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    Inflação de fevereiro limita espaço para corte antecipado de juros, dizem analistas

    Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,84% no mês de fevereiro, marcando uma aceleração em relação a janeiro, quando avançou 0,53%

    Análise acontece em meio a especulações de que a taxa Selic poderia recuar do atual patamar de 13,75% antes do previsto
    Análise acontece em meio a especulações de que a taxa Selic poderia recuar do atual patamar de 13,75% antes do previsto Pexels

    Tamara Nassifda CNN em São Paulo

    O resultado da inflação do mês de fevereiro, divulgada na manhã desta sexta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), limita espaços para cortes de juros antecipados pelo Banco Central (BC), disseram especialistas à CNN. 

    Segundo informou o IBGE, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial da inflação do país, registrou alta de 0,84% no mês de fevereiro, marcando uma aceleração em relação a janeiro, quando avançou 0,53%. O resultado ficou um pouco acima do esperado pelo mercado, de 0,8%, segundo pesquisa da Reuters.

    Em 12 meses, o índice acumula alta de 5,60%. Por essa ótica, o IPCA indica desaceleração, já que, no mês anterior, o avanço foi de 5,77%. Ainda assim, fica bem acima do centro da meta para 2023, de 3,25%, e do teto da meta, de 4,75%.

    A leitura é que os preços no país seguem pressionados e “persistentemente altos”, de modo que os juros altos — a ferramenta utilizada pelo BC para conter a inflação — ainda não surtiram todo o efeito previsto.

    A análise acontece enquanto crescem as apostas de que a taxa Selic pode recuar do atual patamar de 13,75% antes do previsto, ainda no meio do ano, diante de um melhor balanço de riscos, piora no mercado de crédito e pressões por agentes do mercado.

    “De um lado, vemos o IPCA ainda rondando níveis altos, dando sinais de que houve uma estagnação daquela melhora vista na segunda metade do ano passado. Do outro, vemos uma atividade econômica mais resfriada, contraída”, diz Danilo Passos, economista da WHG.

    “Com esse pano de fundo, o BC não tem muito espaço para cortar juros na metade do ano. Para isso acontecer, precisaríamos ver uma mudança relevante de cenário, com a inflação desacelerando rápido e a atividade retomando a curva para cima.”

    As expectativas em torno da inflação, porém, não apontam para uma desaceleração rápida, e, sim, gradual no acumulado de 12 meses.

    De acordo com André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre), a “inflação segue pressionando na ponta, principalmente puxada por serviços, mas a expectativa é de desaceleração ao longo do ano, já que a inflação registrada em 2022 foi muito alta”.

    Isso porque, segundo ele, a Selic em 13,75% tem surtido um “efeito delicado” até aqui, já que a taxa incide, principalmente, sobre o consumo dos brasileiros.

    “Olhando para bens duráveis, como carros e eletrodomésticos, já tem uma tendência de inversão mesmo, mas serviços segue lento e é o que precisamos ver. Os juros altos desestimulam o consumo desses setores e os efeitos ainda seguem tímidos”, afirma.

    Ele chama atenção, no entanto, para um ponto de destaque que contribui para a hipótese de redução de juros na metade do ano: o endividamento das famílias.

    Um levantamento da Serasa Experian aponta que o número de inadimplentes passou de 59,3 milhões, em janeiro de 2018, para 70,1 milhões, em janeiro de 2023 — recorde da série histórica. A interpretação é que o consumo das famílias, em especial de bens mais onerosos, será comprometido ao longo do ano, desaquecendo o setor varejista e industrial.

    Por conta disso, “pode ser que o BC decida diminuir na metade do ano, porque a inadimplência já está puxando uma inversão na curva de juros futuros”, diz Braz.

    Há ainda um outro ponto que deve ser levado em conta: o debate sobre o arcabouço fiscal.

    “Se for proposto e aprovado um arcabouço com credibilidade e que acolha as expectativas do mercado quanto à dívida pública, pode ser que haja uma melhora na avaliação do BC para o cenário como um todo. Pode ser que haja uma apreciação do câmbio, uma ancoragem maior das projeções para a inflação… Isso facilitaria bastante o caminho do BC para cortar os juros”, avaliou Danilo Passos.

    Em declaração na última quinta-feira (10), a ministra do Planejamento, Simone Tebet, disse que o substituto do teto de gastos deve agradar a todos, inclusive ao mercado.

    “É um arcabouço fiscal responsável, preocupado com a responsabilidade fiscal, com o déficit primário, com a estabilização da dívida/PIB, e atende a um pedido justo do presidente da República para ter recursos necessários para o Brasil voltar a crescer”, disse a ministra, após um almoço com o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, em que o novo arcabouço foi discutido.

    Haddad chegou a dizer que deseja apresentar o modelo antes da próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), que irá ocorrer nos dias 21 e 22 de março. A expectativa da equipe econômica é que o Comitê veja o novo arcabouço como uma segurança para começar o processo de queda da taxa básica de juros.

    Porém, Passos afirma que só o fiscal não é o suficiente para abaixar a Selic.

    “É uma condição necessária, mas não o suficiente para abaixar, por si só, a Selic. Precisa ser uma soma de fatores para que o BC antecipe um pouco o plano de voo e comece a cortar os juros antes do sinalizado nas atas”, diz Passos.

    Luciana Rabelo, economista do Itaú Unibanco, diz que a previsão do banco é que a Selic comece a cair nas duas últimas reuniões do ano, nos dias 31 de outubro e 1º de novembro e 12 e 13 de dezembro, terminando o ano em 12,5%.

    O Itaú ainda prevê que o IPCA de 2023 acelerá para 6,1% — muito acima, portanto, do centro da meta que baliza as decisões do BC, de 3,25%.