Cultura do "eu mereço": como o cansaço está mudando a relação com o consumo

A lógica de que o brasileiro trabalhou muito leva a gastos extras por conforto e alívio, transformando a forma de controlar os gastos

Larissa Santos, da CNN Brasil
Compartilhar matéria

Pagar por filas mais curtas, pelo delivery chegar mais rápido ou assistir a um festival com espaço exclusivo tem se tornado uma prioridade na hora de dividir o orçamento do brasileiro. É o que diz o levantamento da Casa Mundo Latam, da pesquisa "Status Quo do Me Mimei", que percebeu que os brasileiros têm optado por gastar mais para ter conveniências no dia a dia.

No levantamento, a consultoria ouviu pessoas do Brasil, México, Colômbia e Argentina em busca de entender como o cansaço transformou a relação de latino-americanos com o consumo, conforto e bem-estar, e o resultado mostrou que 77% dos brasileiros consideram que uma rotina segura, previsível e com mais tempo é um privilégio. O índice da América Latina é de 69%, mas, para o brasileiro, a percepção é ainda maior.

Conforme os dados, 70% das pessoas avaliam que quase todos os serviços têm uma versão melhor para quem pode pagar mais — a título de exemplo, ingressos com espaços de descanso em festivais ou até mesmo um streaming sem propaganda. Ainda, saúde e alimentação estão entre os principais objetivos do público que opta por gastar um pouco mais para ter comodidade. E mais de 55% concorda que a finalidade principal é o conforto e evitar problemas.

Com esse cenário de maior sobrecarga, cansaço permanente, ganhar a força chamada pela consultoria de "Eu mereço" torna-se uma lógica que ocupa um espaço permanente nas decisões de consumo, mudando uma percepção de necessidade. "O problema não está em querer conforto ou aproveitar uma experiência melhor. Ele aparece quando o cansaço se torna tão constante que consumir passa a ser uma das únicas formas disponíveis de sentir alívio. A sociedade repete que você trabalhou muito, está exausto e, por isso, merece alguma coisa", avalia Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam.

Em concordância com esse novo comportamento, uma pesquisa da Kantar mostra que o preço médio de produtos premium cresceu 11,3% no terceiro trimestre de 2024. Além de tudo, opções premium passaram a ser a oportunidade de ter opções completas, como um bom áudio, uma imagem melhor ou receber mais velocidade. "O mimo eventual pode representar prazer, recompensa e cuidado. A armadilha aparece quando toda situação precisa ser otimizada, personalizada ou transformada em uma experiência premium. Quando a pessoa passa a pagar para não esperar, não conversar, não se adaptar ou não lidar com nenhum imprevisto, o conforto deixa de ser uma escolha pontual e passa a organizar sua relação com o mundo", acrescenta Adriana.