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    De demissões aos investimentos: os impactos da crise da Americanas na economia

    Varejista divulgou dívida de R$ 41,2 bilhões com 7.720 credores oficiais, entre bancos e fornecedores

    Além dos cortes, milhares de fornecedores podem ficar sem receber e investidores devem ter prejuízos
    Além dos cortes, milhares de fornecedores podem ficar sem receber e investidores devem ter prejuízos Divulgação

    Diego Mendesda CNN

    São Paulo

    A Americanas é uma das maiores – e mais antigas – varejistas do país. Desde seu comunicado ao mercado em 11 de janeiro sobre “inconsistências contábeis” de R$ 20 bilhões, são muitos os desdobramentos envolvendo a empresa, incluindo um pedido de recuperação judicial.

    Após a Justiça acatar o pedido de recuperação judicial da Americanas na última quinta-feira (19), a CNN ouviu economistas que avaliaram os impactos que este processo pode acarretar, seja no mercado financeiro ou na economia, já que se trata de uma empresa que faturou R$ 5,4 bilhões em 2022, com mais de 40 mil funcionários – que pode chegar a 100 mil empregos se considerarmos os indiretos -, com milhares lojas espalhadas pelo país, um dos maiores marketplaces online e registro de 50 milhões de consumidores.

    A varejista divulgou, na manhã de quarta-feira (25), a lista com os 7.720 credores oficiais, conforme solicitado pela Justiça do Rio de Janeiro ao aceitar o pedido de recuperação. O número é bem abaixo dos 16 mil que a própria companhia estimava. Ao todo, a dívida da empresa é de R$ 41,2 bilhões.

    Do montante total que a Americanas deve, R$ 64,8 milhões são referentes referente à classe trabalhista, enquanto R$ 41 milhões à classe quirografários e R$ 109,4 milhões à classe de microempresas e empresas de pequeno porte.

    Ao acatar o pedido de recuperação judicial, o juiz Paulo Assed Estefan alegou que tratava-se “de uma das maiores e mais relevantes recuperações judiciais ajuizadas até o momento no país, não só por conta do seu passivo, mas por toda a repercussão de mercado que a situação de crise das requerentes vem provocando e, por todo o aspecto social envolvido, dado o vultoso número de credores, de empregados diretos e indiretos dependentes da atividade empresarial ora tutelada, bem como o relevante volume de riqueza e tributos gerados.”

    Segundo o juiz, a eventual quebra do Grupo Americanas pode acarretar o “colapso da cadeia de produção do Brasil, com prejuízos em relevantes setores econômicos, afetando mais de 50 milhões de consumidores, colocando em risco dezenas de milhares de empregos”.

    Em seu pedido à Justiça, a Americanas também destacou que paga, anualmente, cerca de R$ 2 bilhões em impostos e tem 150 mil acionistas.

    Diante desse cenário, Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, destaca os postos de empregos que podem ser fechados. “O histórico das empresas que entraram em recuperação judicial é que, para conter os gastos e pagar as dívidas, tiveram que cortar quadro de trabalhadores e demitir estagiários que estavam começando a trabalhar. “Mas, tudo vai depender se a recuperação judicial evitará falência de fato”, diz.

    Na opinião de Imaizumi, a empresa terá que fazer cortes de custos e muito, provavelmente, será via demissão de funcionários. “Os desligamentos podem ser de todos os tipos, desde os auxiliares e vendedores de lojas físicas, até cargos mais técnicos como analistas, gerentes e diretores”.

    O sócio da Matriz Capital, Elcio Cardozo, acrescenta que, além das demissões, milhares de fornecedores podem ficar sem receber e investidores terão prejuízos, o que pode se desdobrar em mais demissões indiretas.

    Entre os fornecedores, fraldas, xampu, chocolate e balas de goma no formato de dentadura que custam alguns reais somam uma dívida milionária da empresa. Entre as grandes marcas, uma das dívidas que mais chama atenção é com a sul-coreana Samsung, que tem a receber R$ 1,2 bilhão da Americanas. O risco de calote da Americanas afeta até a empresa com o maior valor de mercado do mundo, a Apple.

