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    Com fim de política de contenção, argentinos reclamam de falta de produtos e alta de preços

    Reposição das gôndolas traz aumentos bem acima dos que o argentino acabou se habituando; consumidor cria estratégias para controlar o orçamento

    Dimalice Nunescolaboração para a CNN

    Buenos Aires

    O portenho é um povo noturno, isso muita gente sabe. E esse hábito se reflete na hora das compras: o pico das filas nos grandes supermercados acontece depois das 20h. E elas são comuns, porque outro hábito fácil de se notar em Buenos Aires é que são compras pequenas, quase diárias. Nada da “compra do mês” brasileira, herança dos tempos da hiperinflação.

    Esse foi o horário que a reportagem escolheu para fazer compras num hipermercado da região de Palermo, bairro de classe média alta da capital argentina, na quarta-feira (13). As filas estavam lá, mas com alguns carrinhos mais recheados que de costume.

    Cerca de 24 horas antes, o ministro da Economia, Luiz Caputo, anunciava o primeiro pacote de medidas do governo de Javier Milei. Além de fixar o câmbio oficial em 800 pesos por US$ 1 e eliminar os subsídios ao transporte e à energia elétrica, acabou a política “precios justos”, o programa de acordo de preços que a gestão do ex-presidente Alberto Fernández fazia com fornecedores e varejistas para minimizar os efeitos da inflação.

    A última negociação, feita pelo ex-ministro da Economia Sergio Massa, previa alta de até 12% em novembro e mais 8% em dezembro para uma lista de produtos que inclui alimentos, medicamentos e itens de higiene e limpeza. Com preços liberados, o varejo espera repasses de 30% a 100% a medida em que os estoques das lojas forem repostos.

    “Os preços sobem muito há muito tempo e estão subindo ainda mais agora, está uma loucura. Estou fazendo compras maiores, aproveitando as promoções para estocar”, afirma Mariana Perez, funcionária pública em Buenos Aires.

    Mas a ideia de estocar não é estratégia unânime. Depende, claro, de tempo disponível para buscar os melhores preços e dinheiro no bolso.

    A dona de casa Mônica Aparicia trocou as compras quinzenais por idas mais frequentes ao mercado. Deixou a fidelidade a uma determinada rede de lado e passou a ir a lojas diversas a cada dois dias.

    “Eu sinto que os preços subiram mais nos últimos dias e algumas marcas estão mais difíceis de encontrar”, conta, comemorando um achado: “O leite que estou levando está 600 pesos cada. Paguei 1700 na segunda-feira em outro mercado”.

    Mônica conta ainda que tem restrição alimentar e consome alimentos sem glúten, que se tornaram mais difíceis de achar nos últimos dias, segundo ela.

    Um carrinho mais magro é o reflexo do aumento de preços nas compras de Daniel Condori, profissional da área de gastronomia que fazia compras com a esposa e duas filhas.

    Para ele, o orçamento apertado impôs restrições na quantidade de itens e o valor da fatura no caixa o impede de estocar. “É contrário, não tem como estocar. A gente vem e compra o que precisa. Não compro mais porque está muito caro”, afirma.

    O hipermercado visitado pela reportagem na noite da quarta estava com as prateleiras cheias, sem sinal de falta de produtos. As placas de “precios justos” foram substituídas por uma sinalização ostensiva de onde encontrar o menor preço de cada item, geralmente o da marca própria da rede.

    Desabastecimento

    O cenário era diferente em um supermercado de médio porte de uma grande varejista, visitado no início da tarde da quarta-feira. As placas de preços justos ainda estavam lá, mas muitos itens haviam desaparecido e havia limite de unidades para a compra de alguns itens, como o óleo de cozinha – que tem previsão de aumento de 130% com a liberação dos preços.

    Os preços seguiam os mesmos da semana passada, mas algumas gôndolas vazias mostravam que os estoques ainda não haviam sido repostos. Faltavam, principalmente, alimentos básicos não-perecíveis, como arroz, óleo e as marcas mais em conta de refrigerantes, além de itens de higiene e limpeza.

    Era muito comum ver itens sem preço ou com os preços escondidos, aguardando remarcação. Funcionários trabalhavam na reposição de alguns itens, mas não na troca de etiquetas.

    À imprensa argentina, representantes de varejistas e fornecedores têm afirmado nos últimos dias que o salto de preços será sentido conforme os estoques das lojas se esgotarem e forem repostos com os preços liberados.

    Por isso, os consumidores das grandes redes ainda não sentem totalmente o repasse de preços. No comércio local a situação é diferente.

    Um açougue de bairro mantinha há duas semanas a placa “suprema de pollo – Kg – $ 4000”. O preço foi apagado da placa na terça-feira. Os filés de frango continuam disponíveis, mas por 4000 pesos o quilo, só levando dois quilos. É uma maneira do comerciante pequeno manter as vendas sem assustar a freguesia.

    O canal de TV argentino C5 fez diversas entradas ao vivo ao longo da quarta-feira no Mercado Central, espécie de Ceagesp, na região metropolitana de Buenos Aires. Lá era possível ver consumidores comuns comprando mais que o habitual para garantir os preços onde estão.

    À TV, um comerciante declarou: “está tudo maduro, tenho que vender pelo preço que está”, mas ele espera que seu fornecedor reajuste os preços em cerca de 50% em seu próximo reabastecimento, nesta quinta-feira. O aumento será integralmente passado para os seus clientes.

    Outro comerciante, de carnes, disse que pagou 12% a mais em seus produtos nesta semana, mas ainda não repassou para os clientes, o que precisará acontecer em breve. Sobre o comportamento de consumo, ele afirma que quem pode está comprando a mais, especialmente por conta das festas de fim de ano.

    O que esperar

    Após o anúncio das medidas econômicas, o JP Morgan anunciou sua previsão para a inflação argentina: 60% entre dezembro e janeiro, seguida de uma desaceleração a partir do segundo trimestre de 2024.

    De acordo com o último dado do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), divulgado na quarta (13), a inflação argentina chegou a 160,9% nos 12 meses até novembro.

    No mês passado, o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) subiu para 12,8%, após desacelerar para 8,3% em outubro. No ano, o índice acumular alta de 148,2%, o maior resultado anual desde a hiperinflação de 1990, quando terminou o ano acima dos 1.300%.