Com caixa, unicórnio Hotmart quer ampliar serviços e abrir escritório na Ásia

Plataforma agregadora de cursos e outros produtos digitais fundada em Belo Horizonte cresceu 160% em 2020

Matheus Prado,
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A Hotmart, plataforma agregadora de cursos e outros produtos digitais, fundada em Belo Horizonte, está com os bolsos cheios. Recebeu, no final de março deste ano, um aporte de R$ 735 milhões (US$ 130 milhões) liderado pelo fundo americano TCV, que também investe em companhias como Netflix e Airbnb.

Status de unicórnio à parte, que a empresa diz ter desde 2020, esse dinheiro será utilizado para investimentos em escala, produtos (sejam eles criados em casa ou comprados) e o desenvolvimento geográfico da marca, que tem sede em Amsterdã e escritórios espalhados por Brasil, México, Colômbia, Espanha, Holanda, Estados Unidos, França e Reino Unido. 

"Temos produtores de conteúdo em mais de 100 países e compradores em quase 200. Então, quando abrimos um escritório em algum local, é com o objetivo de ajudar a construir uma comunidade, entender as dores do usuário", diz João Pedro Resende, CEO da Hotmart, em entrevista ao CNN Brasil Business.

"Aproveitamos mercados que estão crescendo organicamente, como é o caso do Japão nesse momento, e avaliamos a viabilidade. Devemos, então, num futuro próximo, abrir um escritório por lá, para atender o público asiático." Ele explica que, nesses casos, algum funcionário da empresa faz dupla com algum talento local para comandar a nova empreitada. 

 

Evolução do negócio

O movimento ocorre no ano em que a empresa completa uma década de existência. Inclusive, a utilização da internet para o consumo de conteúdos educativos mudou totalmente de lá para cá. No início, produtores conseguiam apenas transmitir planilhas, arquivos de texto e apresentações de slides.

Hoje, 26 milhões de clientes e mais de US$ 1 bilhão transacionados depois, o panorama é outro. Há vídeos, podcasts, ebooks e outros produtos disponíveis ali, seja de pequenos criadores autônomos, tocando a "economia da paixão", ou de grandes empresas que oferecem cursos digitais.

Bom desempenho na pandemia

Até o desafiador ano de 2020, que castigou boa parte das atividades produtivas, foi positivo para a empresa, a exemplo dos seus pares de tecnologia. Resende afirma que a companhia cresceu 160% no período.

"Nós não tínhamos certeza de como a crise ia reverberar. Esperava que as empresas com presença digital fossem mais resilientes, mas não contava que teríamos um boom durante a pandemia. O período foi bom, mas também demonstrou gargalos nos nossos processos. Precisamos refazer algumas coisas, contratar mais gente", diz.

A procura reverberou até em setores considerados essencialmente presenciais. O executivo dá o exemplo de restaurantes, que inovaram criando conteúdos que ensinavam a preparar suas receitas de sucesso e enviando os ingredientes para que os consumidores pudessem replicar os preparos de casa.

Outro mecanismo, o de afiliação, permitiu que usuários da plataforma complementassem sua renda no momento de aperto. Na modalidade, pessoas recomendam produtos disponíveis no site e ganham comissões de até 80% em relação ao valor do produto.   

Novos produtos

Ao longo dos anos, a marca também foi desenvolvendo novas soluções para "prender", no bom sentido da palavra, o seu público. Exemplo disso é o Hotmart Sparkle, um app de comunidades pagas entre criadores, que levam conteúdos exclusivos para a plataforma, e seus alunos, que ganham um contato mais próximo com eles.

(Sim, trata-se da mesma lógica dos grupos pagos no Telegram ou no Whatsapp, ou até as listas de melhores amigos do Instagram, que também são utilizadas para veiculação de conteúdos exclusivos.)

Agora, Resende afirma que o objetivo é entrar de cabeça e desenvolver soluções para incorporar eventos online e transmissões ao vivo à plataforma. "É claro que tem coisas de experiência e sensoriais que precisam ser ao vivo, mas temos certeza que, de maneira geral, os eventos online vieram para ficar", diz. 

Pagamentos e carteira digital

Ainda no desenvolvimento de produtos, e algo praticamente inerente a qualquer startup nos dias de hoje, a marca também vem reforçando seus produtos de pagamentos. O Hot Pay, lançado em 2015, é uma carteira digital que, além de permitir a comercialização dos produtos presentes na plataforma, permite a movimentação interna desse dinheiro.

Isso é ótimo para a empresa, claro, já que suas receitas vêm de comissões de 10% na venda de produtos. "270 mil pessoas já usaram seu saldo da wallet para comprar outros produtos. Só em março, esse número chegou a R$ 7 milhões. Tende a ganhar importância porque tem uma vida própria", diz.

Questionado pela reportagem se a empresa pensa em oferecer serviços de crédito no futuro, o que parece um caminho natural, Resende afirmou que "a companhia tem pensado bastante na possibilidade".

Futuro

Comentando o aporte anunciado em março, o gestor diz que a empresa possui crescimento sustentável e, quando vem a mercado, "é para crescer". Além de todas as verticais citadas acima, é possível que a companhia também busque aquisições para complementar os serviços prestados.

"Não achamos que teremos sempre as melhores ideias e também não buscamos setores específicos. Queremos boas oportunidades", diz sem revelar muito. Só em 2020, a Hotmart  comprou Wollo, Klickpages e Teachable. Em 2021, já investiu na startup SkillHub, voltada para educação corporativa.

Sobre a possibilidade de realizar um IPO, ele diz que é uma de várias possibilidades que a empresa tem, já que vem conseguindo crescer com sua operação privada. "Considero que temos essa atratividade e consideramos uma opção para o futuro", diz.

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