Turismo sombrio: viajantes escolhem locais que foram palcos de tragédias para curtirem as férias

Viajantes de todo o mundo passam por locais que não são indicados por órgãos oficiais dos EUA e do Reino Unido

Paulo Vito, colaboração para a CNN Brasil*
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Moradores de vários países do mundo se tornaram adeptos de um modelo diferente de viajar: eles praticam o "turismo sombrio", conhecido também como "dark tourism".

A origem desse tipo de entretenimento existe há muitos anos. Em 1861, por exemplo, centenas de moradores da cidade de Washington D.C., nos Estados Unidos, viajaram com cestas de piquenique e binóculos para assistirem à Guerra Civil Americana na cidade de Manassas, no estado de Virginia.

Atualmente, viajantes passam as férias em locais que não são recomendados pelo Departamento de Estado dos EUA, como Coreia do Norte, Afeganistão e Haiti. Alguns desses turistas conhecem locais que presenciaram momentos trágicos, como a cidade de Jonestown, na Guiana, quando houve um suicídio em massa, ou os Campos da Morte, no Camboja.

Arnaud Kirby, de Luxemburgo, afirma que seu interesse por locais como Síria, Líbia ou Sudão surgiu simplesmente por gostar de história. “Estar em um lugar onde há pouquíssimos turistas cria uma atmosfera completamente diferente. Permite interações mais autênticas com a população local e uma experiência mais genuína do país”, diz ele à CNN.

O turista já viajou para o Chade, na África Central, um país que tanto o Departamento de Estado dos EUA quanto o Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido desaconselham as visitas por possíveis "ameaças de terrorismo, distúrbios civis, além de criminalidade, sequestros e munições não detonadas".

Kirby afirma que seu passeio ao local foi surpreendente, principalmente pela hospitalidade dos moradores locais. “O que realmente me impressionou foi o quão amigáveis as pessoas eram", avalia.

Em outro passeio, desta vez para Zakouma, ele se deparou com animais que sequer estavam acostumados com a presença de veículos. "Me lembro de um momento em particular quando um elefante solitário caminhou até o nosso veículo e encostou a tromba no carro, quase como se estivesse tentando entender o que era”, conta.

Combinação entre história antiga e moderna

O britânico Will Aswell, que usa um pseudônimo para poder viajar para outros lugares futuramente, conta que nunca se sente inseguro ao fazer uma viagem para um local pouco recomendado por acreditar que os grandes centros urbanos são alvos mais fáceis de ataques. “As taxas de homicídio mostram isso repetidamente”, aponta.

O viajante afirma que locais como os EUA e Reino Unido costumam vender uma imagem errada de países que seguem culturas diferentes das suas. Por acreditar nisso, o homem já passou por locais como Irã, Coreia do Norte, Ucrânia e Iraque.

Aswell é entusiasta do "turismo sombrio", mas revela que já passou por situações tensas. Em 2025, no estado de Sinaloa, no México, o ônibus em que estava foi invadido por membros do Cartel de Jalisco Nova Geração. Ele precisou desembolsar uma fortuna para ser liberto pelos integrantes do grupo. “Fui estúpido por viajar à noite”, avalia.

A empresa britânica Lupine Travel é especializada em levar turistas a locais pouco recomendados. O guia australiano Alex Hobbs comenta que, apesar dos desafios, os países com pouco turismo oferecem a "oportunidade de vivenciar a combinação incrível e entrelaçada da história antiga e moderna".

O profissional afirma que as populações que vivem em locais com culturas diferentes costumam ser extraordinariamente acolhedoras por terem sobrevivido a momentos historicamente turbulentos.

“Não vejo um único motivo específico que motive as pessoas a fazer esse tipo de viagem, mas sim uma combinação. Para mim, minha motivação número um é a aventura. Adoro o desafio de trabalhar nesses ambientes e há sempre uma sensação de satisfação quando finalmente chego a um destino incomum”, reflete o guia.

