BRB comprou carteiras do Master por "camaradagem", diz decisão judicial
Investigação aponta que instituições financeiras que sinalizam a existência de possível engenharia contábil e financeira para viabilizar a captação de recursos

A linha de investigação da PF (Polícia Federal) e do MPF (Ministério Público Federal) trabalha com a hipótese de que o BRB (Banco de Brasília) adquiriu carteiras de crédito do Banco Master para evitar a sua liquidez, em desacordo com a formalidade do instrumento contratual firmado. A atuação das instituições teria causado prejuízos ao Sistema Financeiro Nacional.
Em decisão da Justiça Federal obtida pela CNN, o juiz Ricardo Leite cita a hipótese de que, para salvar o Banco Master de uma "crise de liquidez" o BRB teria adotado “procedimentos escusos” e atuado com “pura camaradagem”. A informação consta na decisão que determinou a prisão preventiva dos investigados.
"A substituição entre os créditos BRB-Master ocorreu por pura camaradagem, em desacordo com a formalidade do instrumento contratual firmado, mas como tentativa de abafar a fiscalização das operações e preocupações dela decorrentes", diz a decisão.
Segundo a investigação, os dirigentes do BRB tinham consciência da existência de um esquema fraudulento engendrado pelos gestores do Banco Master, cuja atuação teria ocasionado prejuízos à solidez do Sistema Financeiro Nacional.
O MPF alega que o Banco Master teria adquirido carteiras de crédito da empresa Tirreno sem realizar qualquer pagamento, por ausência de comprovação da existência dos créditos adquiridos, e, logo em seguida, revendeu esses mesmos créditos ao BRB. A operação envolvendo o banco estatal registrou com pagamento imediato, resultando na transferência, de janeiro a maio de 2025, de R$ 12,2 bilhões.
De acordo com o MPF, a venda da carteira de crédito do Master ao BRB ocorreu sem documentação e em violação às normas regulatórias, para evitar a quebra do banco privado antes da conclusão da análise pelo Banco Central.
Diante disso, em março, o BC (Banco Central) indagou as instituições envolvidas acerca das origens dos títulos de crédito cedidos ao BRB. A área técnica da autoridade monetária identificou que todas as operações teriam sido originadas pela Sociedade de Crédito Direto Cartos.
"Outra hipótese investigativa levantada pela Polícia Federal é a de que a TIRRENO serviu como blindagem para atuação criminosa da Sociedade de Crédito Direto CARTOS, a verdadeira originadora dos créditos cedidos ao Banco Master para alcançar os recursos do BRB", diz.
O BRB respondeu ao BC, em junho, que a Tirreno era originadora dos créditos. No documento, o banco estatal elencou uma série de medidas de prudência e governança destinadas à análise da qualidade de créditos adquiridos pelo banco e conclui a informação citando a substituição dos créditos e o desfazimento do negócio com a Tirreno, em virtude da reprovação das carteiras por ela originadas.
"Entretanto, apenas depois de transferidos os R$ 12,2 bilhões, o BRB concluiu pelo desfazimento do negócio. Mesmo após ter ciência de que as operações estavam sendo monitoradas pelo Banco Central, о BRB continuou realizando repasses bilionários ao Banco MASTER em virtude de CCBs [Cédula de Crédito Bancário] originadas por terceiros", diz.
Na avaliação dos investigadores, é "atípico" o fato de que o BRB passou a exigir documentos adicionais da operação somente após a provocação do Banco Central sobre as informações, tendo em vista o montante da operação.
Além disso, a investigação mostra que, mesmo após a negativa de compra pelo BC, o BRB continuou comprando carteiras de crédito do Banco Master.
Entre julho de 2024 e outubro de 2025, o BRB transferiu ao grupo Master cerca de R$ 16,7 bilhões. Desse total, R$ 12,2 bilhões foram transferidos em operações com indícios de fraude.
A investigação mostrou que as instituições financeiras realizaram uma engenharia contábil e financeira para viabilizar a captação de recursos. Durante a aquisição de carteiras do Master, o BRB realizou registros contábeis sem respaldo documental para não se desenquadrar das regras do setor financeiro.
"A vontade inicial do BRB sempre foi de emprestar dinheiro ao Banco Master, mas não pôde fazê-lo diretamente em virtude de limitações de exposição", diz a decisão obtida pela CNN.
Em nota divulgada após a operação, o BRB informou que sempre atuou em conformidade com as normas de compliance e transparência, prestando regularmente informações ao Ministério Público Federal e ao Banco Central do Brasil sobre todas as operações relacionadas ao Banco Master.
O Banco Central afirmou na quarta-feira (19) que a liquidação extrajudicial das instituições do conglomerado Master não representa risco para a estabilidade do Sistema Financeiro Nacional.
Em nota, a Cartos informou que não tem qualquer envolvimento com os fatos investigados na Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal. A empresa disse que não originou, estruturou, comercializou, intermediou ou cedeu quaisquer créditos ou títulos relacionados ao caso.
"As tentativas de associar a empresa à cadeia de créditos analisada pela PF e pelo Ministério Público Federal são incorretas e desprovidas de fundamento", diz.
Leia a íntegra da nota da Cartos:
"A Cartos esclarece que não tem qualquer envolvimento com os fatos investigados na Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal. As tentativas de associar a empresa à cadeia de créditos analisada pela PF e pelo Ministério Público Federal são incorretas e desprovidas de fundamento."
A Cartos não originou, estruturou, comercializou, intermediou ou cedeu quaisquer créditos ou títulos relacionados ao caso. As carteiras investigadas foram exclusivamente originadas pela empresa Tirreno, com a qual a Cartos não mantém e nunca manteve qualquer relação contratual, comercial ou operacional. A empresa também nunca integrou, participou ou foi cotista de fundos mencionados nas investigações, tampouco teve participação em qualquer etapa operacional das operações analisadas."
Da mesma forma, jamais houve qualquer operação entre a Cartos e o Banco Master — inexistem cessões, aquisições, vendas de ativos, créditos ou títulos entre as partes.
Sobre André Felipe de Oliveira Seixas Maia e Henrique Souza e Silva Peretto, a Cartos informa que, apesar deles estarem no quadro societário da Cartos, as relações comerciais e negócios realizados por eles pela empresa Tirreno ou de forma pessoal (pessoa física) não são de responsabilidade da Cartos."
A Cartos permanece à disposição para prestar todos os esclarecimentos necessários às autoridades e à sociedade."


