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    Brasil estará sob os holofotes na Cúpula dos Brics, dizem especialistas

    Líderes do bloco se reúnem em Joanesburgo, na África do Sul, para discutir temas geopolíticos; expansão da entidade será um dos debates centrais

    Diego Mendesda CNN

    São Paulo

    Marcado para acontecer nos dias 22, 23 e 24 do mês de agosto, em Joanesburgo, na África do Sul, a Cúpula dos Brics deixa o Brasil em uma posição de interesse de outros países.

    Os líderes do bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul se reúnem para discutir diversos temas geopolíticos, e a expansão da entidade será um dos debates centrais.

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já deu declarações favoráveis à inclusão de países como Arábia Saudita, Venezuela e Argentina no bloco.

    Giorgio Romano Schutte, professor em Relações Internacionais e Economia da Universidade Federal do ABC (UFABC) e integrante do Observatório da Política Externa e de Inserção Internacional do Brasil (OPEB), diz que o Brasil já entra com uma força política diante dos outros países por ter colocado uma ex-presidente para liderar o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB, na sigla em inglês), o braço financeiro do bloco, também chamado de o Banco dos Brics.

    “Dilma Roulsseff está a mil por hora, tentando aproveitar desse momento para fazer uma diferença. Vale lembrar que o NDB saiu do papel em 2014 quando ela era presidente, e o mundo sabe disso e considera a importância”, afirma.

    Segundo Schutte, não haverá nenhuma decisão concreta no encontro, porém a cúpula chamará muita atenção do mundo pelo aumento da rivalidade internacional entre China e Estados Unidos, e com o desenrolar da guerra na Ucrânia.

    Impacto da China

    Por outro lado, Brasil, África do Sul e Índia querem se aproveitar do encontro para se posicionarem em um cenário de política externa ativa, pontua o professor.

    Segundo ele, a entrada de outros países e um fortalecimento de economias do sul global deixam o governo brasileiro em cima do muro, podendo passar a se afastar dos meios de pagamento ligado ao dólar das economias ocidentais.

    Entretanto, para o professor, isso não necessariamente pode acontecer e nem oferecer uma perda de vantagem ao país.

    “O Brasil é um país que tem recursos próprios e não é como países pequenos que precisam de outros. Hoje ele é credor em dólar — tem mais da moeda americana na conta do que está devendo; e credor em energia — produz mais do que consome. Mas, se não fizer um bom tratado, poderá se deparar com atrasos tecnológicos e perda de parceiros importantes.”

    Giorgio Romano Schutte

    De acordo com o especialista, é hora de observar por onde vão os ventos, sem influência direta da China.

    “Deve-se levar em conta que a economia chinesa não está na América Latina para resolver os problemas americanos. Dá para combinar os interesses entre a China e os países latino-americanos.”

    A diplomacia doméstica também deve avaliar a entrada de novos países, principalmente diante da resistência de outros membros do bloco.

    “A Argentina quer entrar para os Brics, porém não há uma decisão unânime do grupo. Como os argentinos são parceiros do Brasil, partilham do Mercosul, será um ponto difícil para enfrentar”.

    Posição do Brasil perante os Brics

    Para Igor Lucena, economista e membro da Associação Portuguesa de Ciência Política, o bloco acabou se desviando de sua proposta.

    Na sua criação, previa quatro economias ascendentes: Brasil, Rússia, Índia e China. Posteriormente, entrou a África do Sul.

    O Brasil, assim como os outros, era tido como o grande celeiro de oportunidades. De acordo com Lucena, esses países se uniram, pois eram são grandes produtores de energia, indústrias e serviços.

    Porém, essa teoria se tornou falha a partir do momento que a China se tornou muito mais forte do que os parceiros. Além disso, os outros países tiveram que lidar com seus próprios problemas.

    “A China acabou desviando a visão geopolítica do bloco e passou a usar os Brics como um elemento de disputa geoeconômica. A ideia deles é muito clara: expandir os parceiros, colocando players como a Arábia Saudita e outros países que podem fazer um confronto contra os Estados Unidos.”

    Segundo ele, essa movimentação é negativa para o Brasil.

    “Hoje temos excelente relacionamento com os Estados Unidos, e agora estamos buscando um acordo com a União Europeia. A tentativa de ratificar ou transformar o Brasil, ou os Brics, em uma visão geopolítica e não econômica, seria catastrófica para a política externa”, opina Lucena.

    O professor de economia e relações internacionais Ibmec-SP, Alexandre Pires, diz que, com todas essas movimentações, o Brasil é o país que mais tem a perder.

    “Ele é o parceiro estranho dessa aposta, está ali correndo o risco de ser, no futuro, penalizado por ter se aproximado tanto da China e Rússia.”

    Interesses brasileiros

    Alguns mercados já são atendidos pelos outros membros do bloco, outro ponto que deixa o Brasil em uma situação complicada.

    “Alguns dos países que esperam entrar no tratado já são economicamente influenciados por Rússia, Índia ou China, e com isso o Brasil teria pouco a ganhar”.

    Pires até cita o interesse da Argentina, Honduras e Venezuela em fazer parte do Brics, mas esclarece que o impacto neste cenário é muito pequeno. “Já temos um tratado direto com a Argentina,que é o Mercosul.”

    Os ganhos que o Brasil teria com o aumento do número de sócios, do ponto de vista econômico, seriam irrisórios, segundo o professor.

    “O Brasil não vai conseguir competir com o mercado que já é atendido por sócios mais fortes, em termos regionais. Além disso, o país ainda pode sofrer uma retaliação por parte das potências do Atlântico Norte.”

    Ou seja, não há uma vantagem clara ao Brasil a entrada de outros países no bloco e de se afastar dos meios de pagamentos ligados ao dólar ou às economias ocidentais, que são seus principais parceiros.

    “Mesmo a China não vai se afastar completamente do dólar porque ela depende dos títulos americanos para conseguir fazer uma neutralização do seu excesso de exportações. Ela tem que comprar títulos americanos”.