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BC mantém tom duro e não abre fresta para corte de juros, dizem economistas

Economistas ouvidas pela CNN veem retomada do afrouxamento monetário em 2026 e destacam efeito da Selic no câmbio

João Nakamura, da CNN, São Paulo
Ilustração de ninho de falcão ao lado do prédio do BC
Para as economistas ouvidas pela CNN, o Banco Central do Brasil adotou nesta quarta-feira (17), em sua decisão sobre a Selic, uma postura "extremamente hawk"  • Ilustração gerada por IA
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No jargão da política monetária, é o comportamento de duas aves que classifica a postura adotada pelos bancos centrais. Quando tomam decisões mais duras sobre os juros, as autoridades são vistas como hawkish, como falcões. Quando mais brandos, os movimentos são tidos como dovish, como pombos.

Para as economistas ouvidas pela CNN, o Banco Central do Brasil adotou nesta quarta-feira (17), em sua decisão sobre a Selic, uma postura "extremamente hawk", não deixando "o espaço para uma guinada dovish no próximo encontro".

Ao longo dos 45 dias desde a última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), Andrea Damico, economista-chefe da Buysidebrazil, nota que houve "melhoras em vários pontos" que o colegiado acompanha, destacando as expectativas de inflação, a atividade econômica desacelerando de uma "forma mais notória" e a apreciação cambial "bastante significativa".

No último boletim Focus antes da reunião de 30 de julho, pelo qual o próprio BC compila as expectativas do mercado, os agentes econômicos indicavam que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), que mede a inflação oficial do país, deveria encerrar o ano em 5,09%. Para 2027, a expectativa era de 4%.

No Focus desta semana, as apostas caíram para 4,83% neste ano e 3,9% no longo prazo.

Enquanto isso, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro avançou 0,4% no segundo trimestre, de acordo com dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) no começo do mês, refletindo uma perda de fôlego ante o resultado dos primeiros três meses do ano.

Já o dólar foi de R$ 5,56 no fechamento de 29 de julho a R$ 5,30 nesta quarta. No melhor momento do dia, a divisa chegou a ser cotada em R$ 5,27.

"Um comunicado extremamente hawk. [...] Todos esses elementos poderiam ter sensibilizado um pouco o Copom ao fazer alguma alteração sútil no comunicado. A gente não observou isso. Mantém o mesmo tom da moderação", analisou Damico ao CNN Money, após a divulgação da decisão.

Potencializar a política monetária

Os diretores da autarquia votaram, de forma unânime, pela manutenção da taxa básica de juros no patamar de 15% ao ano pela segunda vez desde a interrupção do ciclo de aperto monetário.

A leitura que a economista-chefe da Buysidebrazil faz é de que o BC não deu grande reconhecimento à melhora do cenário. "O objetivo aqui é tentar elevar ao máximo a potência da política monetária. Promover uma reancoragem adicional das expectativas de inflação", avaliou Damico.

A decisão vem na "cauda mais dura do espectro de possibilidades", segundo Natalie Victal, economista-chefe da SulAmérica Investimentos, ao manter as projeções de inflação de longo prazo apesar da melhora do câmbio, não suavizar a avaliação do cenário e reforçar o risco fiscal como motivo de cautela.

"Para o mercado, trata-se de um comunicado duro, sem concessões, que dificulta uma mudança rápida de tom. Dada a comunicação de hoje, flexibilizações em 2025 só ocorreriam diante de melhora relevante de cenário", diz Victal.

No mercado de renda fixa, nota-se a possibilidade de abertura na parte curta da curva, considerando que, de maneira estrutural, não são esperadas grandes mudanças na política monetária, segundo Camilla Dolle, Head de Renda Fixa do Research da XP.

"Em algum momento a partir do ano que vem a gente deve começar a ver essa queda de Selic que deveria reduzir essa rentabilidade, mas continuando em dois dígitos. O comunicado porém vem muito em linha, o que dá indício mais de talvez atrasar o início dos cortes do que gerar uma mudança estrutural de visão", explica Dolle.

Desse modo, Adriana Dupita, economista para mercados emergentes da Bloomberg Economics, ressalta que "ao manter a projeção de inflação para o 1º tri de 2027 mesmo com um câmbio mais forte e classificar a desaceleração da atividade como compatível com o esperado, o BCB reduziu o espaço para uma guinada dovish no próximo encontro".

"A postura cautelosa vem mostrando resultados: tem contribuído para conter a inflação e parece ter influenciado a incipiente queda das expectativas de inflação de longo prazo. Nossa avaliação é que o BCB deve seguir com a postura cautelosa e manter os juros em 15% até o fim do ano."

