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    Copom: divisão sinaliza futuro do BC e juros acima de dois dígitos no fim do ano, dizem analistas

    Com placar apertado, colegiado decidiu por corte de 0,25, trazendo Selic para 10,50% ao ano

    Sede do Banco Central, em Brasília
    Sede do Banco Central, em Brasília 14/02/2023 - REUTERS/Adriano Machado

    João Nakamurada CNN São Paulo

    O placar apertado da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) nesta quarta-feira (8) dá sinais de como será o comportamento do colegiado nas próximas reuniões, além de afastar a possibilidade de a Selic encerrar 2024 em apenas um dígito, como o previsto até então.

    Esta é a visão de analistas do mercado ouvidos pela CNN sobre a decisão de corte dos juros em 0,25 ponto percentual (p.p.), trazendo a taxa básica para 10,50% ao ano.

    Dos nove membros votantes, cinco — incluindo o presidente Roberto Campos Neto — inclinaram pela desaceleração do ciclo de afrouxamento monetário, para 0,25 ponto; enquanto os outros quatro — todos indicados pelo atual governo — optaram pela manutenção da redução de 0,5 p.p.

    Especialistas destacaram que a postura reforça as preocupações do BC com o cenário externo, que se mostra mais adverso e volátil, além do olhar a política fiscal do país.

    Mas, além disso, os economistas chamaram atenção para como a divisão dá sinais sobre o futuro do Comitê.

    “Há uma unanimidade entre os novos diretores. [O que] eventualmente já sinaliza para um BC que no futuro próximo pode ter uma cabeça mais dovish [suave], pro juro mais baixo”, avalia Paulo Gala, economista chefe do Banco Master.

    Na mesma linha, Beto Saadia, economista e diretor de investimentos da Nomos, pontua que a divisão do colegiado é algo raro e que “obviamente sinaliza um pouco da filosofia de como vai ser o Banco Central no futuro”.

    O mandato de Campos Neto à frente do BC se encerra no fim do ano. A sucessão é acompanhada tanto no mundo político quanto no mercado, uma vez que a postura do presidente entrou por vezes em rota de colisão com o posicionamento do governo Lula, principalmente na questão dos juros.

    Após aproximação entre o presidente da autarquia e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a divisão entre o governo e Campos Neto parecia ter ficado em 2023, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar o indicado de Bolsonaro para o BC e o ritmo de corte dos juros em março.

    Pressões inflacionárias

    O Copom já vinha sinalizando que poderia adotar uma maior cautela uma vez que pressões inflacionárias se mantinham persistentes tanto no cenário doméstico quanto exterior.

    Na ata da reunião de março, a última antes do encontro desta quarta, parte do Comitê já sinalizava para a redução no ritmo de cortes dos juros em decorrência das incertezas.

    Segundo o boletim Focus divulgado na segunda-feira (6), o mercado já apontava para essa possibilidade ao mostrar que os economistas elevaram para 10,50% sua estimativa para o patamar dos juros ao final de maio, interrompendo sequência de 38 semanas em 10,25%. As previsões se concretizaram nesta quarta.

    O documento, que reúne as expectativas dos analistas sobre uma série de indicadores econômicos, também apontava para Selic em 9,63% ao fim do ano.

    Com a decisão desta quarta, porém, analistas já enxergam que a taxa básica deve se manter em dois dígitos até o próximo ano.

    “Projetamos, por ora, Selic em 10,25% ao final de 2024, com mais um corte de 25 pontos-base. Aguardamos a ata da reunião, que será divulgada na próxima terça-feira (14), para termos mais detalhes sobre os rumos da política monetária”, informou o C6 Bank em nota.

    O cenário deve se manter rígido até o fim do ano, segundo avaliação de Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos.

    “Na atual circunstância, o mercado deixou de acreditar que há possibilidade de uma taxa de juros no patamar de um dígito em 2024”, destaca.

    A desaceleração, segundo o BC, visou proteger o processo de desinflação que já é visto no Brasil em meio às pressões inflacionárias, como o mercado de trabalho aquecido e o exterior incerto.

    “Essa decisão é compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta ao longo do horizonte relevante, que inclui o ano de 2025”, escreveu o Copom em comunicado.

    Para Rafaela Vitória, economista-chefe do Inter, a expectativa é que se mantenha o ritmo de corte de 0,25 ponto nos próximos encontros, encerrando a Selic em 9,25% em neste ano.

    “Além disso, com expectativa de juros maiores, que já foram precificadas pelo mercado, podemos ver uma desaceleração mais acentuada da atividade, revertendo a incipiente melhora no mercado de crédito observada no primeiro trimestre”, afirmou em nota.

    Por um lado, há a percepção de que a medida deve ancorar as expectativas e sinalizar responsabilidade do Copom para o mercado.

    “Essa medida pode fortalecer a confiança do mercado de que a inflação vai permanecer sob controle”, avalia André Colares, CEO da Smart House Investments.

    “Decisão incompatível”

    Olhando para os setores da economia, não foram todas as partes que receberam bem a notícia.

    A Confederação Nacional da Indústria (CNI) foi uma das entidades brasileiras que viu com maus olhos a desaceleração do corte de juros.

    “Essa decisão é incompatível com o atual cenário de inflação controlado e torna impraticável continuar o projeto de neoindustrialização do país com altos níveis de taxa de juros”, afirmou em nota o presidente da CNI, Ricardo Alban.

    “Reduzir o ritmo de corte da taxa básica tira a oportunidade de o Brasil alcançar mais prosperidade econômica, aumento de emprego e de renda”.

    A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) também se mostrou preocupada com o nível alto dos juros para a indústria nacional.

    “Mesmo com a queda de 0,25 ponto percentual decidida nesta quarta-feira, a Selic segue alta, o que inibe o crescimento sustentado e sustentável do PIB e os investimentos produtivos”, disse a associação em nota.

    E em um cenário de alto endividamento no país, no qual muitos estão conseguindo retomar o acesso ao crédito por meio de programas como o Desenrola Brasil, o Sebrae alerta para o encarecimento dos empréstimos.

    “Ainda é um valor muito elevado. Entendemos que o Banco Central está preocupado com o cenário externo mais delicado e talvez com as contas públicas, mas não há motivo para retrocesso”, pontuou em nota o presidente do Sebrae, Décio Lima.