Em curso, Paulo Guedes cita méritos de governos petistas, “equívocos” de Marx e “feroz” capitalismo chinês

Ex-ministro da Economia lançou curso online sobre macroeconomia e investimentos em parceria com o influencer de finanças Primo Rico

Danilo Moliterno, da CNN, São Paulo
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Ministro da Economia de Jair Bolsonaro, Paulo Guedes menciona méritos de governos petistas, afirma que Karl Marx está equivocado em sua teoria e diz que China pode ter capitalismo mais “feroz” desde a Inglaterra da Revolução Industrial — tudo isso em curso sobre macroeconomia e investimentos, oferecido online.

A CNN assistiu às duas primeiras aulas do curso de Paulo Guedes, em parceria com Primo Rico. Discreto desde que deixou o Executivo, o economista não poupa opiniões em seus vídeos.

Crítica a Marx e China “feroz”

Na aula 1, nomeada “Propostas para o Brasil decolar”, Guedes aparece sentado, em um cenário de iluminação mansa. Ao fundo, uma janela e um quadro tomado por gráficos. O economista usa alguns minutos para elencar e defender feitos de sua gestão no Executivo.

Em meio à defesa, mergulha em um debate sobre teoria econômica. Indica que a humanidade se organiza em economia de mercado desde os fenícios e babilônicos e classifica o filósofo e economista Karl Marx como “um pós-ricardiano menor”. David Ricardo fundou a teoria do valor-trabalho — que fundamenta o Marxismo.

“O pai do socialismo é um pós-ricardiano menor, baseado em uma teoria totalmente equivocada. A teoria do valor-trabalho, manipulada por ele, se transformou em uma religião laica”, diz.

Aqui vale um rápido salto à aula 2, em que ele volta a mencionar o tema. Guedes diz na sessão que a interpretação de valor-trabalho é “um dano à humanidade”. A teoria defende que o valor de uma mercadoria é determinada pela quantidade de trabalho necessária para produzi-la — e, segundo o ex-ministro, “levou países à miséria”.

De volta à aula 1, Guedes exalta a eficiência das economias de mercado e fala de China. Segundo ele, o país asiático, apesar de politicamente fechado, vive em um “capitalismo brutal”. Para ele, “talvez” seja o capitalismo de “maior ferocidade” desde a Inglaterra que puxou a Revolução Industrial, entre o fim do século XVIII e começo do XIX.

De volta ao Brasil, defende a sustentabilidade fiscal como “um fenômeno”. Ele se denomina um "liberal democrata" e diz acreditar que este equilíbrio de contas deve ser alcançado via corte de gastos — mas indica que o caminho social-democrata, de aumento de arrecadação, também é válido, apesar de, na sua visão, menos efetivo.

Vitrola e méritos de governos petistas

Em meio a uma estante, uma luminária, uma vitrola e uma ilustradora que o auxilia nas explicações, Guedes ministra a aula 2, “Fim da disputa entre direita e esquerda”, quando se debruça sobre a política.

O economista abre a aula explicando seu ideal para a política: a divisão entre esquerda e direita deve ser superada. Para Guedes, tanto a extrema-esquerda, exemplificada com o comunismo de Josef Stalin, quanto a extrema-direita, exemplificada com o nazismo de Adolf Hitler, devem ser superados, dando lugar a um debate moderado.

Segundo Guedes, os extremos são “o inferno”. O conservadorismo e o socialismo — espécie de transição à moderação — são “o purgatório". Já a sociedade em que há a síntese entre a social-democracia e a democracia liberal, com moderados, é "o céu".

Ao indicar que o país deve fugir da polarização e caminhar em direção a este ideal, o que chama de “grande sociedade aberta”, Guedes chega a mencionar, entre os debates que devem ser superados, as expressões “roubou a eleição, roubou a urna”.

Ele se propõe, então, a fazer uma leitura da História recente do Brasil a partir desta ótica. Para Guedes, a ditadura militar (1964-1985) representou uma espécie de intersecção entre a extrema-direita e o conservadorismo. “Tinha aspectos de uma ditadura, mas ao mesmo tempo o Congresso estava aberto, com uma classe política legitimando”, diz.

Com a redemocratização, segundo o economista, houve uma “marcha à esquerda”. Guedes dedica parte do apanhado histórico para criticar a possibilidade de reeleição, que na sua opinião ampliou as distorções do sistema.

“Essa emenda, de reeleição [do Fernando Henrique Cardoso], causou uma ruptura dramática no sistema eleitoral brasileiro, porque sem a reeleição o presidente tem que fazer as coisas certas. Com a reeleição, há uma tentação de tentar ser reeleito, e ele começa a trabalhar para a reeleição”, disse.

Paulo Guedes, em sua descrição histórica, menciona méritos dos governos petistas. Ele destaca o Bolsa Família, bem como outros mecanismos de distribuição de renda e o orçamento participativo, como parte das “muitas coisas boas” que foram implementadas. Critica a falta de “legado institucional”.

“E o PT ficou quatro mandatos seguidos, teve muita coisa boa e muita ruim”, diz Guedes.

Para o ex-ministro, o pós-impeachment de Dilma Rousseff representa o fim da marcha à esquerda e a “redescoberta” de parte do espectro político brasileiro. Ele descreve a gestão Bolsonaro como “uma aliança entre conservadores e liberais, em oposição à hegemonia de esquerda” Na sua visão, atualmente, o país volta a caminhar na direção da grande sociedade aberta”.

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