Consumo de café no Brasil cai quase 3% em 2025, diz indústria
Isadora Camargo, da CNN Brasil, São Paulo

Nos últimos dois anos, brasileiros assistiram a uma alta significativa nos preços do café, que dobraram nos supermercados. O efeito foi uma queda no consumo do produto, de 2,31% em 2025, em relação a 2024. O percentual se traduz em 21,41 milhões de sacas de 60 kg tomadas pelos brasileiros no ano passado, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC).
O volume consumido no mercado doméstico correspondeu a 37,9% da safra brasileira de 2025, estimada em 56,54 milhões de sacas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O percentual é inferior ao registrado em anos anteriores — 40,4% em 2024 e 39,4% em 2023 — e indica uma desaceleração no ritmo de consumo.
Mesmo com o decréscimo, o Brasil segue na posição de segundo maior consumidor de café do mundo. A diferença para o primeiro lugar, ocupado pelos Estados Unidos, é de, aproximadamente, 5 milhões de sacas, como destacou a ABIC nesta quinta-feira (29/1), durante evento em São Paulo.
"Há manutenção do hábito: o café está presente em 98% dos lares brasileiros", destaca a entidade.
Para 2026, a expectativa da Abic é reverter o cenário e recuperar o consumo, especialmente porque o mercado do café espera uma safra maior que a do ano passado (ciclo 2025/26) - que, neste momento, está sendo comercializada.
O clima mais estável entre novembro de 2025 e janeiro deste ano poderá favorecer os resultados no volume de produção, que começarão a ser apurados entre abril e maio, e equilibrar os preços, aposta a Associação.
Cafezinho de cada dia
O brasileiro tomou 4,82 kg de café torrado e moído entre novembro de 2024 a outubro de 2025, patamar positivo quando se monitora o apetite individual pela bebida, frisa o diretor executivo da Abic, Celírio Inácio da Silva. Ele reforçou que o mercado brasileiro segue resiliente às oscilações de preço nos supermercados, pois a população não dispensa a bebida.
A queda no consumo per capita está relacionada, em parte, ao crescimento da base populacional medida pelo IBGE, indica a Abic. Ainda assim, a expectativa uma safra mais favorável e de condições climáticas estáveis pode contribuir para um mercado "mais equilibrado e com menor volatilidade de preços ao consumidor", acrescentou Silva.
Faturamento da indústria
Apesar da redução no volume, o faturamento da indústria de café torrado cresceu de forma expressiva em 2025. O setor movimentou R$ 46,24 bilhões, alta de 25,6% em relação ao ano anterior, impulsionada pelo aumento dos preços no varejo
No mercado externo, o Brasil embarcou 58,5 mil sacas e cresceu 19,29% no volume exportado. O faturamento acompanhou: saltou de R$ 130,3 milhões para R$ 200 milhões, com variação positiva de quase 50%.
“Baixos estoques, produção insuficiente contribuiu para um maior valor do café cru, que refletiu diretamente no café torrado e no café torrado e moído”, enfatizou Inácio.
Os preços médios apresentaram comportamentos distintos entre as categorias. Cafés especiais tiveram alta de 4,3% ao longo de 2025, enquanto os gourmets subiram 20,1%. Já os cafés tradicionais e extrafortes avançaram 5,8%. As cápsulas, por sua vez, tiveram recuo de 16,8% nos preços médios.
No horizonte de médio prazo, a Associação destacou que, embora os custos da matéria-prima tenham mais que triplicado nos últimos cinco anos — altas de 201% no conilon e 212% no arábica —, o repasse ao consumidor foi proporcionalmente menor, com aumento acumulado de 116% no varejo. Em 2025, a alta foi de 5,8%, abaixo do registrado em 2024, quando os preços subiram 37,4%.
Os preços do café vão cair em 2026?
Os valores do produto na gôndola não devem diminuir muito, mas o ano será de menor volatilidade na oferta do grão, o que deve estabilizar o repasse de preços para o consumidor. É o que responde o presidente da Abic, Pavel Cardoso, ao CNN Agro, que também não descarta pequenas oscilações ao longo deste ano.
“A safra de 2026/2027 deve ser maior e propiciar um arrefecimento na volatilidade da oferta do grão para a indústria e para o mercado externo, ao passo que pode respingar em alguma queda de preço, mas nada expressivo, pois os estoques globais estão bastante baixos e ainda pressionam o mercado cafeeiro”, explica à reportagem.
Cardoso lembra que, desde 2021, a indústria vive um “descasamento” entre a oferta e a demanda pelo grão. Há cinco anos, houve geada que prejudicou a produção no Brasil e outros sucessivos problemas climáticos, acrescenta, “frustrando o tamanho das safras”.


