Instabilidades no Irã podem afetar mercado de fertilizantes nitrogenados

Em 2024, a produção iraniana de ureia foi estimada em cerca de 9 milhões de toneladas

Gabriella Weiss, São Paulo
A ureia é utilizada para a produção de fertilizantes nitrogenados  • Yara Fertilizantes
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As instabilidades políticas no Irã têm potencial para impactar os preços globais de fertilizantes nitrogenados, embora analistas avaliem que ainda é cedo para dimensionar os efeitos. O país está entre os maiores produtores mundiais de ureia, insumo muito utilizado para a fabricação de fertilizantes nitrogenados usados em culturas como milho, trigo, cana, café, hortaliças. A ureia ainda é utilizada na indústria química e alimentação animal.

Além das preocupações com o fornecimento, o preço da ureia também pode variar porque sua produção depende diretamente do gás natural, principal matéria-prima usada para produzir a amônia, que é a base da ureia. Por isso, quando o petróleo e o gás natural ficam mais caros, o custo de produção da ureia tende a subir. No momento, contudo, os preços de ureia ainda não estão subindo em decorrência dos protestos iranianos.

O Oriente Médio é a região mais importante para a produção do insumo, concentrando mais de 40% das exportações globais de ureia. Em 2024, a produção iraniana de ureia foi estimada em cerca de 9 milhões de toneladas, das quais aproximadamente metade é destinada à exportação para diversos mercados internacionais. Entre os principais destinos da ureia iraniana estão Turquia, Brasil e África do Sul.

O Brasil importou cerca de 7,7 milhões de toneladas de ureia em 2025, e Nigéria, Rússia e Omã figuram entre os principais fornecedores. Segundo a consultoria Argus, no entanto, volumes registrados como originários de Omã podem incluir cargas provenientes do Irã, o que pode gerar distorções estatísticas.

Desde meados de dezembro, a produção de ureia no Irã opera de forma parcial devido a cortes no fornecimento de gás natural, situação recorrente durante o inverno, quando parte do gás é direcionada ao aquecimento residencial. Segundo a Argus, estima-se que aproximadamente 450 mil toneladas deixaram de ser produzidas desde então.

O mercado também acompanha possíveis desdobramentos de uma eventual tarifa de 25% anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre países que mantêm relações comerciais com o Irã. As consequências dessa medida ainda são consideradas incertas, tanto para participantes que fornecem ureia ao mercado norte-americano e negociam com o Irã, como a Rússia, quanto para compradores em outros países, incluindo o Brasil, avalia Renata Cardarelli, especialista em fertilizantes da Argus.

Segundo Cardarelli, fornecedores de ureia da Rússia e do Oriente Médio relatam falta de clareza sobre a aplicação de custos adicionais nas exportações aos Estados Unidos. Atualmente, fertilizantes nitrogenados russos, como ureia e a mistura de nitrato de amônio e ureia (UAN), não estão sujeitos a taxas de importação nos EUA. Para a especialista, “um eventual aumento dos preços da ureia russa aos EUA pode fazer com que essa origem redirecione suas cargas para outros países globais compradores de ureia, como para o Brasil”, podendo aumentar a competição por outras origens.

Outro ponto de atenção para os conflitos da região é o Estreito de Ormuz, rota estratégica para o transporte marítimo de commodities energéticas e industriais. A passagem liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Oceano Índico, por onde passam cerca de 20% do petróleo e gás natural consumidos mundialmente. Assim, eventuais tensões na região podem afetar a logística de exportações.

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