Dólar começa maio em alta de 1,55%, pressionado por tensão entre EUA e China
Instabilidade política no Brasil também pressionou a moeda norte-americana, que encerrou abril com valorização de 4,69%.

O dólar começou o mês de maio em disparada contra o real, e terminou em alta de mais de 1%, em meio a temores sobre um retorno da guerra comercial entre Estados Unidos e China e de tensões políticas no Brasil. No fim da sessão, a moeda norte-americana terminou com avanço de 1,55%, a R$ 5,5224. Na semana passada, a cotação caiu 4,06%, mas ainda encerrou abril com valorização de 4,69%.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na semana passada que seu árduo acordo comercial com a China agora é de importância secundária diante da pandemia de coronavírus, e ameaçou novas tarifas sobre Pequim à medida que seu governo elabora medidas de retaliação diante da crise de saúde.
Em outro um desdobramento tenso na retórica entre as duas maiores economias do mundo, o secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, disse no domingo que há "quantidade significativa de evidências" de que o coronavírus surgiu em um laboratório chinês.
"A intensificação dessas tensões (entre EUA e China) ocorre em um cenário no qual prevalecem as preocupações em relação ao PIB global", disse o Bradesco em boletim diário. "Assim, o dólar se fortalece, ao passo que os mercados acionários operam em queda e os contratos futuros de petróleo voltam a recuar."
Diante desse cenário, o real voltou a registrar desempenho pior que seus pares emergentes, a exemplo de outros dias em abril, com investidores demandando a segurança da divisa. O receio é que, não bastasse o baque econômico decorrente da COVID-19, os agentes agora precisem lidar com uma edição 2.0 da guerra comercial entre as duas maiores economias globais.
Nesta segunda-feira, o Banco Central (BC) fez um leilão de até 10 mil contratos de swap cambial tradicional com vencimento em setembro de 2020 e janeiro de 2021 para rolagem.
Política nacional
Enquanto isso, o ambiente político doméstico seguiu desfavorável para os ativos locais, avalia Luciano Rostagno, estrategista-chefe do banco Mizuho. "Bolsonaro segue apoiando manifestações contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso, estressando ainda mais as relações entre os poderes. Isso pode agregar à pressão de baixa sobre o real."
No domingo, após fazer aparição de quase uma hora na rampa do Palácio do Planalto para centenas de pessoas que se manifestavam a favor do seu governo e contra o STF e o presidente da Câmara, o presidente Jair Bolsonaro disse que a Constituição será cumprida no país "a qualquer preço" e que o governo tem o povo e as Forças Armadas ao seu lado.
As declarações ocorreram após o ministro do STF Alexandre de Moraes suspender a nomeação de Alexandre Ramagem para o cargo de diretor-geral da Polícia Federal, em decisão liminar, citando possível comprometimento do indicado, que tem relação de amizade com a família de Bolsonaro. Nesta segunda-feira, o presidente nomeou ao cargo Rolando Alexandre de Souza, braço direito de Ramagem.
Segundo levantamento feito por Rostagno, "77% da variação da queda do real (em abril) veio de fatores domésticos". "Isso mostra o quanto esse ambiente político turbulento está afetando a moeda brasileira."
Fator Moro
O mercado monitorou ainda desdobramentos do depoimento prestado no sábado por Sergio Moro, que acusou Bolsonaro de tê-lo pressionado indevidamente em relação à troca do comando da Polícia Federal. "Agora, toda sociedade brasileira aguarda um possível vazamento que revele o conteúdo das declarações feitas pelo ex-ministro", disse a Guide Investimentos em nota.
Analistas do Goldman Sachs calculam que o excesso de desvalorização do real já ultrapassa os 20%, pelas métricas do banco. Porém, diferentemente de outros períodos semelhantes, os baixos juros reais pagos pelo Brasil atualmente prejudicam a atratividade da moeda, junto com "outras partes da história macro" local. O Goldman projeta novo corte de 50 pontos-base no juro básico da economia nesta semana.
"Entre as histórias de valor profundo no câmbio latino-americano, preferimos o peso mexicano, que apresenta um cenário macroeconômico que, em relação ao Brasil, deve mostrar mais resiliência cambial durante a crise do coronavírus", disseram profissionais do banco norte-americano em nota.
Enquanto o real registrou o pior desempenho entre as principais moedas nesta sessão, o peso mexicano ocupou a ponta contrária, em alta de 1,9% ante o dólar.
*Com informações da Reuters