80 anos de CLT: veja como foi a criação do principal marco trabalhista do país

Considerado o maior marco laboral do país, conjunto de normas foi criado em 1.º de maio de 1943 pelo então presidente Getúlio Vargas

Tamara Nassif, da CNN, em São Paulo
Marco trabalhista de 1943 consolidou regulamentações sobre a jornada de trabalho, descanso semanal remunerado e férias e organizações sindicais  • Rafael Neddermeyer
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A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), sancionada em 1.º de maio de 1943 pelo então presidente Getúlio Vargas, completa 80 anos nesta segunda-feira.

Considerado o maior marco laboral do país, o conjunto de normas foi a primeira legislação específica no Brasil voltada para a regulamentação de direitos e deveres de empregados e empregadores, unificando uma série de leis já vigentes na época com outras que robusteceram o sistema trabalhista.

"A CLT representou um movimento histórico importantíssimo para o Brasil na época. Quando foi criada, tínhamos uma população predominantemente agrária, e a CLT foi arrojada, porque olhava para o futuro da urbanização, o rompimento da política do 'café-com-leite', pavimentando o caminho para o Brasil ingressar no capitalismo de fato", afirma Paulo Renato Fernandes, professor de Direito da Fundação Getulio Vargas (FGV) no Rio de Janeiro.

O professor explica que, especialmente em São Paulo, ocorriam excessos e abusos, e, por consequência, inúmeras greves. E então, teria sido esse cenário que motivou Vargas, que tinha sido um representante de empresários no Sul, a reconhecer as questões sociais do país.

"O que era tratado como caso de polícia virou caso de legislação. Então, a CLT teve o papel de classificar as relações de trabalho e dar segurança jurídica, resolvendo questões sociais que reivindicavam melhores condições de trabalho", diz Fernandes.

A criação durante o Estado Novo, porém, não é apenas um detalhe no papel. Pesquisadores afirmam que Vargas "se inspirou" em regimes totalitários vigentes no mundo e trouxe ao Brasil, por exemplo, o modelo corporativista italiano, no período do fascismo, para a consolidação dos direitos dos sindicatos trabalhistas -- um dos principais marcos da CLT.

"Ela foi criada numa ditadura, mas é e precisa continuar sendo alterada em um regime democrático", avalia Fernandes. Nesse sentido, o marco trabalhista foi uma espécie de divisora de águas entre o Brasil do passado e o do futuro, "congregando leis esparsas em um código legislativo robusto", completa.

O Decreto 3.724 de 1919, por exemplo, já estava em vigor e regulava as obrigações dos contratantes em relação a acidentes no trabalho. Também já existia o Decreto 17.943-A de 1927, que proibia que menores de idade trabalhassem.

Ao mesmo tempo, o marco trabalhista de 1943 consolidou regulamentações sobre a jornada de trabalho, descanso semanal remunerado e férias e organizações sindicais. De lá para cá, a CLT sofreu mais de 500 alterações.

O artigo 373-A, por exemplo, foi incluído em 1999 para regular e tratar do trabalho das mulheres. Instituído via Lei 9.799, ele proibia a revista íntima em funcionárias e a exigência de atestado ou exame para comprovação de gravidez. Em abril de 2002, foi inserido um artigo para a extensão da licença-maternidade de 120 dias também para mães adotivas.

Em 2011, foi aprovada uma lei que regulamenta o trabalho a distância -- essencial para a continuidade da "vida normal" em meio aos anos mais críticos da pandemia. São apenas alguns exemplos que mostram como a legislação trabalhista foi adaptada aos novos tempos desde sua criação. Ainda assim, segundo Fernandes, ela parecia "estagnada no tempo" até 2017, quando a reforma trabalhista entrou no debate.

"Algumas coisas mudaram, mas o grosso ficou o mesmo. Esse descolamento da realidade gerou uma série de problemas, porque a lei já não correspondia mais à realidade. Era burocrática, cheia de ciladas, limitava os contratantes e toldava as necessidades do empregado", explica Paulo Renato Fernandes. Foi natural, então, que a reforma, sancionada pelo então presidente Michel Temer, aparecesse.

"Ela era esperada há muito tempo, porque o sistema anterior tinha uma conta que não fechava. A reforma trabalhista trouxe um sistema mais harmônico para que o mundo do trabalho entrasse no século XXI. Ela ainda não é o ideal, mas consagrou um passo importante em direção ao que precisamos", avalia o professor da FGV.

Segundo ele, a última reforma trabalhista foi o fato mais importante para o mundo do trabalho desde a criação da CLT. "Nenhuma outra foi tão importante."

A reforma nas leis trabalhistas -- que modificou quase 100 artigos da CLT -- trouxe um tripé para as relações de trabalho, segundo o especialista: negociação coletiva, boa-fé contratual e segurança jurídica.

Ela segue, porém, "constantemente desatualizada", segundo especialistas, à medida que a sociedade muda com rapidez, e a CLT não acompanha no mesmo compasso.

Há de se esperar agora, por exemplo, como a chamada "gig economy", que diz respeito a formas alternativas de emprego, como prestação de serviços por aplicativos ou o trabalho freelancer, pode afetar a legislação. Fica para os próximos capítulos.

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