Como é a economia na Groenlândia, ilha autônoma que se tornou alvo de Trump

País enfrenta desafios com envelhecimento da população e crise climática

Gisele Farias, colaboração para a CNN Brasil, São Paulo
  • Imagem gerada por IA
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A Groênlandia, ilha autônoma pertencente à Dinamarca, passou a ocupar o centro dos holofotes do noticiário devido às insistentes ameças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de comprar o território — citando a localização estratégica como questão de segurança nacional norte-americana.

Com cerca de 81% do território coberto por gelo — profundidade rica de minerais críticos não explorados —, a Groenlândia possui uma população pequena de 56 mil pessoas, sendo 90% formada por povos originários, explica a professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá, Carolina Pavese.

A economia do país depende principalmente da pesca e de subsídios da Dinamarca. Fixado pela Lei de Autogoverno, o subsídio dinamarquês é de 3,4 bilhões de coroas dinamarquesas anuais (quase US$ 500 milhões).

Com localização geoestratégica para a segurança e o comércio internacional, a Groenlândia possui uma cultura e história própria, muito diferente do modelo de sociedade ocidental, segundo a professora.

Devido, inclusive, a essas características, a pesca figura como a principal atividade econômica dos moradores da ilha, sendo grande parte voltada ao consumo próprio, mas também exportado, principalmente para a União Europeia.

Além disso, cerca de 20% é exportado para a China. Os Estados Unidos não estão entre os principais parceiros na exportação da Groenlândia.

Já referente às importações da Groenlândia, tudo que não é produzido vem principalmente da União Europeia.

Economia em desaceleração

Um relatório do Banco Nacional da Dinamarca, divulgado em janeiro deste ano, alerta para a desaceleração da economia da Groenlândia, “com crescimento modesto e sérios desafios para as finanças públicas.”

Segundo o estudo, a ilha ártica enfrenta desafios fiscais em meio ao envelhecimento da população, baixa taxa de natalidade e escassez da mão de obra.

O banco cita que a desaceleração econômica se deve, em parte, a problemas de infraestrutura — como o atraso em projetos no fornecimento de energia.

“As finanças públicas deterioraram-se surpreendentemente em 2025, e a liquidez no Tesouro da Groenlândia caiu para um nível criticamente baixo no segundo semestre do ano", menciona o relatório.

O PIB (Produto Interno Bruto) da Groenlândia cresceu 0,2% em 2025, após expansão de 0,8% em 2024.

Conforme o relatório do Conselho Econômico da Groenlândia para o outono de 2025, o cenário econômico preocupante deve se estender para 2026, com uma projeção de crescimento de 0,8%,

Além disso, os desafios enfrentados na indústria da pesca estão relacionados a escassez de mão de obra.

A pesca de camarão, um dos principais produtos de exportação, é predominantemente composta em vários graus de processamento e, portanto, demanda mão de obra qualificada.

O valor das exportações de frutos-do-mar atingiu o pico de 5,5 bilhões de coroas groenlandesas em 2023 e, desde então, vem diminuindo devido à redução dos volumes de captura e à queda dos preços, mostra o banco nacional da Dinamarca.

Groenlândia não faz parte do mercado comum europeu

Apesar de pertencer à Dinamarca e ser membro da União Europeia, a Groenlândia não faz parte do mercado comum europeu, impedindo países do bloco a explorarem a pesca em seu território.

Ao ingressar na UE, na época chamada de Comunidade Europeia, em 1973, a Dinamarca sofreu uma pressão por parte da Groenlândia para não participar do mercado comum europeu, explica Pavese.

"O mercado comum europeu implica numa política comum de pesca, que, entre outras coisas, daria o direito a qualquer país membro da União Europeia em explorar a pesca nos territórios dos países membros e, consequentemente, na Groenlândia".

Crise climática e exploração de minérios

A perda da força econômica da ilha também passa pela mudança climática, simbolizada pelo aquecimento do mar. O degelo do Ártico impacta diretamente na vida marinha, afetando não só a principal forma de subsistência, mas também criado problemas para a própria manutenção da cultura local.

