Quais os cuidados com a natureza ao fazer acampamento e trilhas?
Crescimento do turismo de aventura no Brasil reacende debate sobre práticas de baixo impacto; guia especializada em ecoturismo detalha os cuidados essenciais para preservar trilhas, rios e a fauna silvestre

Nos últimos anos, trilhas e acampamentos deixaram de ser atividade de nicho e passaram a atrair um público cada vez mais amplo no Brasil, impulsionados pela busca por lazer ao ar livre e pela popularização de conteúdos sobre natureza nas redes sociais.
O aumento do fluxo de visitantes em parques, unidades de conservação e áreas silvestres, no entanto, trouxe também um crescimento nos impactos ambientais causados por comportamentos inadequados, do lixo deixado pelo caminho às fogueiras acesas sem necessidade.
Para orientar quem pretende se aventurar por trilhas e acampamentos, a CNN Brasil conversou com a guia Milene Ricardo, especializada em turismo de natureza e sócia da operadora Maitreya Ecoturismo. A profissional reuniu as principais recomendações de segurança e preservação ambiental que todo visitante deveria seguir antes de sair de casa.
Planejamento reduz riscos para o visitante e para o ambiente
Segundo Milene, os cuidados começam muito antes de o visitante pisar na trilha. Equipamentos adequados (roupa, calçado e mochila compatíveis com o tipo de percurso) são o primeiro item da lista, seguidos pelos itens de segurança específicos para cada trajeto. A guia recomenda ainda que o visitante avalie o próprio condicionamento físico antes de escolher uma trilha e leve água e comida em quantidade suficiente para toda a atividade.
Para percursos mais longos ou de maior dificuldade, ela orienta para a contratação de um profissional. "A orientação vale especialmente para quem não conhece a região ou está fazendo a trilha pela primeira vez, quando o acompanhamento especializado reduz tanto o risco de acidentes quanto a chance de danos não intencionais ao ambiente", explica.
O princípio de não deixar rastros
A especialista reforça que um dos pilares do turismo de baixo impacto é a ideia de que nada deve ser deixado para trás, nem mesmo resíduos considerados biodegradáveis.
"Sair da trilha demarcada, jogar lixo pelo caminho, pichar rochas, arrancar vegetação e perturbar animais estão entre os comportamentos que mais comprometem áreas naturais frequentadas por visitantes", afirma Milene.
A regra para o lixo produzido durante a atividade é absoluta: tudo o que é levado precisa voltar junto com o visitante.
"Mesmo restos de comida, que se decompõem naturalmente, podem representar risco à fauna local. Muitos desses alimentos não fazem parte da dieta de animais silvestres da região e, além de atrair insetos, podem causar problemas de saúde às espécies que os consomem", explica.
Fogueiras estão fora de cogitação na maioria das situações
A profissional também ressalta que acender fogueiras em áreas de camping e trilhas aumenta o risco de incêndios florestais, sobretudo em períodos de seca, além de deixar marcas permanentes no ambiente. A alternativa, segundo ela, está em equipamentos já disponíveis no mercado. "Existem fogareiros para cozinhar e lanternas para iluminar o ambiente", diz a guia.
"Sem fogueira, o acampamento também ganha a possibilidade de observar o céu noturno sem qualquer tipo de interferência luminosa. A exceção fica por conta de situações pontuais de segurança, quando o fogo pode ser usado para afugentar animais que representem risco ao grupo", afirma.
Contato com a fauna exige distância e silêncio
A relação com os animais encontrados pelo caminho é outro tema importante para quem quer se aventurar em trilhas. Alimentar espécies silvestres, mesmo com boa intenção, está entre os comportamentos mais prejudiciais, já que grande parte dos alimentos oferecidos por humanos não compõe a dieta natural desses animais e pode causar danos à saúde deles. Segundo a profissional, restos de comida também podem carregar bactérias inofensivas para pessoas, mas nocivas para a fauna.
Caminhar em silêncio, evitando gritos e aproximações forçadas para fotografar animais, também integra a lista de recomendações. "Devemos manter distância que não afugente o animal. Os bichos precisam manter o próprio hábito de buscar alimento sem intervenção humana, como parte do funcionamento natural da cadeia alimentar da região".
Rios e cachoeiras pedem cuidado redobrado
A água doce encontrada ao longo de trilhas e acampamentos também exige atenção especial. Restos de comida e utensílios engordurados não devem ser lavados diretamente em rios e cachoeiras, para evitar contaminação.
Antes da lavagem final na água, a recomendação é usar areia ou terra disponível no local para remover a gordura dos utensílios, prática popularmente conhecida como "arear" as panelas.
Ainda segundo Milene, restos de comida que não puderem ser transportados de volta devem ser enterrados, assim como os dejetos humanos produzidos durante a atividade. O uso de protetor solar e outros produtos químicos também merece atenção redobrada antes de entrar em rios e cachoeiras, já que resíduos desses produtos se acumulam na água e afetam o ecossistema aquático.
Escolha do local de acampamento e proteção da vegetação
Sempre que existirem áreas já demarcadas para camping, Milene recomenda que sejam essas as escolhidas pelos visitantes, já que costumam ser definidas justamente para concentrar o impacto humano em pontos específicos. "Na ausência de estrutura formal, ou seja, o chamado camping selvagem, a orientação é buscar locais mais abertos, com vegetação rasteira e resistente, ou até superfícies rochosas, evitando a remoção de arbustos e plantas nativas", orienta.
Seguir os caminhos já demarcados durante as trilhas, sem criar atalhos, é outra medida simples apontada pela guia para reduzir a erosão e a degradação da vegetação ao redor do trajeto original.
Segurança redobrada para quem viaja sozinho
A segurança dos viajantes também é um ponto relevante para quem se aventura pela natureza. Buscar informações completas sobre a região, usar a tecnologia disponível para monitoramento e comunicação, e avisar terceiros sobre o itinerário e o horário previsto de retorno são cuidados básicos recomendados pela guia para qualquer pessoa que viaje sozinha.
Para viajantes mulheres, ela reforça a importância de evitar regiões com histórico de violência e de recorrer sempre a recomendações confiáveis na escolha de hospedagens, guias e demais serviços utilizados durante a viagem — um cuidado que, segundo Milene, deveria acompanhar o mesmo nível de planejamento dedicado aos aspectos ambientais da atividade.