A autoridade monetária reduziu ligeiramente suas expectativas para a inflação de curto prazo - de 4,9% para 4,8% ao final deste ano -, mas manteve as estimativas para o horizonte relevante da política monetária.

Apesar das melhoras incipientes, o comunicado ainda aponta para um mercado de trabalho bastante resiliente e expectativas inflacionárias desancoradas.

Apurado pela PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE, o desemprego atingiu o menor patamar da série histórica no trimestre até julho. A pesquisa mostra também que a renda dos trabalhadores e a massa salarial continuam crescendo acima da inflação.

Adicionalmente, deixa no radar fatores que colocam volatilidade no ambiente, como conflitos geopolíticos e tarifas, especialmente as aplicadas sobre o Brasil.

"Neste ambiente, entendemos que o próximo movimento, claro, será de corte, mas o processo não nos parece estar na iminência de começar. Ao contrário, enquanto os indicadores não apontarem todos nessa direção, entendemos que o BC manterá sua postura mais cautelosa. Com isso, mantemos nossa projeção de Selic em 15% ao final desse ano, passando a cair no primeiro trimestre de 2026", afirma Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos.

O Banco Central segue com sua balança assimétrica tanto para riscos de alta, quanto de baixa da inflação. O comitê deixou claro que segue vigilante, sem indicar quando o ciclo de cortes irá começar e reforçando que "não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado".

"Entendemos que um ciclo de afrouxamento monetário só deve ocorrer quando houver maior clareza sobre a materialização dos riscos de baixa, o que traria confiança na convergência das condições financeiras", pontua Ariane Benedito, economista-chefe do PicPay.

Perspectivas

Além do olhar para o início do corte de juros, as economistas ouvidas pela CNN destacam também o efeito da política monetária no câmbio.

"Apesar de ver a postura ainda bastante dura com relação à expectativa da política monetária aqui, a gente vê um cenário de melhora lá fora. O corte de juros pelo Fed hoje já tem tido até um efeito no câmbio", indicou Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, em entrevista ao CNN Arena.

"Ainda pode haver um impacto positivo do câmbio na inflação nos próximos meses. O cenário externo contribui principalmente via câmbio: um dólar mais fraco ajuda a controlar preços de bens comercializáveis, e também uma inflação mais baixa de bens industriais", explicou.

O Federal Reserve também divulgou sua decisão de política monetária nesta quarta, optando por reduzir os juros dos Estados Unidos pela primeira vez desde dezembro. Ademais, o banco central norte-americano já sinalizou que deve voltar a cortar os juros nas suas próximas duas reuniões deste ano.

"Com a Selic alta e o Fed baixando juros nos Estados Unidos, a tendência é continuarmos vendo um efeito positivo sobre a nossa taxa de câmbio nos próximos dias", indica Cristiane Quartaroli, economista-chefe do Ouribank.

Apesar de a mediana do mercado apurada pelo boletim Focus indicar que o BC só deve voltar a cortar os juros no dia 28 de janeiro de 2026, Andrea Damico, da Buysidebrazil, acredita que "dizer que não existe expectativa [de corte para este ano] é cedo demais".

O cenário da casa é de uma redução da Selic já em dezembro, considerando que a reunião de novembro do Copom pode trazer uma sinalização que prepare o terreno para o reajuste.

Credibilidade do BC

Alvo de questionamento no começo do ano, o Banco Central reforça sua credibilidade na condução da política monetária, segundo as economistas ouvidas pela CNN.

Com a virada ao terceiro ano de mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o governo passou a contar com a maioria dos indicados ao quadro de diretores da autarquia, inclusive a cadeira de presidente, que passou a ser ocupada por Gabriel Galípolo, ex-secretário da Fazenda de Fernando Haddad.

Lula vinha atacando a postura do ex-presidente do BC, Roberto Campos Neto, indicado ao cargo por Jair Bolsonaro (PL). Na condução da política monetária, Campos Neto manteve a Selic elevada pelos primeiros meses de Lula 3.

O temor do mercado era de que, ao passar a ter a maioria de indicados no Copom, a opinião de Lula influenciasse nas decisões da política monetária.

"Uma vertente mais positiva mostra um Banco Central mais independente, e isso aumenta a credibilidade do BC. Manter a Selic reforça que o Banco Central está disposto a segurar juros mesmo se houver pressão política ou pressão por cortes — especialmente relevante em momentos de busca de crescimento econômico", avalia Adriana Ricci, CEO da SHS Investimentos.

"O Banco Central decide pela manutenção de forma unânime mais uma vez, ou seja, ainda mostrando ali a união do colegiado em relação à perspectiva para a parte de inflação", observa Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3 Investimentos, destacando a alta dos futuros de Ibovespa no pós-mercado.

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