Brasil é um dos únicos países onde mercado precifica queda de juros, diz Campos Neto

Campos Neto também destacou surpresa positiva no mercado de trabalho brasileiro

Do CNN Brasil Business*
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O presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, disse nesta segunda-feira (15) que o Brasil é um dos únicos países onde o mercado precifica queda de juros no curto prazo.

"O Brasil foi o que fez o trabalho na frente em termos de política monetária. Os únicos lugares onde tem mais gente do mercado precificando queda nos juros é no Brasil e no Japão, e no Japão por uma causa diferente", disse em debate sobre inflação promovido pelo Instituto Millenium.

"Isso mostra que o mercado ainda entende que os países, na média, vão ter que subir mais os juros".

Ele explica que o BC brasileiro entendeu que a inflação global seria mais persistente do que o esperado inicialmente, o que contaminaria a economia brasileira.

O presidente do BC também destacou a surpresa positiva no mercado de trabalho brasileiro, afirmando que “nunca imaginaria” estar falando em taxa de desemprego abaixo de 9%.

Enfatizando ser difícil estimar a taxa neutra de desemprego no país --que não pressiona nem desacelera a inflação--, ele afirmou que ainda há margem no mercado de trabalho e estimou que o dado provavelmente cairá para perto de 8,5%.

Nos três meses até junho, último dado disponível, o desemprego no país recuou a 9,3%, menor patamar para o período desde 2015, segundo dados do IBGE.

Campos Neto disse ainda que, apesar da melhora nos preços vista nos últimos meses no Brasil, a inflação brasileira segue “bastante alta”.

“A inflação de administrados está caindo com as medidas do governo, mas serviços estão subindo. Começamos a ver alguns sinais de estabilização em bens industriais. Mas olhamos a inflação mais no longo prazo, não ficamos tão guiados pelo ruído de curto prazo. Entendemos que ouve um mecanismo para redução de inflação e é muito difícil modelar impacto nas cadeias”, afirmou.

Nesse contexto, Campos Neto lembrou que mercado mudou expectativa de inflação para 2022, mas não para 2023 e 2024. “É como se tivesse medidas do governo pressionando a inflação para baixo, para os componentes dos anos subsequentes são mais forte que a inércia da queda do ano corrente”, avaliou.

Para ele, já é possível ver uma desaceleração nos gargalos de produção de alguns produtos, como semicondutores, além da normalização dos fretes internacionais. “Grande parte dos países ainda tem expectativa de inflação acima da meta em 2023.”

Fiscal em 2023 preocupa

Campos Neto cita como preocupação o quadro fiscal brasileiro em 2023, diante da discussão sobre continuidade de medidas temporárias implementadas pelo governo.

Ele destacou a importância do debate sobre como será o financiamento dessas medidas a partir do ano que vem, em referência aos programas sociais reforçados temporariamente pelo governo e o Congresso.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, vem defendendo que o Brasil "está condenado a crescer" nos próximos 10 anos, mesmo com inflação e juros mais altos, acompanhando queda no desemprego e alta dos investimentos.

*Com Laura Slobodeicov, Maria Augusta Messias e Malu Patricio da CNN, Reuters e Agência Estado

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