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    Entenda o que fez o dólar ultrapassar R$ 5,30 e chegar ao maior valor em 6 meses

    Combinação de fatores domésticos e externos gerou tendência de alta para a moeda norte-americana

    João Pedro Malardo CNN Brasil Business

    em São Paulo

    Em pouco mais de um mês, a cotação do dólar em relação ao real passou de R$ 4,81 para R$ 5,42 na última quarta-feira. Com isso, a moeda atingiu o maior valor em seis meses, refletindo os efeitos de uma combinação de cenários doméstico e externo desfavoráveis.

    Ainda que, na véspera, o dólar tenha caído 1,45%, fechando a quinta-feira cotado a R$ 5,344, o patamar ainda é considerado elevado.

    Esse movimento, no entanto, não foi uma exclusividade do Brasil. O dólar atingiu valores recordes, por exemplo, em relação a moedas fortes como a libra esterlina e o euro. Neste último caso, alguns analistas já projetam uma paridade entre as moedas.

    Entretanto, questões internas de cada país podem influenciar mais ou menos nessa alta. No caso brasileiro, o retorno do risco fiscal nas últimas semanas serviu como um fator de repulsão de investimentos, piorando a situação.

    E, para especialistas consultados pelo CNN Brasil Business, a situação não deve melhorar no curto prazo, com a expectativa de novidades negativas tanto lá fora quanto internamente.

    Causas

    Considerando o menor valor que o dólar atingiu em 2022, de R$ 4,59 em 4 de abril, a alta da moeda chegou a 18,3% considerando o valor em 6 de julho.

    Roberto Dumas, estrategista-chefe do Voiter e professor do Insper, destaca, porém, que o valor não é muito divergente do resto do mundo. O euro, por exemplo, já caiu 18% em relação à moeda norte-americana. Países como Chile e Colômbia registraram quedas semelhantes.

    Por isso, ele considera que o principal fator para a valorização do dólar ante o real é externo. “O risco de uma recessão nos Estados Unidos faz as pessoas saírem dos países e irem para os títulos do Tesouro do país. O rendimento do de vencimento de 10 anos caiu de 3,30 para 2,87, e quando cai é porque o preço subiu, então a demanda aumentou”, explica.

    O risco citado por Dumas ganhou força nas últimas semanas entre investidores devido à intensificação do ciclo de alta de juros nos Estados Unidos.

    Para lidar com a maior inflação em 40 anos, o Federal Reserve subiu os juros em junho em 0,75 ponto percentual, a maior alta desde 1994. Com isso, cresceram as apostas em uma recessão em 2023, o que leva a um aumento da aversão a riscos e migração para ativos mais seguros, caso do dólar.

    Patricia Palomo, head de Investimentos e Operações da Unicred, afirma que “o dólar também vem ganhando valor por conta desse cenário de redução do ritmo de crescimento global como consequência do aumento das taxas de juros tanto nos Estados Unidos quanto na Europa”.

    O professor também aponta fatores que reforçam a incerteza global, como os movimentos de altas de juros em outros países, novos lockdowns na China ou possíveis desdobramentos econômicos da guerra na Ucrânia.

    Segundo Palomo, “os países emergentes em geral acabam sofrendo mais nesses movimentos [de saída de investimentos], e quando somamos isso aos fatores domésticos de cada um, os efeitos na desvalorização das próprias moedas podem ser potencializados”.

    Nesse sentido, Dumas avalia que “o mundo está com problemas, e o principal problema é externo”. Ou seja, isso não significa que a única causa seja externa.

    No caso do Brasil, ele cita como principal fator para a alta do dólar a apresentação da PEC dos Benefícios pelo governo.

    O projeto cria ou expande uma série de benefícios sociais, com gasto estimado em R$ 41 bilhões. Envolve, ainda, a decretação de um estado de emergência, o que permitiria realizar esses gastos fora do teto.

    Segundo Dumas, o projeto “aumentou o risco fiscal, porque pode continuar em 2023, e o mercado fica com receio que falte retidão fiscal do governo. Por mais que seja positivo ajudar quem precisa, o governo não consegue cortar nada? Precisa de uma PEC? Isso vai ter um efeito lá na frente”.

    Já Palomo avalia que o movimento do dólar foi intensificado por “decisões econômicas descoordenadas que criam maior incerteza em relação ao comportamento de variáveis importantes como nível da taxa de juros e dinâmica de aumento dos gastos públicos”.

    “Esse componente de incerteza acaba trazendo maior volatilidade nos preços relativos do real frente a outras moedas”, diz.

    O dólar pode subir mais?

    Para os especialistas, a tendência é que o dólar não tenha uma desvalorização significativa em relação ao real nos próximos meses, mesmo que tenha quedas pontuais, como aconteceu nesta quinta-feira.

    Na visão de Palomo, “o arrefecimento dos preços das commodities observado nas últimas semanas ajuda a tirar pressão externa de apreciação do dólar, mas a parte doméstica dificulta a leitura de tendência clara para o câmbio”.

    Para a analista, a ausência de uma coordenação entre a política fiscal do governo, com aumento de gastos, e a política monetária do Banco Central, contracionista com juros altos, deve manter uma incerteza sobre a dinâmica das contas públicas, prejudicando o real.

    “A sinalização recente mostra que o ímpeto por maiores gastos é generalizado no campo político. Dessa forma, o mercado enxerga o risco fiscal como uma realidade que já demonstra reflexos tanto na curva de juros doméstica como na taxa de câmbio”, diz.

    Roberto Dumas avalia que a chance do dólar voltar a ficar abaixo de R$ 5 em 2022 é pequena.

    De um lado, a migração de investidores para os Estados Unidos deve continuar conforme o Federal Reserve prossegue com o ciclo de alta de juros.

    Além disso, o desempenho positivo do real no primeiro trimestre foi apoiado em um esforço de diversificação de investimentos por estrangeiros e apostas em altas nos preços das commodities, duas coisas que não devem se repetir.

    Somado ao ambiente externo adverso, o professor cita as incertezas em torno da eleição presidencial em 2022.

    “A corrida eleitoral nem começou, e deve ser pesada, então ainda há espaço para uma depreciação cambial, podemos ver o dólar a R$ 5,50, R$ 5,70. Tudo é possível, pode até cair, mas o mais provável é que o real deprecie”, afirma.

    Internamente, ele destaca ainda que os investidores deverão se manter atentos à possibilidade de novos gastos fora do teto, com qualquer novidade negativa na área fiscal tendendo a prejudicar ainda mais o câmbio.

    “Para o dólar cair é difícil, mas seria preciso descartar completamente uma recessão nos Estados Unidos ou então o governo aqui manter a retidão fiscal, tentar evitar gastos fora do teto”, avalia.

    Diante desse cenário de alta, Dumas afirma que é possível que o Banco Central reveja seus planos e suba os juros ainda mais para tentar conter a desvalorização cambial e seus impactos inflacionários.

    “Se o dólar continuar acima de R$ 5,40, demandaria novos posicionamentos, já que a situação poderia levar a uma desancoragem de expectativas para a inflação”, diz.