Hobbs, porém, já se viu em momentos tensos. Em um voo para Mali, ele ficou retido no Catar em meio ao início da guerra entre EUA e Irã, que afetou grande parte dos voos que passavam pelo Oriente Médio.

Todos os países do mundo

Em 2024, Hayley Kennedy, de Londres, se tornou a primeira pessoa com deficiência visual a visitar os 193 países da Organização das Nações Unidas, sendo a Líbia sua última parada. Ela passou por locais como Coreia do Norte, Irã, Somália, Mianmar e República Democrática do Congo.

“Para mim, o objetivo é ver o máximo que puder antes de perder totalmente a visão. Tentar ver novos lugares e vivenciar novas coisas. Todo país tem algo a oferecer — às vezes você só precisa se esforçar um pouco mais para encontrar”, afirma a mulher. Ela fez grande parte dos trajetos sozinha, mas também conta com a companhia de pequenos grupos ou acompanhantes em suas aventuras.

“Tento conscientizar sobre viagens para pessoas com deficiência. “No entanto, de modo geral, percebi que a maioria das companhias aéreas ou autoridades de transporte público tem pouco ou nenhum interesse em tornar as viagens acessíveis para pessoas com deficiências que não sejam a necessidade de uma cadeira de rodas”, lamenta.

Kennedy conta que só se sentiu insegura em um país, a República Centro-Africana, por ter sido agredida enquanto andava pelos jardins do hotel por uma mulher que se dizia oficial militar feminina.

“Fui empurrada para o chão, gritada em francês e ela levou meu telefone. Eventualmente, percebi que, apesar do uniforme, ela era uma ladra comum querendo dinheiro para devolver meu telefone”, descreve.

Relação com a origem

Para o autor britânico, H.E. Sawyer, do livro “I Am the Dark Tourist: Travels to the Darkest Sites on Earth” (“Eu sou o turista sombrio: Viagens aos locais mais sombrios da Terra”), visitar países que passaram por momentos históricos tem relação direta com sua origem.

O escritor afirma que cresceu com parentes que sobreviveram a bombardeios na Grã-Bretanha na Segunda Guerra Mundial. Ele ainda fez amizade com um sobrevivente do Holocausto e teve um fascínio por cemitérios ao longo da vida, mas foi em uma viagem para Chernobyl, na Ucrânia, que tudo mudou.

“Comecei a observar outros turistas para ver em que estavam focando, o que estavam dizendo, como reagiam e o que decidiam fotografar”, explica Sawyer.

“Há também um valor em visitar pessoalmente, especialmente memoriais, onde se tem uma noção da escala, do cenário, uma visão em 360 graus e de como outros turistas e o público em geral interagem. Como observação lateral, também estou ciente de como os memoriais são usados pelos governos para programação social”, continua.

O autor conta que visitou a vila de Aberfan, no País de Gales, onde dezenas de pessoas morreram quando uma escola primária foi soterrada por rejeitos de mineração de carvão em 1966; o “Mar de Árvores” de Aokigahara, no Japão, um local frequente de suicídios; e os destroços do navio de passageiros Salem Express, afundado em 1991 no Mar Vermelho, onde possivelmente centenas de vítimas estão sepultadas.

O local mais tenso pelo qual já passou foi o porão do Castelo de Hartheim, na Áustria, onde os nazistas executaram a eutanásia milhares de pessoas com deficiência e doentes mentais antes do início do Holocausto principal.

Sawyer também já foi à Jonestown, na Guiana, quando mais de 900 seguidores do reverendo Jim Jones tiraram a própria vida durante um culto ao beberem água com cianeto em 1978.

Atualmente, uma agência de Georgetown possui um pacote de excursões para o local da tragédia. Roselyn Sewcharran, dona da empresa que faz o passeio, declara que buscou a bênção de moradores locais antes de fazer o turismo, como uma forma de ter respeito por abordar um tema tão sensível.

*Com informações de Joe Yogerst da CNN