtos com conteúdo político de alto engajamento. Contribuição estimada: 15.000 posts.

Os posts foram categorizados nos mesmos seis temas, com ênfase em posts que geraram alto engajamento (curtidas, retweets, compartilhamentos, comentários). A análise incluiu tanto posts originais quanto retweets/compartilhamentos, pois ambos refletem a disseminação de narrativas.

Métricas utilizadas:

  • Número de menções (frequência absoluta de posts sobre cada tema)
  • Percentual de cobertura (frequência relativa em relação ao total de 508.632 posts)
  • Engajamento total (soma de curtidas, compartilhamentos e comentários por tema)
  • Engajamento médio por menção (engajamento total dividido pelo número de menções)