José Manuel Diogo
Coluna
José Manuel Diogo

O homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília. Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras

Analise: Trump, um salão de baile e os limites da República

Ballroom. Ballroom. Rosebud. Rosebud. Como um personagem orwelliano Citizen Trump quer a todo o custo deixar a marca da sua imagem na República Norte Americana. Será que vai conseguir?

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Um juiz federal suspendeu o projeto de Donald Trump para erguer um salão de baile de US$ 400 milhões no lugar da antiga East Wing da Casa Branca. A ação do National Trust for Historic Preservation sustenta que uma transformação dessa escala exige autorização do Congresso e revisão institucional adequada.

O gancho da notícia é arquitetónico, mas todo o seu conteúdo é político.

Quando o juiz Richard Leon trava a obra, ele trava também uma certa ideia de presidência e impede (pelo menos, por agora) que o ocupante do cargo coloque a sua assinatura física sobre o coração simbólico da república. Com a mesma leviandade de quem personaliza um hotel, um clube privado ou um troféu urbano.

Trump apresentou o seu ballroom como sinal de grandeza, eficiência e modernização, financiado por doadores privados e pensado para substituir estruturas temporárias em grandes eventos.

A Comissão de Belas-Artes aprovou o conceito por 6 a 0 em fevereiro. Ainda assim, agora, a decisão judicial recolocou o problema no seu lugar exato: a Casa Branca não é uma extensão patrimonial do presidente; é um bem público carregado de memória, rito e limite.

E como esta história toca Portugal e Brasil?

Veja: Portugal conhece o valor político do património, porque aprendeu, ao longo dos séculos, que os edifícios do poder são capítulos de continuidade nacional; o Brasil conhece, talvez ainda melhor, o risco inverso: a tentação recorrente de submeter símbolos públicos ao impulso performático dos governantes de turno.

Em ambos os lados do Atlântico, a lição é a mesma. Instituições sólidas começam quando o Estado deixa claro que a sua cenografia não pertence ao temperamento de quem manda, mas à história de quem fica.

Salões de baile sempre dizem mais do que prometem. São lugares de coreografia social, de hierarquia, de distância. Por isso este projeto diz tanto sobre o nosso tempo. Trump não queria apenas construir uma sala; queria monumentalizar uma estética de poder baseada em excesso, espetáculo e permanência.

O juiz que trava Trump lembrou que as democracias sobrevivem precisamente quando a justiça consegue dizer a quem governa — daqui para a frente, manda a República.