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    Caso Americanas pode causar recessão e justifica corte na taxa de juros, diz Volpon

    Para ex-diretor do BC, há sinais de que impactos do calote bilionário da varejista podem se espraiar pela economia, o que abriria espaço para queda dos juros já nos próximos meses

    Juliana Eliasda CNN

    em São Paulo

    Na visão do ex-diretor do Banco Central Tony Volpon, a quebra da Americanas pode ter um efeito muito mais espraiado pela economia do que o inicialmente imaginado, inclusive com o risco de empurrar o país, já em desaceleração, para uma recessão.

    Isso estaria começando a acontecer por meio de uma paralisia no mercado de crédito, com os bancos mais receosos em fazer empréstimos depois do calote bilionário da varejista.

    De acordo com Volpon, esse potencial de piora da economia seria motivo suficiente para que o Banco Central adiantasse a agenda de redução dos juros, podendo até mesmo realizar cortes na taxa Selic já em suas próximas reuniões.

    “O evento Americanas me parece, hoje, não ser somente algo delimitado a uma empresa, a Americanas, ou a um setor, o varejo, ou a um setor do mercado financeiro, o de crédito privado”, disse ele à CNN.

    “Pelas ramificações e efeitos que teve, acho que virou um fator macroeconômico sistêmico”, acrescenta.

    Volpon foi diretor de Assuntos Internacionais e de Gestão de Riscos Corporativos do BC entre 2015 e 2016, durante o governo de Dilma Rousseff.

    Ele compara o “choque” da Americanas como o de outros que serviram como estopim para grandes recessões, caso da quebra do banco Lehman Brothers em 2008 e do derretimento da Nasdaq às vésperas do estouro da bolha da internet em 2000.

    “A Americanas pode ser exatamente esse tipo de evento, o ponto de virada que pode piorar uma economia que já vem desacelerando, contaminar outros setores e levar a um processo recessivo”, disse.

    Ele afirma que, apesar das críticas feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Banco Central estava certo em manter os juros altos até aqui, tendo em vista a persistência da inflação e a distância que ela ainda está da meta que deve ser cumprida pelo BC – mesmo Volpon sendo um dos vários economistas que já relativizam a possibilidade de aumentar as metas atuais.

    A posição do Banco Central hoje é bastante restritiva, com razão, e, em um cenário normal, se me perguntassem se ele tem que cortar os juros já nas próximas reuniões eu diria que não. Mas temos um fato novo no cenário.

    Tony Volpon, ex-diretor do Banco Central

     

    Crise sistêmica de crédito

    A Americanas pediu recuperação judicial em janeiro, poucos dias depois de vir a público anunciar a descoberta de uma série de erros contábeis lançados por anos em seus balanços.

    O resultado foi uma dívida calculada, depois, em R$ 43 bilhões, a quarta maior já levada a recuperação judicial no país e que deixou cerca de 8 mil credores sem saber quando receberão seus pagamentos – em especial alguns dos principais bancos do país, donos da maior fatia da dívida bilionária agora em renegociação.

    De acordo com Volpon, que tem mais de três décadas de experiência no mercado financeiro dentro e fora do Brasil, há sinais de que o calote da Americanas pode ter prejudicado em grande escala não só o mercado de capitais, com maior reticência dos investidores em aportar dinheiro nas empresas, como também o mercado de crédito como um todo, com os bancos mais resistentes em fazer novos empréstimos.

    “Do que tenho conversado com pessoas do setor, os bancos parecem estar tendo uma restrição muito grande na concessão de novos créditos principalmente para as empresas, mas isso acaba afetando tudo”, diz.

    Bancos gigantes represando financiamento de maneira generalizada funcionariam como uma espécie de vetor adicional de piora sobre o mercado de crédito, além de uma taxa Selic já bastante restritiva. Com isso, potencializariam os efeitos dos juros altos no esfriamento do crédito, da demanda e, por fim, da inflação.

    “Se, de fato, o evento Americanas tem essas ramificações sistêmicas, a perspectiva de queda da inflação futura aumenta, porque há uma possibilidade de desaceleração mais forte da atividade”, explica Volpon. “É, portanto, o argumento para acelerar o início do processo de corte de juros.”

    A depender do tamanho do problema, os primeiros cortes poderiam acontecer já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, em 21 e 22 de março, de acordo com ele.

    Em outro cenário, menos brusco e mais provável em sua visão, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, e seu time de diretores que compõe o Copom, poderiam repetir a estratégia de mudança gradual da política monetária que adotaram ao longo da pandemia, incluindo primeiro novos alertas em seus comunicados para, depois, dar início às calibragens na Selic.

    Neste caso, os cortes da taxa básica de juros poderiam começar em maio ou junho.

    Atualmente, a Selic está em 13,75%, o maior nível desde 2016, e o amplo consenso no mercado é de que ela só deve começar a cair no final do ano ou mesmo apenas em 2024, dado a persistência da inflação e as pressões sobre expectativas de preços e juros futuros causada pela política fiscal do governo Lula, mais expansionista e ainda pouco detalhada.

    Avaliação cabe ao BC

    Volpon reforça, entretanto, que é o Banco Central a melhor entidade para fazer esse tipo de análise, em relação ao tamanho do impacto do caso Americanas sobre o mercado, e chegar às decisões mais corretas, já que ele é o regulador e o dono das bases oficiais de dados do mundo monetário, financeiro e de crédito do país.

    “Ninguém tem mais acesso a pessoas e informações para julgar a possibilidade disso ser uma crise sistêmica do que o próprio BC”, diz o ex-diretor da autarquia. “É um julgamento que ele tem que fazer para ver como proceder a partir disso.”