Bilionários ficaram US$ 2,5 tri mais ricos em 2025, diz Oxfam
Organização aponta que o montante seria suficiente para erradicar a pobreza extrema 26 vezes

A riqueza dos bilionários cresceu US$ 2,5 trilhões em 2025, aumento de mais de 16% em relação ao ano anterior, de acordo o relatório da Oxfam preparado para a abertura do Fórum Econômico Mundial em Davos nesta segunda-feira (19).
A organização aponta que o montante seria suficiente para erradicar a pobreza extrema 26 vezes. O estudo mostra que a riqueza coletiva dos mais ricos (cerca de 3 mil pessoas) é quase equivalente à riqueza total detida pela metade mais pobre da humanidade – 4,1 bilhões de pessoas.
O crescimento da riqueza dos bilionários no ano passado foi três vezes mais rápida do que a média dos últimos cinco anos e chegou a US$ 18,3 trilhões – nível mais alto da história, com aumento de 81% desde 2020. Ao mesmo tempo que 1 em cada 4 pessoas não tem regularmente o suficiente para comer e quase metade da população mundial vive na pobreza.
"O aumento desproporcional da riqueza dos bilionários em um contexto global de pobreza coincide com várias medidas políticas que são tomadas para garantir a manutenção e a reprodução dessa riqueza. Coincide, por exemplo, com a administração Trump. A agenda do presidente dos Estados Unidos é completamente voltada para a proteção de bilionários que financiam suas campanhas. Tem um conjunto de países que partilham dessa agenda de redução de impostos para os super-ricos, e nós não conseguimos avançar na tributação global das grandes corporações", analisa Viviana Santiago, diretora executiva da Oxfam Brasil.
Santiago ressalta que as decisões políticas são deliberadamente tomadas para proteção dos super-ricos e a manutenção dessa riqueza.
Na outra ponta, a taxa de redução da pobreza estagnou, a níveis semelhantes ao de 2019, com aumento da pobreza extrema na África. Para a Oxfam, decisões políticas tomadas por governos em todo o mundo no ano passado para reduzir orçamentos de ajuda afetaram diretamente as pessoas que vivem na pobreza e podem levar a mais de 14 milhões de mortes adicionais até 2030.
Desigualdade no Brasil
No Brasil, a concentração de riqueza chama atenção: o país reúne o maior número de bilionários da América Latina e do Caribe, com 66 pessoas que acumulam juntas cerca de US$ 253 bilhões, a maior fortuna total da região.
De acordo com o relatório, esse cenário convive com um sistema tributário historicamente regressivo, no qual a maior parte da carga recai sobre o consumo e sobre trabalhadores, penalizando de forma desproporcional os mais pobres, enquanto as rendas mais altas seguem insuficientemente tributadas.
Apesar da recente reforma do imposto de renda, segundo a organização, o país ainda precisa avançar na tributação de dividendos, grandes fortunas e heranças para enfrentar estruturalmente a desigualdade.
"Ao pensar a realidade do Brasil, um dos principais entraves para uma agenda de reforma tributária de fato progressiva é o posicionamento dos super-ricos e a defesa que se faz desses indivíduos no próprio parlamento. Nós identificamos mandatos que estão comprometidos com a manutenção dessa estrutura tributária para proteção de certos setores produtivos, que são aqueles setores produtivos vinculados a essa produção de extrema riqueza", avalia Santiago.
Para a diretora executiva da Oxfam Brasil, a narrativa de que tributar lucros, dividendos e heranças prejudicaria a economia não é verdadeira.
"Existe um pânico na maioria da população de que ameaçar grandes riquezas ameaçaria a sociedade como um todo, essas narrativas estão presentes para dificultar a discussão da tributação. Costumamos falar de uma linha da pobreza, por que não se fala em linha da riqueza? Não é possível que o país em que milhões de pessoas vivem em situação de fome tenha a maior concentração de bilionários da América Latina."
Bilionários ocupam mais cargos públicos
O estudo "Resistindo ao Domínio dos Ricos: Protegendo a Liberdade do Poder dos Bilionários" também analisa como os super-ricos estão garantindo poder político para moldar as regras das economias e sociedades em benefício próprio e em detrimento dos direitos e liberdades das pessoas em todo o mundo.
A Oxfam estima que bilionários têm 4.000 vezes mais probabilidade de ocupar cargos políticos do que cidadãos comuns.
Para Viviana Santiago, da Oxfam, os impactos da concentração de riqueza sobre a democracia é algo que precisa ser analisado com urgência porque impacta diretamente o acesso à direitos básicos e a criação de políticas públicas.
"Precisamos entender que essa concentração de poder econômico se reverbera na construção de candidaturas e essas próprias pessoas começam a se propor como soluções para os desafios de problemas da sociedade. Começamos a ver um incremento no número das candidaturas de super-ricos e eles ocupam os cargos públicos para moldar as decisões políticas de maneira que garanta a manutenção dos seus privilégios."