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    Inflação enfraquece, muda de perfil e alimenta expectativas por corte de juros

    Para economistas, índice de preços já começa a mostrar efeitos das altas dos juros e da desaceleração econômica, embora BC ainda precise de mais dados antes de revisar Selic

    IPCA em 12 meses caiu para 4,6% em março, menos valor em dois anos
    IPCA em 12 meses caiu para 4,6% em março, menos valor em dois anos REUTERS/Adriano Machado

    Juliana Eliasda CNN

    em São Paulo

    Os dados da inflação de março, divulgados nesta semana pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), injetaram uma dose de otimismo nas expectativas de economistas e investidores.

    A bolsa de valores engatou uma sequência de altas fortes, enquanto o dólar despencou para menos de R$ 5 pela primeira vez em dez meses.

    Por trás da euforia, está uma inflação que veio mais fraca que o esperado, teve uma forte desaceleração e também começa aos poucos a mudar de perfil, com quedas de preços mais espalhadas entre as centenas de itens que são consumidos pelos brasileiros e monitorados pelo IBGE para calcular a inflação oficial do país.

    Esses fatores, de acordo com economistas consultados pela CNN, podem ainda não ser o suficiente, por ora, para que o Banco Central mude já a sua postura em relação à Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira.

    Mas certamente deixam uma nova janela aberta para que o BC possa cortar os juros mais cedo do que o imaginado até aqui.

    “A composição melhor desmitificou um pouco a impressão de que a inflação estava muito rígida”, diz Andrea Angelo, economista-chefe, especialista em inflação, da corretora Warren Rena.

    “Claro que o BC tem que continuar cauteloso, não vai ser só pelo resultado de um mês que ele vai mexer na inflação como um todo. Mas há uma parte grande dos economistas esperando os primeiros cortes [da Selic] só no final do ano. Esses podem olhar para essa composição melhor da inflação agora e pensar – ‘talvez eu esteja errado, talvez os cortes possam acontecer antes disso’.”

    O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), indicador oficial de inflação do país, variou 0,7% em março e, em 12 meses, acumulou 4,6%.

    Foi uma redução forte ante o mês anterior, quando acumulava 5,6%, e o menor resultado desde janeiro de 2021, quando os choques de preços causados pela pandemia no mundo ainda começavam a mostrar seus efeitos.

    Foi também a primeira vez nesses dois anos que o IPCA voltou a ficar abaixo do teto da meta de inflação que deveria ser entregue pelo BC, que tem o limite máximo de tolerância de 4,75% em 2023.

    Expectativas para a inflação

    De acordo com Andrea, da Warren, o impacto dos resultados pode levar a uma onda de revisões nas projeções de mercado para os juros e para a inflação, o que é quase tão importante para a decisão de juros do BC quanto a inflação em si.

    “Depois de se certificar de que a inflação está desacelerando, o Banco Central olha também para as expectativas. Ele precisa olhar para as expectativas para a inflação de 2024 e ter certeza de que elas não vão continuar subindo”, explica a economista.

    Pelo Boletim Focus, relatório semanal do Banco Central que acompanha as projeções de mercado, tanto as estimativas para o IPCA quanto para a Selic vêm sendo revisadas para cima semana a semana desde o começo do ano, para 2023 e também para 2024.

    Com isso, vão se distanciando cada vez mais da meta que deveria ser atingida. É o que os manuais de economia chamam de “desancoragem das expectativas”.

    São essas expectativas que o BC olha e que, com o dado mais recente de inflação, podem, pelo menos, parar de subir por enquanto.

    Menos volatilidade e mais preços caindo

    Entre as mudanças que estão acontecendo com a inflação quando se coloca uma lupa sobre ela, está uma desaceleração mais espalhada dos preços.

    Enquanto, no ano passado, boa parte da queda vista no IPCA foi puxada basicamente pelas desonerações nos combustíveis feitas no governo, agora há um número maior de itens com preços em queda.

    A difusão, conta que mede quantos dos mais de 400 produtos e serviços que compõem o IPCA estão em alta, caiu de 65% em fevereiro para 60% em março, nas contas do Goldman Sachs.

    Há um ano, o IPCA estava em 11% e 76% dos itens que compõem sua cesta estavam com os preços subindo.

    Também a inflação dos serviços e dos bens industriais, como automóveis e eletrodomésticos, começaram a ceder com maior força, em uma resposta mais clara aos juros altos que perduram desde o ano passado.

    “Estamos vendo de forma mais clara a devolução de alguns choques inflacionários que foram importantes nos últimos anos e que agora estão em descompressão”, diz o economista-chefe do Banco Original, Marco Caruso, citando um alívio global sobre os preços das commodities, como o petróleo, e também normalização dos choques de oferta que aconteceram na indústria.

    Caruso pondera que o resultado de apenas um mês ainda não é suficiente para que o BC mude os rumos que já tem calculados para a Selic, além de, mesmo com os alívios recentes, a inflação ainda ter uma provável rota de alta pela frente. 

    “O IPCA pode seguir caindo para até 3,8%, mas depois volta a subir conforme os efeito das desonerações do ICMS saem da conta”, diz. As projeções dele e também de boa parte do mercado, captada pelo Focus, é de um IPCA de volta à casa dos 6% ao final deste ano.

    Por outro lado, ele avalia que, caso o cenário de desaceleração dos preços e da economia ganhe mais peso à frente, o BC pode acabar tendo que rever com mais urgência seu atual nível de juros.

    “Hoje ainda não acho que ele deva adiantar o corte de juros”, diz. “Mas é preciso ter em mente que, se o BC persistir por mais tempo em uma postura dura, em um segundo momento, quando começar a cortar os juros, vai ter que acelerar a queda”, afirmou.