Renato Dolci
Coluna
Renato Dolci

Cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital.

Opinião: Problemas do Brasil não se resolvem com um presidente "CEO"

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A sabatina promovida pelo G4 e O Antagonista em 4 de agosto de 2026, diante de 200 empresários em São Paulo e com cobertura de mais de 40 veículos de imprensa, trouxe à superfície uma metáfora que vem ganhando tração no debate eleitoral brasileiro: a do presidente como "CEO do Brasil".

Em menos de 24 horas, os cortes do evento acumularam mais de 708 mil visualizações apenas no YouTube, enquanto no Instagram e no Threads a expressão "CEO do Brasil" se transformou em meme viral com centenas de milhares de interações, sintoma de que a analogia corporativa já habita o inconsciente digital da campanha de 2026.

A expressão, que já havia sido utilizada pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), em dezembro de 2025 ao sugerir que bastaria "trocar o CEO" para o país voltar a funcionar, parte de uma premissa estruturalmente equivocada.

O economista Peter G. Klein, em análise publicada pelo Mises Institute (inclusive, um dos berços do liberalismo), demonstra que a analogia falha em sua raiz: empresas privadas operam sob o critério único do lucro, com participação voluntária de todos os agentes e mensuração trimestral de resultados por meio de métricas contábeis objetivas; condições que simplesmente não existem na administração pública, onde os "clientes" não escolhem seu fornecedor e os objetivos são definidos por legislação, não por conselhos de administração.

A distinção não é apenas conceitual. Um CEO detém autoridade hierárquica direta sobre a totalidade de seus subordinados e responde a um grupo homogêneo de acionistas (ou a ele próprio) cujo interesse converge para a valorização do capital.

O presidente da República opera sob restrições radicalmente distintas: negocia com 513 deputados e 81 senadores que representam interesses frequentemente antagônicos, submete-se ao controle de um Judiciário independente e presta contas a 156 milhões de eleitores com demandas contraditórias.

A Forbes publicou uma análise demonstrando que, dos 46 presidentes norte-americanos, 21 eram advogados e políticos de carreira, e o único empresário moderno considerado bem-sucedido no cargo, Harry Truman, havia fracassado nos negócios antes de entrar na política. A competência executiva corporativa e a competência política operam em gramáticas distintas: uma se baseia na imposição hierárquica, a outra na construção de consensos sob pressão institucional permanente.

O caso mais recente e empiricamente verificável dessa incompatibilidade é o Doge (Departamento de Eficiência Governamental), criado por Elon Musk em janeiro de 2025 com a meta declarada de cortar US$ 2 trilhões do orçamento federal dos Estados Unidos.

O órgão foi encerrado em 4 de julho de 2026, tendo alegado uma economia de US$ 215 bilhões, sem auditoria independente que validasse o número.

Uma investigação do New York Times revelou que 28 das 40 maiores alegações de corte eram imprecisas ou metodologicamente insustentáveis. O experimento demonstrou, em escala, que a lógica de "cortar custos e demitir" aplicada ao setor público gera disfunções sistêmicas que o mercado privado simplesmente não enfrenta: serviços essenciais interrompidos, litígios judiciais em massa e perda de capacidade institucional acumulada ao longo de décadas.

No Brasil, onde mais de 90% das empresas são micro e pequenas (aliás, público central do G4), responsáveis por 30% do PIB e 65% dos empregos formais, o que o setor produtivo demanda do Estado não é uma réplica de governança corporativa, mas previsibilidade regulatória, racionalidade tributária e acesso a crédito. Nenhuma dessas funções opera sob a lógica de maximização de lucro.

Um país com 33 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza, 4,5 mil quilômetros de fronteira seca vulnerável ao crime organizado e um sistema federativo de 5.570 municípios com capacidades fiscais radicalmente desiguais não apresenta problemas que se resolvam com OKRs e reuniões de board.

A confusão entre gestão pública e gestão privada não é apenas uma imprecisão retórica de campanha que viraliza no TikTok e gera engajamento em reels: é uma incompreensão conceitual e técnica sobre a natureza do poder político.

Nicolau Maquiavel identificou no capítulo IX de O Príncipe que toda cidade é atravessada por dois humores irredutíveis: os grandes que desejam oprimir e o povo que deseja não ser oprimido. E que nenhum governante elimina essa tensão: ele a administra ou é destruído por ela.

O Brasil não precisa de um CEO: precisa de um (bom) estadista. O CEO otimiza uma variável; o estadista arbitra entre variáveis que se excluem mutuamente. O CEO demite quem não performa; o estadista governa inclusive para quem votou contra ele. O CEO responde ao conselho a cada trimestre; o estadista responde à história.