    Imaizume alerta ainda que, se os credores pedirem antecipação de pagamentos de dívidas, juros, etc, o processo de demissão pode começar em um curto prazo. “Imagino que áreas menos essenciais da empresa serão as primeiras a sofrer cortes. Os setores de redes sociais, marketing, enfim, historicamente, são os primeiros a ficar sem verba”, pontua.

    Os especialistas lembram, ainda, que a rede pode reduzir o número de pontos físicos, e assim, mais uma vez com reflexos indiretos para locadores e funcionários.

    Investimentos

    Embora a solicitação feita pelas Americanas já fosse esperada, Cardozo disse que parte do mercado ainda esperava alguma intervenção do grupo de acionistas de referência da empresa, a 3G Capital — formado por Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira — para evitar este movimento.

    De acordo com Cardozo, esta situação impacta bastante não apenas o mercado financeiro, mas a economia do país como um todo. “Apenas como exemplo, as ações da Ambev, também do grupo, chegaram a cair 8% desde quinta-feira passada, apesar de já ter recuperado boa parte da queda”, considera.

    A Ambev, aliás, está na lista de credores da varejista, com saldo de mais de R$ 4 milhões.

    Outras empresas do setor podem se beneficiar deste movimento. Cardozo destaca que muitos investidores que querem se expor a empresas de varejo deverão rotacionar o setor, saindo das Lojas Americanas e comprando ações de outras empresas.

    “Por outro lado, esta situação gera insegurança para muitos investidores. Historicamente, o setor varejista já passou por outras falências e, sem dúvidas, isso gera temor para quem quer investir”, ressalta o economista.

    Fundos

    Na visão de Ricardo Brasil, fundador da Gava Investimentos e especialista em análise financeira, quando papel deixa de fazer parte do índice, há vários fundos, no mundo inteiro, que replicam o índice Ibovespa. Então, se esse fundo tinha Americanas, quando deixa de fazer parte, esse fundo tem que vender. Mas, “com vários fundos vendendo, temos uma pressão vendedora que faz o papel cair.”

    “Temos fundos que precisam cumprir regras. Pode ter fundo, principalmente no exterior, em que gestor só pode aplicar em empresas que tenham rating x. Então, Americanas perdendo rating, esse fundo também teria que se desfazer dos papéis e também não comprar ações”, explica o porta-voz da Gava Investimentos.

    Da mesma forma que há regra para rating, também há regras em fundos. Brasil cita que há fundos que, em regra, só aplicam em ações que fazem parte do índice Ibovespa. “Então, começamos a ter diversas restrições de fundos, de gestão. Vários fundos que replicam índices vão precisar vender posições. Dependendo das regras dos fundos, talvez seja vetado acoplar ações da Americanas”.

    Porém, Brasil aponta que a consequência imediata seria a de liquidez, pois o valor negociado por dia tende a cair bastante. “Passando essa fase de crise em que muitos especuladores compram e vendem, vamos ter a empresa com volume bem menor por dia. Quando a ação vale pouco, qualquer centavo faz diferença. Isso não é saudável para o mercado”, conclui.

    Comissão de Valores Mobiliários

    Comissão de Valores Mobiliários (CVM) questionou empresas de capital aberto sobre o modo como elas têm lidado com as operações de “risco sacado”, após a descoberta do rombo bilionário da Americanas com este tipo de manobra. Foram consultadas 9 companhias do setor de varejo e atacado, conforme apurou a CNN.

    Em nota, a CVM disse que “sempre que necessário, realiza interações com os participantes do mercado de capitais a fim de solicitar informações importantes para trabalhos de análise e supervisão”.

    “Neste sentido, a Superintendência de Relações com Empresas (SEP) da CVM encaminhou consulta a companhias abertas a respeito do tema objeto de seu questionamento”, declarou a autarquia.

    “Risco sacado” ou “forfait” é o nome dado a uma prática em que o banco faz um empréstimo à empresa que realizou compras de fornecedores, com o objetivo de viabilizar a negociação. Com isso, a dívida da companhia passa a ser com a instituição financeira e não mais com o fornecedor. Segundo Roberto Kanter, economista e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a transação não é incomum entre redes varejistas.