Renato Dolci
Coluna
Renato Dolci

Cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital.

Quem foi o "perdedor" do debate nas redes? Nem Lula, nem Flavio

O debate da Globo não aconteceu. Em compensação, nas redes, durou a noite inteira

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Começou até antes do horário marcado. Durante boa parte da quinta-feira, o personagem mais pressionado era Lula. A decisão de não participar do encontro acumulava 66% de manifestações críticas nas redes.

A exclusão de Renan Santos, naquele momento ainda fora do debate, produzia reação ainda mais contundente: 99% das manifestações sobre a decisão da Globo eram contrárias à emissora, porém somavam cerca de 27% das menções totais sobre o debate. Já Lula, 42% de tudo o que se falava sobre o assunto. O púlpito vazio acabou proibido pelo TSE, mas já havia cumprido sua função nas redes: Lula estava no centro da conversa mesmo sem intenção de ocupar o estúdio. 

Então a noite mudou de personagem. Gilmar Mendes determinou a participação de Renan Santos. Cerca de 3 minutos depois, Flávio Bolsonaro anunciou que também não iria ao debate, atribuindo sua decisão à determinação do TSE que impedia a Globo de explorar a ausência de Lula.

A cronologia, porém, ofereceu às redes outra história. Renan passou imediatamente a dizer que Flávio havia fugido de enfrentá-lo, interpretação também explorada por adversários do candidato do PL. Não é preciso que uma narrativa seja juridicamente precisa para que seja digitalmente eficiente. Basta que os fatos caibam nela. A nova cadeia de eventos produziu quatro narrativas dominantes: ‘a Globo mereceu’ (31%), ‘censura do STF’ (26%), ‘Flávio é medroso’ (25%) e ‘Flávio fez certo em não ir’ (11%). 

Ao alegar “insegurança jurídica” diante das decisões de TSE e STF, a emissora deixou de ser o lugar onde o debate aconteceria para se tornar parte do próprio debate. A essa altura, Lula e Flávio começavam a perder espaço relativo para dois personagens que sequer disputam voto: Globo e Supremo, que aglutinaram, depois das 22h30, mais de 61% das menções e 84% do sentimento negativo sobre o tema Debate Eleitoral. Há uma razão para isso.

Os dois carregam uma característica particularmente poderosa no ambiente digital brasileiro: conseguem ser rejeitados por lados diferentes, por motivos diferentes. Não há convergência política entre esses grupos, mas há uma enorme convergência de alvos. 

Enquanto isso, os candidatos construíram seus próprios palcos, se aprofundavam em suas próprias bolhas: Lula chegou a 1,7 milhão de espectadores simultâneos no Flow; Flávio, a cerca de 900 mil em sua live com Pablo Marçal. 

O que começou nas redes como Lula contra Flávio, passou por Renan contra Flávio e terminou com Globo e STF concentrando boa parte da reação negativa da noite. Entre os dois líderes das pesquisas, não apareceu um desequilíbrio digital suficientemente claro para transformar a noite numa vitória de um sobre o outro.

O movimento mais importante aconteceu fora dessa disputa: a emissora e a Suprema Corte passaram ao centro da conversa. O debate começou eleitoral. Quando terminou, já era institucional. 

Nota metodológica: o levantamento considera 475.327 menções publicadas entre 1º e 2 de outubro, em Facebook, X, Instagram, TikTok e Youtube, relacionadas ao debate eleitoral e aos seus principais desdobramentos. Os percentuais apresentados refletem a distribuição das menções por personagem, instituição, narrativa e sentimento ao longo do período analisado.