Análise: Nas redes, crise saiu de Moraes/Mendonça e atinge todo o Supremo
Embates no plenário do STF ampliam desgaste institucional e fazem crescer nas plataformas dúvidas sobre regras, conflitos de interesse e legitimidade das decisões

Talvez o resultado mais importante da sessão da terça-feira (15) não esteja no placar que, aliás, sequer terminou de ser construído. Está naquilo que aconteceu fora dele.
Durante quase todo o mês de setembro, a crise do STF (Supremo Tribunal Federal) ainda tinha nomes. Alexandre de Moraes concentrava a rejeição. André Mendonça ocupava o papel de contraponto. Gilmar Mendes aparecia muito lateralmente. Flávio Dino não era exatamente lembrado. Edson Fachin tentava preservar a institucionalidade.
Depois de mais de sete horas de julgamento, essa organização começou a desaparecer. Em uma base estimada de 8,9 milhões de publicações, cerca de 72% das manifestações de caráter avaliativo eram críticas à Corte. Pela primeira vez desde o início da crise, o personagem mais desgastado talvez não seja um ou outro ministro. É o próprio Supremo.
Os números mostram essa transferência. Antes da sessão, as críticas diretamente associadas a Moraes oscilavam em patamares próximos de 65% dentro das publicações que faziam algum juízo sobre sua atuação. Ao final do julgamento, esse percentual havia recuado cerca de 16 pontos, enquanto as críticas dirigidas ao STF como instituição avançavam para algo entre 43% e 57%, dependendo da plataforma analisada. Não significa que Moraes tenha recuperado sua imagem. Significa algo potencialmente mais grave para a Corte: o desgaste deixou de caber em Moraes.
A linguagem também mudou. No início da crise, o vocabulário era fundamentalmente pessoal: Moraes, Vorcaro, mensagens, investigação, PF, abuso. Durante a sessão, termos relacionados a suspeição, impedimento, conflito de interesse, foro e transparência passaram a representar aproximadamente 23% do engajamento. À tarde, conteúdos questionando diretamente quem poderia julgar chegaram a cerca de 14% da conversação. É uma alteração semântica importante. As redes deixaram de discutir apenas se determinado ministro agiu corretamente e começaram a perguntar se o sistema construído para julgá-lo é capaz de fazê-lo.
André Mendonça talvez tenha sido quem mais perdeu nesse deslocamento. Até poucos dias atrás, ele conseguia ocupar uma posição rara: era ministro do Supremo sem carregar integralmente o desgaste do Supremo. Em determinados recortes, quase 40% das manifestações políticas relacionadas a Mendonça o apresentavam como contraponto ao funcionamento da Corte. Essa excepcionalidade praticamente desapareceu. Na terça-feira, seu nome acumulou cerca de 2,9 millhões de referências, aproximadamente 27% das menções aos ministros monitorados.
O problema, novamente, não é apenas quantidade, mas sim a composição. Ao longo do julgamento, conteúdos críticos a Mendonça cresceram aproximadamente 29%, enquanto publicações que o enquadravam como personagem externo à crise perderam cerca de um quarto de sua participação. Mendonça não virou Moraes. Mas deixou de ser o antípoda de Moraes. Passou a ser submetido à mesma pergunta que já organizava a rejeição aos demais ministros: qual é a motivação por trás da decisão?
É por isso que a sessão pode ter produzido um efeito paradoxal. Moraes terminou individualmente menos isolado justamente porque o Supremo terminou coletivamente mais exposto. Aproximadamente sete em cada dez conteúdos críticos publicados nos momentos de maior repercussão passaram a combinar o nome de algum ministro com referências à Corte, ao plenário ou ao funcionamento do tribunal.
Há uma dimensão quase teatral nisso. Uma Corte cuja autoridade depende, em grande medida, da liturgia, transformou sua própria liturgia em conteúdo. Interrupções, acusações, impedimentos, suspeições, pedidos de vista e confrontos entre ministros produziram uma narrativa perfeitamente adaptada à lógica das plataformas. Em alguns momentos, mais de 60% do crescimento marginal das menções estava associado diretamente aos embates entre integrantes do tribunal. O julgamento deixou de ser apenas transmitido pelas redes; passou a obedecer à gramática delas. Cada interrupção produzia um corte. Cada acusação, um personagem.
A crise também começa a tocar o governo, mas aqui os dados ainda recomendam cautela. O volume de publicações que associa o episódio diretamente ao Executivo cresceu aproximadamente 24% desde o início de setembro, e referências combinando governo, STF, PGR (Procuradoria-Geral da República), AGU (Advocacia-Geral da União) e Ministério da Justiça já representam algo próximo de 18% da conversação do “caso STF”. Ainda assim, não aparece transferência proporcional desse desgaste para avaliação presidencial ou intenção de voto.
Instituições vivem também de uma espécie de ficção necessária. Para que funcionem, é preciso que uma parcela suficiente da sociedade aceite que existem regras anteriores aos personagens e que, no momento decisivo, essas regras serão mais fortes do que eles. O que as redes registraram na terça-feira foi uma fissura exatamente nessa percepção.
Até agora, a pergunta dominante era quem estava certo. Depois da sessão, cresceu outra, muito mais difícil de responder: quem ainda pode decidir quem está certo?
Essa é a diferença entre uma crise de reputação e uma crise de confiança. A primeira destrói personagens. A segunda começa quando já não basta trocar os personagens para reconstruir a instituição.
Nota metodológica — O levantamento analisa a conversação digital sobre a crise do STF entre 1º e 16 de setembro de 2026, considerando 12,42 milhões de menções e interações entre os dias 1º e 15 e 8,9 milhões de publicações no dia 16. A coleta abrange X, Instagram, Facebook, TikTok e YouTube. Os conteúdos foram classificados por tema, personagem, sentimento e enquadramento narrativo, com filtros para duplicidades, spam e conteúdos automatizados de baixa relevância. Os dados representam a conversação nas redes e não constituem pesquisa de opinião.




