Coface: Brasil ainda desconhece seguro de crédito e o vê como serviço caro

Em entrevista ao Capital Insights, executiva destacou que, ainda que a inadimplência venha aumentando, mercado de seguro de crédito não alcançou seu potencial

Da CNN Brasil
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A CEO da Coface na América Latina, Marcele Lemos, quer trazer à luz do brasileiro o serviço de seguro de crédito — que, culturalmente, ainda é visto como custoso, em vez de um investimento na proteção do negócio.

Em entrevista ao Capital Insights, parceria entre o CNN Money e a Broadcast, a executiva destacou que, ainda que a inadimplência venha aumentando em todos os países, o mercado não alcançou o seu potencial, justamente pelo desconhecimento das empresas sobre o produto.

"Não é comum o brasileiro se proteger. A primeira barreira do seguro é a cultura", afirmou a CEO da Coface.

No programa, que entrevista semanalmente referências do mercado financeiro, Lemos destacou o que faz, de fato, uma seguradora de crédito, e trouxe a perspectiva sobre o setor em relação a temas importantes da cena econômica brasileira e mundial — como taxa de juros, recuperações judiciais e o tarifaço de Donald Trump, em vigor desde agosto.

Confira os principais pontos da entrevista com Lemos a seguir (e para acompanhar ao vivo da próxima vez: o programa vai ao ar toda quinta, às 19h, no CNN Money).

O que é uma seguradora de crédito e como ela pode apoiar as empresas num momento de tantas incertezas?

Seguro de crédito é diferente dos seguros mais comuns, como de vida e de automóvel: ele protege recebíveis.

Por exemplo: uma empresa vende a prazo (180 dias) e quer garantir que receberá. A seguradora analisa a carteira de clientes, atribui limites de crédito rotativos durante a vigência da apólice, que é de um a dois anos.

O cliente vende, dá prazo, recebe e o limite se recompõe. Se, no vencimento, o comprador não pagar, acionamos o seguro: primeiro cobrança amigável; se não tiver sucesso, indenizamos o segurado e a seguradora se sub-roga no crédito para buscar judicialmente.

Junto com isso há monitoramento contínuo da saúde financeira do comprador, alertas, cobrança e a indenização quando cabível.

Os dados do Banco Central apontam alta marginal na inadimplência das pessoas físicas. Há o mesmo movimento entre as empresas?

Os dados do Serasa mostraram que, de janeiro a abril, houve queda de 7% nas recuperações judiciais, mas sobre uma base muito elevada, porque em 2024 a recuperação judicial aumentou a um recorde de 68%.

E depois de abril seguimos vendo um aumento. Como somos globais, acompanhamos o mundo e observamos inadimplência aumentando em vários países.

Qual é hoje o maior risco numa operação de crédito corporativa?

O risco de crédito. Tudo pode impactar a empresa e levá-la à inadimplência: preços de commodities, fertilizantes, El Niño, câmbio, e principalmente juros — saímos de 2% em 2020 para 15% em 2025.

Só um terço das empresas contrata seguro de crédito. O que falta para ampliar o acesso?

Porque o seguro é visto como um custo; uma despesa a mais. E não como uma forma de proteção que pode te evitar problemas futuros. A primeira barreira que enfrentamos é cultural.

A segunda é que muitas empresas ainda desconhecem os benefícios do produto. Somos um grande aliado das empresas: o seguro de crédito entrega análise, monitoramento, cobrança, indenização e pode ser garantia para antecipação de recebíveis com o banco — em geral, mais competitivo que carta de crédito.

O tarifaço dos EUA aumentou a demanda por seguro? Como a Coface apoiou as empresas afetadas?

Sim: a procura por seguro de crédito à exportação cresceu aproximadamente 33% neste ano. Historicamente, cerca de 20% do prêmio do mercado é exportação e 80% doméstico.

Mas o cenário de incerteza eleva a percepção de risco e acelera a contratação. Estamos em um entorno econômico mais complexo para os executivos, que precisa buscar proteção para continuar desenvolvendo seus negócios e crescendo sendo de forma sustentável.

E aí aparece o seguro de crédito: quando o país está em crise ou em situações econômicas mais voláteis, aumenta muito a demanda pelo nosso serviço.

Quais são os próximos passos da Coface?

O mercado cresce 14% ao ano, com muito potencial. O plano até 2027 foca em: reforçar dados e informação (com ajuda de IA) para decisões e alertas; desenvolver o negócio de informação (relatórios, opinião de crédito, cobrança global como serviço); conectividade com sistemas dos clientes; e sustentabilidade/ESG (redução de emissões), em linha com a regulação francesa.

Publicado por Sofia Kercher, da CNN, em São Paulo

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