O derretimento do gelo também abre brecha para a exploração mineral da Groenlândia, chamando a atenção internacional para o potencial de minerais críticos — ativo fundamental para a economia internacional.

“Há um interesse a longo prazo em se explorar esses minérios e, consequentemente, tentar diminuir a dependência da China, disparado o principal fornecedor desses minérios, principalmente, as terras raras", explica Pavese.

A Groenlândia possui um governo autônomo, formado com um conselho liderado pelo primeiro-ministro. A premiê do país é Mette Frederiksen, que ocupa o cargo desde 2019.

O governo local é responsável por controlar questões como a política doméstica e cotidiana, enquanto o monarca da Dinamarca permanece como chefe de Estado.

Saúde, educação e policiamento local, portanto, são geridos pelo governo local da Groenlândia. Além disso, o legislativo é eleito diretamente pela população, em um sistema político democrático.

O país possui ainda seu próprio Conselho Econômico, cuja função é realizar avaliações contínuas das tendências econômicas e da sustentabilidade da política econômica.

Atualmente, vigora a Lei de Autogoverno da Groenlândia, de junho de 2009. O regime substituiu o Acordo de Autonomia, estabelecido desde 1979.

Com a Lei de Autogoverno, as relações entre a Dinamarca e a Groenlândia em relação às atividades de exploração de recursos minerais no território mudaram radicalmente.

As autoridades de autogoverno da Groenlândia decidiram assumir a responsabilidade pela área de recursos minerais, passando a deter o direito de utilizar os recursos minerais encontrados no subsolo.

Receitas provenientes da exploração de recursos minerais na Groenlândia seriam destinadas ao próprio governo autônomo, conforme a legislação vigente.

Além disso, o acordo econômico introduzido pela lei estabelece que, caso as autoridades do governo local da Groenlândia obtenham receitas com atividades de exploração mineral, o subsídio do Governo Dinamarquês será reduzido.

Por outro lado, o governo local possui grande preocupação ambiental, além de buscar preservar a cultura e o modo de vida local, integrado ao meio ambiente. A comunidade é fundamentalmente composta pelo povo inuit, que não possui propriedade privada.

“Há uma ideia de um compartilhamento do espaço e, consequentemente, se organizam de uma forma orientada pela proteção do interesse coletivo.”, explica Pavese.

Exploração, EUA e crise climática

A riqueza mineral inexplorada da Groenlândia ajudou a colocar a ilha no topo da lista de desejos de Trump, como uma forma de combater o domínio da China sobre os metais de terras raras.

Na quarta-feira (21), Trump recuou nas ameaças para anexar a Groenlândia, tendo descartado o uso de força militar e tarifas. Isso aconteceu após uma escalada nas tensões entre os EUA e países europeus.

O presidente americano havia ameaçado impor tarifas às nações que se opusessem às suas ambições de comprar o território autônomo da Dinamarca. A Dinamarca e seus aliados europeus, porém, se recusaram a ceder às exigências de Trump.

Por outro lado, Trump afirmou ter chegado a um acordo preliminar com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) sobre o futuro da Groenlândia, que incluirá direitos sobre minerais de terras raras. Ele não especificou nenhum termo preliminar.

Pavese explica que a exploração das terras raras é uma atividade econômica extremamente predatória, e, no caso das terras raras, é um processo ainda mais complexo. “Por estarem em grau de profundidade no solo muito mais amplo, as terras raras têm um impacto social e ambiental muito maior do que tem a mineração comum.”

Referente a Groenlândia, a especialista explica que ainda não houve degelo suficiente para uma superexploração.

Apesar de não possuir acesso direto a boa parte desse material tão raro, as terras raras são cada vez mais cobiçadas. Nem 3% das reservas de terras raras no mundo são exploradas comercialmente, principalmente por uma ausência de tecnologia para se fazer esse processo.

Atualmente, tudo o que se debate são levantamentos preliminares ou uma exploração não comercial, mas ensaios para poder sondar esses recursos, explica Pavese.

“Seria uma aposta muito a longo prazo, mas que vem principalmente com interesse norte-americano de driblar essa dependência que os próprios Estados Unidos têm da China.”

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