O homem que convenceu uma rainha de que era um lobisomem após matar 9 pessoas no século XIX

Julgado em 1852 na Espanha, o caso de Manuel Blanco Romasanta tornou-se um marco histórico na transição entre o folclore e o estudo da licantropia clínica na medicina psiquiátrica

Beto Souza, da CNN Brasil
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Na década de 1840, o espanhol Manuel Blanco Romasanta cometeu o assassinato de pelo menos 9 pessoas. Conhecido como o "Lobisomem de Allariz", o criminoso protagonizou um dos processos judiciais mais incomuns do século XIX ao utilizar o mito do lobisomem como sua defesa oficial nos tribunais.

Durante o julgamento, realizado em 1852, Romasanta alegou que os seus atos não eram de sua responsabilidade, mas sim fruto de uma maldição familiar que o transformava em uma fera.

A defesa baseada em uma maldição familiar

Perante o juiz, o acusado afirmou ter se transformado em lobo pela primeira vez em uma floresta, onde teria passado cinco dias em companhia de outros dois animais atacando e consumindo pessoas devido à fome.

Embora os peritos médicos da época tenham rejeitado a hipótese de uma metamorfose física real, o caso despertou grande interesse na comunidade científica da Europa.

A gravidade dos fatos e a singularidade do argumento chamaram a atenção da Rainha Isabel II. A monarca decidiu comutar a pena de morte de Romasanta para prisão perpétua, permitindo que médicos e psiquiatras estudassem o seu comportamento e o seu estado mental.

O desfecho converteu o processo em um marco inicial para o desenvolvimento da psiquiatria e da criminologia.

Do folclore à licantropia clínica

Historicamente, antes do avanço das ciências médicas e da compreensão sobre transtornos mentais graves, comunidades antigas e tribunais eclesiásticos atribuíam crimes violentos e atos de canibalismo a figuras mitológicas. Nesses contextos, a lenda do lobisomem funcionava como a única explicação cultural disponível para interpretar condutas marcadas por extrema violência.

Com o estudo de casos como o de Romasanta, a medicina definiu a licantropia clínica como uma condição psiquiátrica rara. Trata-se de um delírio em que o paciente desenvolve a falsa convicção de que seu corpo sofreu alterações físicas, como o crescimento de dentes e pelos, passando a acreditar que se transformou em um animal.

Atualmente, a criminologia analisa essas narrativas históricas como manifestações antigas de quadros de psicose, esquizofrenia ou transtorno de personalidade antissocial.