Ausência paterna: como lidar com a falta da figura do pai na vida adulta?
Dia dos Pais pode representar momento de reflexão para adultos que cresceram sem apoio afetivo

O Dia dos Pais acontece neste domingo (9) e deve reunir muitas famílias pelo país. Existe, no entanto, uma parcela da população que cresceu com a ausência paterna, uma situação que costuma impactar escolhas e o comportamento de pessoas na fase adulta.
A presença ativa de um pai na vida de uma criança vai muito além da convivência física, favorecendo diretamente o desenvolvimento emocional, cognitivo e social.
"Um pai emocionalmente disponível oferece segurança, estabelece limites consistentes, valida emoções e estimula a autonomia da criança", explica Eliana Farias, coordenadora do curso de Psicologia do Centro Universitário Braz Cubas.
Segundo a profissional, a presença paterna contribui para uma melhora na autoestima, autorregulação emocional, desempenho escolar e até mesmo habilidades escolares de uma criança. Ela destaca que essa figura não precisa vir necessariamente de um pai biológico, mas de alguém que assuma essa posição na vida da pessoa.
Além disso, um pai que esteja presente fisicamente na vida de um filho muitas vezes não representa alguém que seja disponível emocionalmente.
"É o pai que convive, mas não escuta; que provê financeiramente, mas não participa da vida emocional da criança; que não demonstra interesse, acolhimento ou validação dos sentimentos. Na psicologia, sabemos que presença física não é sinônimo de vínculo afetivo. A criança precisa sentir que é vista, ouvida e valorizada", aponta.
Essa invisibilidade causada pelo pai pouco disponível pode gerar sentimentos de invisibilidade, insegurança e dificuldade para confiar nas relações futuras.
Eliana destaca que a ausência paterna não determina o destino de uma criança, mas pode representar um fator de risco. "Na prática clínica e nas pesquisas em psicologia do desenvolvimento, observamos que algumas crianças podem apresentar maior dificuldade na regulação das emoções, insegurança nos relacionamentos, baixa autoestima, medo de abandono ou necessidade excessiva de aprovação", declara.
Além disso, podem aparecer dificuldades na construção de uma identidade, na confiança interpessoal e na resolução de conflitos. "Muitas pessoas desenvolvem recursos psicológicos saudáveis justamente porque encontraram outras figuras de apego consistentes ao longo da vida", afirma.
É possível superar a ausência da figura paterna?
Os traumas deixados em uma pessoa que cresceu sem apoio paterno podem ser superados, segundo Eliana. A profissional avalia que o cérebro é capaz de se transformar ao longo da vida e aponta que a história pode influenciar, mas não terminar como uma pessoa será.
"O primeiro passo é reconhecer os impactos dessa experiência sem reduzir toda a própria identidade a ela. A psicoterapia oferece um espaço seguro para compreender padrões emocionais, fortalecer a autoestima e construir formas mais saudáveis de se relacionar", avalia.
Ela segue: "Além disso, desenvolver vínculos seguros, investir no autoconhecimento e ampliar repertórios emocionais favorece novas formas de viver as relações. A própria criatividade, entendida na psicologia como a capacidade de produzir respostas novas e adaptativas diante dos desafios, pode ser uma importante aliada na reconstrução de narrativas pessoais e na elaboração de experiências difíceis".
Transferência de afetos
É possível que uma pessoa que não cresceu com uma figura paterna possa transferir essa imagem para outra pessoa em um processo chamado fenômeno de transferência ou repetição de padrões relacionais.
Eliana Farias explica que, de forma inconsciente, pessoas possam buscar esse tipo de apoio em parceiros, líderes, professores e até amigos. "Isso não significa que todas as pessoas que vivenciaram ausência paterna farão esse movimento, mas ele é relativamente frequente na prática clínica", alerta.
Para que os efeitos sejam amenizados, é necessário, a princípio, identificar padrões e compreender melhor as escolhas afetivas. Com a psicoterapia, é possível transformar experiências do passado em aprendizado, sem que elas determinem o futuro.


